Uso de biocarvão em cajueiros reduz gasto com água e melhora a eficiência produtiva
Após uma década do primeiro experimento, iniciado em janeiro de 2016, utilizando o biocarvão com uma granulometria (sistema chamado de biochar), pela Embrapa Agroindústria Tropical...
POR O ESTADO
Publicado em 01/07/2026 às 03:42
Após uma década do primeiro experimento, iniciado em janeiro de 2016, utilizando o biocarvão com uma granulometria (sistema chamado de biochar), pela Embrapa Agroindústria Tropical, observou-se, segundo o pesquisador responsável pelos estudos, Rubens Sonsol, economia de um ano de irrigação de cajueiros: -15% no clone “BRS 226” e – 19% no clone “CCP 076”. O primeiro é o cajueiro de maior porte, mais produtivo e mais tolerante ao estresse hídrico. O segundo é de menor porte, com pedúnculos de excelente qualidade para consumo de mesa.
A técnica consiste na aplicação de biocarvão e de hidrogel (que absorve grande volume de água) em diferentes fases do cultivo. De acordo com o pesquisador, trouxe possibilidades de melhorias na eficiência produtiva. “Melhor produtividade da água de irrigação, maior produtividade e peso de pedúnculo. Isso significa menos água para produzir.”
O biocarvão não é um produto comercializado, mas por outro lado o produtor rural pode preparar a partir de resíduos orgânicos disponíveis. Rubens Sonsol diz que o uso desses materiais, que mantêm a umidade próxima às raízes das plantas, pode ajudar os cajucultores do semiárido a conviver com a escassez hídrica, que afeta principalmente a fase de implantação dos pomares de cajueiro-anão.
Embora o cajueiro seja considerado tolerante à seca, a água é um dos principais fatores limitantes, em especial no primeiro ano de implantação do pomar. O pesquisador afirma que a aguação é o termo usado para uma molha de salvação, aplicada apenas nas plantas jovens no primeiro ano, e que a irrigação é algo mais tecnificando, em que se aplica água à medida que as plantas necessitam, mantendo a umidade no solo em nível ótimo para aumento da produção em níveis mais altos.
Ele diz que tem participado de palestras em cursos e treinamentos, levando a experiência, inclusive na PEC Brasil. Ao utilizar a técnica com irrigação de salvação (usada para fornecer água às plantas durante períodos críticos de seca severa ou estiagem prolongada), o hidrogel garantiu a sobrevivência de todas as mudas do clone “BRS 226” com uma economia de 46% nos custos de irrigação.
O pesquisador explica que é comum o cultivo de sequeiro ser desenvolvido em solos arenosos (neossolos quartzarênicos) com baixa capacidade de retenção de água, em um ambiente cuja estação chuvosa é pouco previsível em termos de início, quantidade e distribuição. Rubens Sonsol pontua que as mudas enxertadas sofrem com o estresse da mudança de ambiente do viveiro para o campo e que os produtores podem perder até metade delas na fase de implantação dos pomares, devido às condições de solo e clima.
Ele acrescenta que, enquanto a irrigação de salvação recomendada para implantar os pomares é de 25 litros por semana, com o uso do hidrogel foi possível manter todas as mudas vivas com 55 litros por ano. O melhor resultado foi obtido com o polímero hidrofílico: 100% de sobrevivência de mudas com economia de 46% nos custos de irrigação.
Os estudos avançaram para avaliar o impacto do biochar no rendimento da safra e na qualidade do pedúnculo (maçã do caju) e da castanha. O experimento focou em plantas já estabelecidas e irrigadas dos clones “BRS 226” e “CCP 76”, os mais cultivados no Ceará, e encontrou resultados bem distintos entre os dois.
Uma das grandes vantagens para o “BRS 226” foi o aumento linear e significativo do peso médio do pedúnculo com o aumento das doses de biochar. O estudo estima que, com a aplicação de 4 kg por planta, o clone BRS 226 pôde atingir um peso de pedúnculo similar ao do “CCP 76” (cerca de 140 g). Esse tipo não teve o peso afetado.
O produto também melhorou o sabor no “BRS 226”, tornando o pedúnculo mais doce e menos ácido. O achado é importante porque esse clone é conhecido pela tolerância à seca, mas apresenta menor valor comercial do pedúnculo quando comparado ao “CCP 76”. Rubens Sonsol salienta que o biochar pode favorecer o uso do “BRS 226” em mercados de maior valor agregado, como o de sucos e doces, o que reduz o desperdício de bagaço e aumenta a renda do agricultor.
Como preparar o biochar
O pesquisador explica que o biochar utilizado nas pesquisas foi preparado em fornos de tijolos rústicos (tipo caieira) em ausência de oxigênio (pirólise), tecnologia acessível para pequenos produtores. Outra vantagem é que o material pode ser fabricado na propriedade rural. O material para a queima é a biomassa e podem ser utilizados os resíduos da poda dos cajueiros.
Além disso, há relatos de que o biochar melhora a qualidade do solo em outros aspectos como fertilidade, presença de microrganismos benéficos, redução da acidez e sequestro de carbono. Ao ser utilizado na agricultura, funciona como um “imã” natural, retendo água e nutrientes no solo, aumentando a produtividade das lavouras e atuando no sequestro de carbono atmosférico.
Por Elizabeth Rebouças
The post Uso de biocarvão em cajueiros reduz gasto com água e melhora a eficiência produtiva appeared first on O Estado CE.