Ataques do Irã ameaçam fornecimento de água no Golfo
Segundo o governo kuwaitiano, a instalação funcionava em conjunto com uma central de energia elétrica, como é comum na região The post Ataques do Irã ameaçam fornecimento de água n...
POR O ESTADO
Publicado em 21/07/2026 às 16:46
O Irã voltou a atacar na noite de segunda-feira (20) uma usina de dessalinização de água no Kuwait, elevando o temor de uma crise no abastecimento para os cerca de 60 milhões de habitantes dos seis países que integram o Conselho de Cooperação do Golfo.
Segundo o governo kuwaitiano, a instalação funcionava em conjunto com uma central de energia elétrica, como é comum na região. Houve incêndios, que só foram controlados nesta terça (21), quando o país voltou a ser bombardeado, desta vez com Teerã tendo como alvo bases militares usadas pelos americanos.
O risco à infraestrutura, presente desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, faz parte da estratégia da teocracia na fase atual da guerra, recomeçada de forma mais restrita por Donald Trump em resposta a ataques iranianos contra petroleiros. A decisão do americano encerrou o acordo de trégua de 60 dias assinado há um mês, mas o conflito está escalando progressivamente, sem um retorno às cinco semanas originais da guerra, com ataques generalizados.
Na semana passada, Trump subiu mais um degrau, bombardeando pontes e um aeroporto no rival, ainda que não cumprindo sua promessa de destruição ampla. Teerã então passou a fazer ataques pontuais como o de segunda, que, segundo a Guarda Revolucionária, também atingiu instalações da gigante de e-commerce Amazon no Bahrein. Na semana passada, já havia atingido uma usina de dessalinização kuwaitiana.
A infraestrutura de abastecimento de água é especialmente sensível na região desértica. Segundo dados mais recentes do Fórum de Dessalinização do Oriente Médio e Norte da África, a dependência dos países do Golfo é enorme. No Kuwait, por exemplo, 90% da água potável vem da dessalinização, índice que chega a 100% no Bahrein e Qatar.
Na Arábia Saudita, que tem a maior produção na área, é de cerca de 50%. Quando analisada a dependência total de água, contando aquela usada não para beber, a taxa cai um pouco. Hoje, 60% da capacidade instalada do mundo para dessalinização está no Golfo, com cerca de 400 usinas. O Irã tem algumas para atender regiões mais remotas e ilhas, mas no geral não depende da tecnologia.
A violência continuou na noite de segunda para terça. Prometendo vingança pela morte em combate de quatro soldados no fim de semana, os EUA voltaram a bombardear regiões no sul e no oeste do Irã.
Já a teocracia atingiu mais um petroleiro no estreito de Hormuz, via estratégica por onde passava um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito antes da guerra. Houve também o lançamento de mísseis novamente contra a principal base tática americana na guerra, que fica na mais distante Jordânia.
Hormuz é o objeto central das hostilidades, com Teerã prometendo estabelecer um controle via pedágio de cargas em trânsito. Já os EUA seguem seu bloqueio naval aos portos iranianos, enquanto mediadores regionais ainda tentam estabelecer um cessar-fogo de dez dias na região.
Do lado ocidental da península Arábica, por sua vez, os rebeldes pró-Irã do Iêmen emitiram nesta segunda comunicados a empresas de transporte marítimo para que não usem portos sauditas no mar Vermelho, sob pena de verem suas embarcações atacadas. Ao menos dois petroleiros deram meia-volta na região desde a segunda, segundo monitores de tráfego marítimo. Um deles vinha de Omã e outro deixava o mar Vermelho após ser carregado no porto saudita de Yanbu.
É o primeiro detalhamento do embargo naval decretado pelos rebeldes houthis. Nesta terça, Trump afirmou que os EUA irão responder caso haja necessidade. Se houver algum ataque a navios mercantes, disse, “nós teremos que cuidar do assunto”. Os rebeldes dominam a região oeste do país com apoio do Irã desde 2014, em oposição ao governo destituído da capital Sanaa, que tem suporte de Riad.
Os houthis têm um vasto arsenal de drones e mísseis que podem causar um estrago considerável ao comércio mundial, como provaram ao apoiar os terroristas do Hamas contra Israel no conflito de 2023 a 2025, quintuplicando fretes devido aos desvios para evitar o mar Vermelho.
O nó é outro estreito, Bab el-Mandeb (ou Bab al-Mandab, que significa Portão das Lágrimas em árabe), que divide a costa iemenita e do Djibuti e liga o mar ao oceano Índico. Por lá passam entre 9% e 12% do petróleo do mundo, sendo a rota alternativa usada pelos sauditas devido ao fechamento na prática de Hormuz desde o começo da guerra.
De lá para cá, Riad quadruplicou para quase 4 milhões de barris/dia a quantidade de óleo pela região. Na semana passada, o governo derrubado do Iêmen iniciou um bloqueio aéreo ao aeroporto de Sanaa com apoio de aviões de combate sauditas, o que levou os houthis a radicalizar sua posição. Desde 2022, ambos os lados congelaram a guerra civil no país árabe, que agora virou uma nova frente no contexto maior da guerra entre EUA e Irã.
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