A poeta sem teto
Este ano a Festa Literária Internacional de Paraty tem como autora homenageada a poeta Orides Fontela. O Brasil gosta de homenagear escritores mortos. Parece que uma vez morto, sur...
POR O ESTADO
Publicado em 03/06/2026 às 04:01
Este ano a Festa Literária Internacional de Paraty tem como autora homenageada a poeta Orides Fontela. O Brasil gosta de homenagear escritores mortos. Parece que uma vez morto, surge uma aura em torno do escritor e de sua obra. Em vida, pouco lido, pouco festejado, mas basta morrer para ficar bom, para ser reeditado, para ganhar obra completa publicada, para ser encontrado em livrarias em edições de luxo, com direito à capa dura.
Em entrevista ao Jô Soares, no programa Jô Onze e Meia, em 1996, a poeta não se intimidou e expôs sua situação difícil: sem dinheiro suficiente para sobreviver, morava de favor como hóspede de uma amiga na Casa do estudante. Na ocasião, a escritora estava publicando Teia, prestes a ser lançado em abril daquele ano.
Professora primária aposentada, não conseguiu viver de literatura. E, nos últimos anos de vida, que deveriam ser um momento de conforto, esteve em dificuldades financeiras, procurando um trabalho que pudesse complementar a sua aposentadoria.
Orides não foi a única a ter dificuldades. Hilda Hilst dizia ter escrito (poesia e prosa) durante quarenta anos e não via valorização de sua obra. Hoje é uma poeta celebrada com toda sua obra publicada. Entre os escritores, quando se trata de poetas, parece que a dificuldade é maior. Dificílimo algum receber glórias e folhas de louro em vida.
Autora de vários livros, dentre os quais o premiado Alba. Agora, Orides Fontela, que recusava ser chamada de poetisa, preferia poeta mesmo, ganha novas edições de seus livros.
A homenagem e as novas edições das obras não reparam totalmente a injustiça (em vida) e o esquecimento (em vida e em morte) da brilhante Orides.
As novas gerações de leitores podem conhecer a poeta, ler suas obras. Podem felizmente se encantar com a poesia singular de uma escritora que merecia maior reconhecimento em vida.
FELIPE AUGUSTO
FERREIRA FEIJÃO
PROFESSOR E
MESTRE EM FILOSOFIA
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