Saber ganhar.Saber perder
Sabe aquele time de futebol formado por colegas de escola ou vizinhos de bairro em que o dono da bola recolhe a bola e acaba com o jogo quando seu time está perdendo? Sabe aquele o...
POR O ESTADO
Publicado em 02/11/2026 às 00:01
Sabe aquele time de futebol formado por colegas de escola ou vizinhos de bairro em que o dono da bola recolhe a bola e acaba com o jogo quando seu time está perdendo? Sabe aquele outro time que vence a partida e passa a tripudiar do adversário, fazendo provocações? Pois é. Estamos retornando a esse tempo, embora ninguém mais seja criança ou adolescente. Aliás, estamos bem longe disso.
Passadas as eleições, vivemos justamente esse clima. Tal qual os dois times acima referidos, compostos por meninos da quinta série. Quem votou em determinado candidato evita quem votou no adversário político, hoje considerado um inimigo mortal, e vice-versa.
Nessa mesma esteira de pensamento e atitude, campanhas de ódio contra os nordestinos vêm sendo disseminadas nas redes sociais, com apelos para não fazer “caridade”, demitir quem votou na esquerda, expulsar migrantes e obrigá-los a retornar aos seus locais de origem.
Já dizia Aristóteles, em Ética a Nicômaco, que a sabedoria está no meio; é no equilíbrio entre dois extremos que se encontra a virtude moral. Ou seja, nem o vício pelo excesso nem o vício pela falta. Mas Aristóteles parece não interessar ao público das redes sociais, mais empolgado com os “influenciadores”, a quem seguem cegamente, sem qualquer filtro ou pensamento crítico.
Esse ódio cego e o efeito manada que as redes sociais provocam, alcançando impressionantes níveis de engajamento e produzindo uma cibercultura própria, estão muito distantes da educação pensada por Charlot, baseada na construção de “uma ética que respeite os outros, esses outros podendo ser humanos, animais, plantas, máquinas, objetos físicos ou sistemas digitais” (Educação ou barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea, p. 307).
Ainda de acordo com Charlot, “é essa mesma cibercultura que permite que Donald Trump envie suas postagens impregnadas de raiva”. Outrossim, é ela que produz uma “bobagem coletiva” que vicia, causa dependência e gera exploração, além de conflitos e de uma série de problemas provocados por grupos mal-intencionados (op. cit., p. 116).
E assim vamos vivendo estes tempos contemporâneos: tão avançados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, agindo como meninos imaturos que não sabem ser contrariados, que não sabem perder com dignidade nem vencer com grandeza. Porque esse comportamento pode até ser compreensível entre crianças, mas não entre adultos.
Que possamos reencontrar o equilíbrio, hoje tão distante.
GRECIANNY CORDEIRO
PROMOTORA
DE JUSTIÇA
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