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Regional / 16.10.2026

Qual o histórico da disputa presidencial no Ceará nos últimos 20 anos

O fenômeno de votação presidencial no Ceará carrega características particulares que evidenciam os diferentes cenários vividos no Estado. Entre forças políticas locais, defensores...

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POR SOBRAL ONLINE

Publicado em 16/10/2026 às 14:14

Qual o histórico da disputa presidencial no Ceará nos últimos 20 anos
© FONTE: Sobral OnLine

O fenômeno de votação presidencial no Ceará carrega características particulares que evidenciam os diferentes cenários vividos no Estado. Entre forças políticas locais, defensores do desenvolvimento social e figuras com novas promessas de liderança, o resultado nas urnas cearenses sofreu poucas mudanças desde 2006.

Historicamente, a maioria dos eleitores costuma optar por candidatos ligados à esquerda brasileira quando o assunto é a Presidência da República. O padrão foi visto, inclusive, nessas eleições, que contou com a presença de quase 6 milhões de cearenses na votação de primeiro turno.

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Os dados estão disponíveis nos boletins de urna do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e são referentes apenas à votação para a Presidência da República. Ao todo, 63,29% escolheram o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contra 31,27% que optaram pelo postulante Flávio Bolsonaro (PL).

Apesar de não ter seguido a média de votação registrada no País, as porcentagens apuradas no Estado, assim como seus candidatos mais bem votados, assemelham-se aos pleitos anteriores. A vitória petista virou rotina nas urnas do Estado entre 2006 e 2026.

A exceção se dá apenas em 2018, ano de viradas importantes quanto ao pensamento crítico do eleitorado. A partir das candidaturas do político cearense Ciro Gomes (PDT, à época) e da popularização do então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL- RJ, à época), o movimento da esquerda sofreu perdas pontuais na população cearense.

Antes, em 2006, o oposto havia acontecido, com o Partido dos Trabalhadores (PT) ganhando forma na unidade federativa e mudando o fluxo de votos.

O resultado é curioso. Nas últimas duas décadas, somente três personagens foram capazes de provocar mudanças no habitual ranking de votação no Ceará: Lula (PT), Ciro Gomes (PSDB) e Jair Bolsonaro (PL).

ASCENSÃO E FENÔMENO PETISTA
Há vinte anos, o Ceará elegeu pela primeira vez um candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) na disputa presidencial. A reeleição de Lula para o segundo mandato foi o primeiro sinal de mudança na forma do cearense votar para o cargo do Executivo.

Anteriormente, por duas eleições, o nome de destaque no Estado havia sido Ciro Gomes (PPS, à época), devido à carreira política que ele e sua família construíram no âmbito estadual. A escolha por não se candidatar em 2006, somado à popularidade que Lula conquistou no Ceará, foram fatores centrais para essa guinada à esquerda.

Paula Vieira, socióloga, cientista política e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC), pontua os desenvolvimentos (econômico, social e de qualidade de vida) como características centrais para o político ter crescido em votos não apenas no Ceará, mas em toda a região Nordeste e em parte do Norte brasileiro.

O cenário vivido nessas localidades, conforme a especialista, destoava em relação ao restante do Brasil. Após a entrada de Lula na Presidência, na qual ascendeu em 2002 “como [um candidato] vindo do Nordeste”, devido a sua origem pernambucana, essa conjuntura sofreu mudanças:

De um modo geral, o Nordeste se desenvolve bastante nos governos que foram do Lula e da Dilma [Rousseff, PT]. São governos que têm uma visão de bem-estar social, tem uma visão de igualdade social, de fomento à igualdade social. Por isso, acaba que a região Nordeste e a região Norte foram muito beneficiadas em termos de desenvolvimento. […] Então, a população, de modo geral, tende a ter esse entendimento.
Paula Vieira-Socióloga e cientista política

Após esse sufrágio, seguiu-se uma onda de vitórias da legenda que perdura até os dias atuais, tendo sido quebrada momentaneamente apenas no primeiro turno de 2018. Mesmo durante o crescimento das ondas antipetistas, os percentuais de votação no Estado seguiram altos, sem perdas significativas de eleitorado.

Além da influência de programas sociais e de desenvolvimento, alianças locais também contribuíram para “controlar” essa imagem negativa que passou a ser associada ao PT nos últimos anos.

A explicação parte da doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionisio, que destaca associações com Camilo Santana (PT), Cid Gomes (PSB) e Elmano de Freitas (PT), por exemplo, como fatores que “favorecem o controle do antipetismo em relação à média nacional”.

CONFIRA OS VOTOS PARA O PT NO CEARÁ EM PRIMEIRO TURNO (2006-2026):
Lula (PT), 2006: 2,8 milhões de votos;
Dilma Rousseff (PT), 2010: 2,7 milhões de votos;
Dilma Rousseff (PT), 2014: 3 milhões de votos;
Fernando Haddad (PT), 2018: 1,6 milhão de votos;
Lula (PT), 2022: 3,5 milhões de votos;
Lula (PT), 2026: 3,5 milhões de votos.

FATOR CIRO GOMES
Desde a ascensão petista no Ceará, apenas Fernando Haddad (PT) não venceu o primeiro turno entre os eleitores cearenses. Apesar de ter conquistado mais de um milhão de votos, ele ficou como segundo colocado, em uma disputa acirrada com Ciro Gomes (PDT, à época) e Jair Bolsonaro (PSL, à época).

Apesar do cenário de 2018 ter introduzido uma virada de chave no comportamento da política brasileira devido ao nome do bolsonarista, o ex-governador do Ceará também foi fator central para a mudança na movimentação do eleitorado no Estado.

Mariana entende que a “marca de gestor cearense e a máquina do grupo Ferreira Gomes seguiam ativas” à época, fatores que contribuíram para essa vitória.

“À época, Lula estava preso e inelegível, e Haddad só foi oficializado em setembro, o que tirou muito tempo para a consolidação do nome […]. Como o PDT integrava a coligação do governador petista Camilo Santana, reeleito em 2018, isso permitiu a Ciro disputar o voto da centro-esquerda local sem romper com a máquina estadual”, explica a especialista.
Ele foi o vencedor nessas eleições, com 40,95% dos votos cearenses, repetindo a posição obtida nas candidaturas presidenciais de 1998 e 2002. Entretanto, quatro anos depois, quando entrou em sua quarta disputa ao cargo, não obteve o mesmo sucesso.

A derrota no Ceará em 2022 foi a única entre todas as tentativas de chegar à Presidência. Além de não conquistar o primeiro lugar, também perdeu a segunda colocação, terminando com apenas 6,8% de votos depositados por cearenses – seu pior resultado em pleitos. Ao todo, houve uma perda de 1,6 milhão de eleitores entre 2018 e 2022:

Eleições 1998: 909 mil votos (1º lugar no Ceará);
Eleições 2002: 1,5 milhão de votos (1º lugar no Ceará);
Eleições 2018: 1,9 milhão de votos (1º lugar no Ceará);
Eleições 2022: 369 mil votos (3º lugar no Ceará).

Paula Vieira explica que os números são uma consequência direta de seu rompimento com o lulismo e da simultânea ascensão da extrema direita no Brasil.

Ainda em 2018, ele tentou começar uma aliança de frente ampla com a direita brasileira. Entretanto, no mesmo período, ela passou a ser cada vez mais “engolida” pela extrema direita e, com isso, dificultou que Ciro se posicionasse “como uma possibilidade” desse viés político.

O INÍCIO DO BOLSONARISMO
A partir de 2018, outro fenômeno também passa a ser observado nos resultados eleitorais: a redistribuição de votos cearenses para a direita. Jair Bolsonaro (PSL, à época), apesar de terminar o pleito em terceiro lugar no Ceará, tornou-se o primeiro postulante nessa posição a receber mais de 1 milhão de votos.

A conquista não foi isolada. Em 2022 e 2026, Jair e Flávio Bolsonaro conquistaram 1,3 milhão e 1,7 milhão, respectivamente, no primeiro turno do Ceará. Eles finalizaram as eleições em segundo lugar, mas foram os únicos nessa posição a ultrapassarem a marca do milhão, junto a Fernando Haddad.

Nesse âmbito, Mariana destaca o nome da família, em especial do ex-presidente, como a candidatura competitiva que surgiu como opção para a crescente onda de antipetismo. No Ceará, sua influência ascendeu junto às problemáticas de Segurança Pública sentidas pelo eleitorado.

Aí surge Jair Bolsonaro com um discurso que defendia apoio irrestrito às polícias, endurecimento penal, redução da maioridade penal, flexibilização do acesso a armas. Ou seja, era uma mensagem mais concreta para quem se sentia desprotegido, o que ajuda a explicar a força dele em um estado como o Ceará, que viveu uma crise de violência em 2017.
Mariana Dionisio-Doutora em Ciência Política pela UFPE

O VOTO ANTISSISTEMA
“Hoje, o bolsonarismo existe com base na figura do Bolsonaro, mas não é só ele. O bolsonarismo é um movimento maior, um movimento de extrema direita”, explica a cientista política Paula Vieira.

Essa ascensão começa ainda em 2016, a partir da destituição de Dilma Rousseff do cargo de presidente e em meio à onda de manifestações contra o governo vigente.

Soma-se à chegada da figura política de Bolsonaro, também, o que a especialista chama de sentimento “antissistema”, em crescimento entre os brasileiros nos últimos anos.

É uma dificuldade em dar mais um voto de confiança para quem já está no exercício de poder. Então, para além de Ferreira Gomes, de Bolsonaro, o que pode ter contribuído para ir desbancando o PT no número de votos é esse movimento, que é nacional. […] Esse movimento antissistema. Um desejo de um “novo”, que é rapidamente deslocado e que vai impactar, principalmente, na esquerda, já que há predominância de uma extrema direita mundial, pontua Vieira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:Diário do Nordeste

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