Na década de 1980, “Horóscopo Popular” abre caminho à cidadania no Conjunto Palmeiras
Produção do O Estado sobre importância da imprensa mostra que o jornalismo comunitário tem força para conscientizar a população The post Na década de 1980, “Horóscopo Popular...
POR O ESTADO
Publicado em 05/08/2026 às 22:54
Kátia Patrocínio, professora de Jornalismo em uma universidade privada da Capital, é vanguardista do jornalismo comunitário no Ceará. Sua trajetória calcada na busca pela inclusão social via comunicação é uma das histórias contadas em “Jornalismo que Constrói”, produção do jornal O Estado que objetiva evidenciar a importância da imprensa profissional para a construção de uma sociedade melhor.
Ao comentar um dos feitos jornalísticos dos quais tem orgulho de ter participado, a jornalista rememora o trabalho que desenvolveu com jovens do bairro Conjunto Palmeiras, na Capital, e conta com orgulho como fez com que uma cultura nacional se convertesse em voz aos que nem sempre conseguem ser ouvidos.
“Por dentro das ondas sonoras”
Na programação dos alto-falantes da rádio dentro da comunidade, não havia previsões sobre amor, dinheiro ou sorte. Em vez disso, os ouvintes escutavam mensagens que os incentivavam a participar das decisões do próprio bairro. “Hoje é dia de você ir à luta”. “Hoje é dia de cobrar melhorias”.
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Foi dessa forma que jovens do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, transformaram um tradicional quadro de horóscopo em um instrumento de mobilização social no fim da década de 1980, por meio da rádio comunitária.
A experiência permanece entre as lembranças mais marcantes da professora, quando relembra o período em que acompanhou iniciativas de comunicação popular em diferentes bairros da Capital.
Horóscopo adaptado
A docente conta que naquele contexto, muitas rádios comunitárias ainda funcionavam por meio de sistemas de autofalantes instalados em igrejas, associações de moradores e centros comunitários.
“O Horóscopo Popular era uma forma de chamar atenção das pessoas para assuntos que diziam respeito à própria comunidade. Eles pegavam uma linguagem conhecida por todo mundo e transformavam aquilo em um convite para discutir cidadania nas ruas, por meio de alto-falantes”, recorda.
O quadro fazia parte de um movimento maior. Em vez de apenas receber informações produzidas por veículos tradicionais, moradores passaram a produzir conteúdo sobre a própria realidade. Jovens entrevistavam vizinhos, anunciavam eventos locais e levavam ao ar debates sobre problemas cotidianos, como transporte, saúde, educação e saneamento básico.
Quem produz, quem recebe
Para Kátia Patrocínio, a força dessas iniciativas estava na proximidade entre quem produzia a informação e quem a recebia. “O jovem que morava naquela comunidade conhecia muito melhor aqueles problemas do que qualquer jornalista que fosse fazer uma cobertura pontual. Ele sabia quem eram as pessoas, quais eram as dificuldades e conseguia falar de igual para igual com quem estava ouvindo.”
Essa identificação ajudava a transformar informação em participação. Ao reconhecer a própria realidade nas reportagens e nos programas, os moradores deixavam de ser apenas ouvintes para também se enxergar como parte das discussões sobre o futuro do bairro.
Quase quatro décadas depois, o debate sobre a comunicação comunitária continua presente. Pesquisa apresentada neste ano na Câmara dos Deputados por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) mostrou que, entre 2.205 rádios comunitárias analisadas no país, 50,2% apresentavam algum tipo de vínculo político, enquanto 5,4% possuíam ligação religiosa.
“Vozes presentes”
Apesar desse cenário, Katia avalia que a essência das rádios comunitárias permanece ligada à democratização da comunicação e à ampliação das vozes presentes no debate público.
“A comunicação não diz respeito apenas a um número reduzido de pessoas. Quando a rádio fala sobre aquilo que acontece na comunidade, ela fortalece o pertencimento e faz as pessoas entenderem que também podem participar daquele processo.”
Segundo a professora, o impacto dessas experiências também alcançou quem estava atrás dos microfones. Muitos dos jovens envolvidos na produção das rádios descobriram novas possibilidades profissionais, ingressaram na universidade e seguiram carreira na comunicação.
“Eles perceberam que também podiam ocupar esses espaços. Muitos começaram a pensar no jornalismo porque já faziam entrevistas, escreviam textos e produziam conteúdo para a comunidade.” Na avaliação da docente, essa talvez seja uma das principais heranças deixadas pelas rádios comunitárias.
“O jornalismo tem uma responsabilidade social imensa. Cada informação produzida pode transformar uma realidade. Quando a comunicação nasce dentro da comunidade, ela passa a refletir a vida das pessoas que vivem ali.”
*Júlia Lopes é estagiária de jornalismo e está sob orientação de editores
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