Não volte sem ele
Cercas de arame farpado cortam o horizonte, sob a vigília de guardas atentos, prontos para agir ao menor sinal de fuga. Barracas improvisadas se amontoam, abrigando famílias inteir...
POR O ESTADO
Publicado em 08/06/2026 às 03:01
Cercas de arame farpado cortam o horizonte, sob a vigília de guardas atentos, prontos para agir ao menor sinal de fuga. Barracas improvisadas se amontoam, abrigando famílias inteiras em condições desumanas. A doença e a fome pairam no ar, e as valas abertas aguardam os corpos daqueles que sucumbem dia após dia.
Essa cena nos transporta, inevitavelmente, à Segunda Guerra Mundial e aos horrores dos campos de concentração de Auschwitz, Treblinka, Dachau… Mas, aqui, estamos nos referindo a uma realidade pouco conhecida: no ano de 1932, uma seca devastadora assolou o Ceará, obrigando incontáveis retirantes a buscar refúgio na capital. Incapaz de acolher tantos desesperados em Fortaleza, o governo mandou construir campos de concentração para receber as famílias castigadas pela seca, atraídas pela promessa de trabalho e comida.
É nesse cenário árido que se desenrola a trajetória Tomás, o filho mais novo de Umbelina e José, encarregado de uma missão importante: sob a proteção de Santa Genoveva, encontrar o irmão Antônio, desaparecido após partir para Fortaleza em busca de uma vida melhor.
A missão de Tomás era clara: não poderia voltar para Mombaça – onde moravam, sem Antônio, que não dava notícias há três anos. E assim ele partiu em direção a Senador Pompeu, para pegar o trem rumo a Fortaleza.
Diferente do que havia planejado, Tomás é aprisionado no campo de concentração do Patu, onde enfrenta condições duras e desumanas, levando-o a concluir que “a injustiça ia além da fome e da falta de chuva”.
“O Campo do Patu era uma cicatriz na terra. Uma cerca de arame farpado cortava a caatinga e desenhava um retângulo imenso onde centenas de barracas se amontoavam sob o sol inclemente. Na entrada, dois soldados armados guardavam um portão de madeira tosca. Uma placa pregada num mourão anunciava: Campo de Concentração do Patu – Abrigo Provisório para Retirantes”.
Assim era o Campo de Concentração do Patu, bem semelhante a um cenário que costumamos ver nos filmes.
No romance de estreia de Rafael Caneca, “Não volte sem ele”, publicado pela editora Mondru, o sertão pulsa em cada página, bem como a coragem do povo sertanejo, forjada na fé e na esperança, a despeito de tantas agruras.
Ao trazer à tona esse episódio esquecido pela História, Rafael Caneca dá voz à memória dos retirantes que pereceram nesses campos de concentração, humilhados e esquecidos, mostrando-nos que, desde sempre, “a seca é só a desculpa”.
GRECIANNY CORDEIRO
PROMOTORA
DE JUSTIÇA
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