Marília Garcia revisita memórias e arquivos familiares em novo livro de poesia
Quando Bach volta de uma viagem e descobre a morte da esposa e filha, a perda lhe parece sufocante. Dessa dor, compõe “Chaconne”, uma canção para despertar os mortos. ...
POR SOBRAL ONLINE
Publicado em 23/10/2026 às 16:30

Quando Bach volta de uma viagem e descobre a morte da esposa e filha, a perda lhe parece sufocante. Dessa dor, compõe “Chaconne”, uma canção para despertar os mortos. Marília Garcia, escritora brasileira, realiza uma jornada similar diante da morte, criando uma caminhada pelo luto ao seu próprio modo no livro “Lia, Mira, Maria”.
“Era como se eu soubesse que precisava percorrer um caminho, mas não sabia qual”, revela aos leitores em sua obra, publicada pela WMF Martins Fontes. Diante da perda de sua mãe, Lia, e de uma grande amiga, Maria Nazaré, Marília caminhou em busca de imagens e rastros.
“Eu acho que o livro, justamente, me ajudou a fazer esse percurso (pelo luto). Eu busquei fazer um percurso por vários tipos de materialidades, que vou descrevendo no livro: as imagens do arquivo da minha mãe, as fotografias, os livros que herdei dessa amiga, vários tipos de arquivos, que eram delas”.
Marília Garcia-Escritora
Em meio a essa perseguição ao que restou, Marília encontra as monotipiadas que a artista Mira Schendel produziu nos anos 1960. Elas, inclusive, marcam o início do livro.
Há ainda a beleza de descobrir as anotações deixadas nas margens dos livros delas, que faziam parte de suas bibliotecas. Tudo isso surge na poesia de Garcia. Ao abrir os volumes, vendo os comentários de sua amiga, Marília revela a sensação de ser guiada por essa leitura.
Isso, também, é um tipo de herança. Marília, que conversa no ritmo de quem pensa com cuidado cada palavra e que responde com intenção, aponta que também herdamos esses rastros deixados pelas pessoas. Objetos que, sem perceber, já faziam parte de um bairro em sua mente.
COSTURANDO FOTOGRAFIAS E POEMAS
Antes de ganhar forma de livro, as poesias e imagens circularam em festivais e espaços de cultura, entre 2022 e 2025. Mas quando pensou transformar em um exemplar, a editora sugeriu convidar uma diagramadora para organizar a relação entre as fotografias e as poesias.
Foi Flávia Castanheira quem assumiu o desafio de organizar o projeto gráfico. Ainda que em outras obras de Marília, seus leitores já tivessem observado a presença de imagens em meio ao texto, essa foi a primeira vez em que houve um jogo de sobreposição entre os elementos.
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“A imagem funciona quase como um verso”, explica Marília, revelando ainda que até o alaranjado das imagens do livro é intencional. Pode remeter aos incêndios, aos arquivos, à imagem de um fogo, de arquivos apagados e esquecidos, e de outros, resgatados.
“Essa sobreposição foi uma proposta dela (Flávia), que eu acho que dialoga muito com o texto, com essas várias camadas da memória, que estão ali sobrepostas. No momento em que ela faz esse jogo do texto subir sobre as imagens, acho que transforma muito a imagem”, disse.
Assim, a experiência de ler essa nova obra de Marília Garcia é um pouco como o sentimento que ela descreve ao estar debaixo d’água. É carregar a “sensação de que ali debaixo, com os sons suspensos, alguma coisa pode acontecer”.
TRECHO DO LIVRO
“Era um trabalho de luto por essas duas mortes. eu não sabia como fazer [e continuo sem saber]. compartilho aqui as incertezas do processo. era como se eu soubesse que precisava percorrer um caminho, mas não sabia qual. como se precisasse vagar, errar, deambular”.
SERVIÇO
Livro “Lia, Mira, Maria”
Quanto: R$ 69,90
Onde comprar: Editora WMF Martins Fontes.
Fonte:Diário do Nordeste
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