Justiça dá 48 horas para empresa de Fortaleza reintegrar 22 funcionários demitidos por suposta perseguição política após votarem em Lula
A Justiça do Trabalho determinou que uma empresa de confecções de Fortaleza reintegre, no prazo de 48 horas após ser notificada, 22 trabalhadores que teriam sido demitidos por moti...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 30/10/2026 às 07:18
A Justiça do Trabalho determinou que uma empresa de confecções de Fortaleza reintegre, no prazo de 48 horas após ser notificada, 22 trabalhadores que teriam sido demitidos por motivação política após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições do último domingo (25).
A decisão estabelece multa diária de R$ 5 mil por funcionário que não for reintegrado. O empresário responsável pela fábrica nega as acusações e afirma que não houve demissões por perseguição política.
A decisão foi proferida pela juíza substituta da 7ª Vara do Trabalho de Fortaleza, Manuela de Albuquerque Viana, após denúncia apresentada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). A magistrada considerou depoimentos, gravações, fotografias e outros documentos que, segundo a decisão, indicam a ocorrência de discriminação político-partidária contra os trabalhadores.
A empresa investigada é a Gout Jeans, administrada pelo empresário Gutemberg Bittencourt, que se declara de direita. Segundo o MPT, na manhã de segunda-feira (26), primeiro dia útil após o segundo turno das eleições, o dirigente teria reunido funcionários da fábrica e anunciado a dispensa de pelo menos 22 empregados, com referências às preferências eleitorais dos trabalhadores.
JUSTIÇA VÊ INDÍCIOS DE PERSEGUIÇÃO POLÍTICA E DETERMINA REINTEGRAÇÃO
Na decisão, a juíza afirma que os elementos apresentados estabelecem uma relação direta entre as dispensas e a orientação política dos funcionários.
“A realização de reunião pelo titular da demandada no primeiro dia útil após o resultado do segundo turno das eleições, seguida do anúncio sumário e explícito do desligamento de pelo menos vinte e dois trabalhadores sob ultrajes verbais e alusões à sua orientação eleitoral, estabelece nexo de causalidade direto e inequívoco entre o desligamento massivo e a discriminação por motivação político-partidária”, registra trecho da decisão.
A magistrada destaca, ainda, que a demissão por razões políticas pode provocar “abalo psíquico individual e coletivo” e que a permanência dos trabalhadores fora de seus empregos contribui para disseminar o medo de represálias entre os demais funcionários.
Segundo a decisão, foram apresentados documentos que apontam a existência de cartazes depreciativos afixados no interior da fábrica, além de registros de áudio e imagens que sustentam a denúncia de perseguição eleitoral.
MULTA DE R$ 5 MIL POR DIA PARA CADA TRABALHADOR NÃO REINTEGRADO
A determinação judicial estabelece que os 22 trabalhadores sejam reintegrados em até 48 horas, contadas da notificação da empresa. Caso a ordem não seja cumprida, será aplicada multa diária de R$ 5 mil por empregado que permanecer afastado.
Se nenhum dos 22 trabalhadores for reintegrado dentro do prazo, a multa poderá alcançar R$ 110 mil por dia.
A juíza também exigiu que a empresa apresente a relação completa dos funcionários dispensados desde 26 de outubro, acompanhada dos documentos rescisórios e comprovantes de convocação para retorno ao trabalho.
A fábrica deverá entregar, ainda, os registros de empregados relativos aos meses de setembro e outubro de 2026.
EMPRESÁRIO NEGA DEMISSÕES POR MOTIVAÇÃO POLÍTICA
O empresário Gutemberg Bittencourt negou, em declaração publicada pelo UOL, as acusações e afirmou que pretende apresentar documentos oficiais para demonstrar que não realizou as demissões apontadas na denúncia.
“Eu vou amanhã abrir meu Caged [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados] e vou mostrar à juíza que nenhuma pessoa foi colocada para fora da empresa. É tudo fake news, e vão pagar caro por isso. Eu sou uma pessoa trabalhadora, não tenho nenhum problema com empregado, estou com a consciência limpa”, declarou.
O empresário também negou ser o autor dos áudios apresentados como provas no processo e afirmou que sempre respeitou as diferentes posições políticas dos funcionários.
“Tem petistas lá, mas nunca tive problema, sempre respeitei”, disse Gutemberg, acrescentando que pretende identificar os responsáveis pelas gravações e adotar medidas judiciais.
Em manifestação pública, a direção da Gout Jeans afirmou reconhecer a liberdade de convicção e preferência política como direito fundamental de todos os trabalhadores e declarou que não admite ameaças, intimidação ou discriminação no ambiente profissional.
EMPRESA FICA PROIBIDA DE PRATICAR NOVOS ATOS DE ASSÉDIO ELEITORAL
Além de determinar a reintegração dos funcionários, a Justiça do Trabalho proibiu a empresa de praticar novos atos de assédio moral eleitoral, perseguição, coação ou ameaça contra empregados reintegrados ou que continuam trabalhando na fábrica.
Uma audiência inicial do processo foi marcada para o dia 13 de novembro.
O caso coloca novamente em discussão os limites da atuação dos empregadores diante das escolhas políticas de seus funcionários. A legislação brasileira protege a liberdade de convicção política e proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho.