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Regional / 30.10.2026

Desta vez foi uma influenciadora. Poderia ter sido um estuprador, um abusador ou um traficante. Parte 3

Imagem criada por IA Desta vez foi uma influenciadora que humilhou o menino autista de 9 anos enquanto ele vendia bombons em Fortaleza. Mas poderia ter sido um estuprador, um ...

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POR REVISTA CAMOCIM

Publicado em 30/10/2026 às 22:19

Desta vez foi uma influenciadora. Poderia ter sido um estuprador, um abusador ou um traficante. Parte 3
© FONTE: Revista Camocim
Imagem criada por IA 


Desta vez foi uma influenciadora que humilhou o menino autista de 9 anos enquanto ele vendia bombons em Fortaleza. Mas poderia ter sido um estuprador, um pedófilo, um traficante de drogas ou qualquer pessoa disposta a praticar uma violência ainda mais grave. Poderia ter sido alguém em surto, agindo de forma agressiva. Quem garante a segurança de uma criança tão pequena, trabalhando na rua, cercada de desconhecidos?

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É justamente para proteger crianças desses perigos que o trabalho infantil é proibido por lei. A rua oferece riscos que uma criança não tem maturidade nem condições de enfrentar sozinha.


Mas existe uma mentalidade antiga que precisamos combater. É aquela conversa de que trabalhar desde pequeno forma o caráter. Sempre aparece alguém dizendo que começou a trabalhar aos 7, 8 ou 10 anos e que isso nunca lhe fez mal.


É preciso compreender o contexto histórico.


Décadas atrás, principalmente no Nordeste, milhares de famílias viviam numa pobreza extrema. No interior, muitas comunidades rurais sequer tinham escolas próximas. Faltavam transporte escolar, oportunidades e assistência social. Nas grandes cidades, o crescimento desordenado, o desemprego e a expansão das favelas deixavam inúmeras famílias sem condições mínimas de sobrevivência.


Crianças trabalhavam na roça, nas feiras, nas casas de família e nas ruas. Muitas não tinham outra realidade diante dos olhos.


Não existia a rede de proteção social que temos hoje. O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil surgiu em 1996. O Bolsa Família foi criado em 2003. Com o passar dos anos, vieram a ampliação das políticas de transferência de renda, o acesso à educação e outras medidas de proteção à infância.


Essas políticas ainda são insuficientes para muitas famílias, mas representam avanços que não podem ser ignorados.


E aqui está uma das maiores hipocrisias dessa discussão.


Muita gente que acha bonito ver uma criança pobre trabalhando não aceita que o próprio filho passe pela mesma situação.


Quer o filho estudando numa boa escola, protegido, brincando, praticando esportes e preparando seu futuro. Mas, quando vê o filho do pobre vendendo bombons no meio da rua, acha bonito, elogia e diz que está aprendendo a ser gente.


O trabalho infantil parece formar caráter quando a infância sacrificada é a dos outros. Principalmente a dos pobres.


E não me venham dizer que trabalhar na infância nunca fez mal porque sobreviveram a essa experiência. Sobreviver a uma dificuldade não significa que ela tenha sido boa. Muito menos que outras crianças precisem passar pelo mesmo sofrimento.


O menino de Fortaleza é um exemplo doloroso. Saiu para vender bombons e acabou humilhado diante de uma câmera, com sua imagem espalhada pelas redes sociais. Poderia ter sofrido uma violência ainda pior.


É uma criança autista, que perdeu a mãe e vive com a avó. Essa família precisa de apoio, não de condenação. Cabe ao poder público garantir assistência social, acompanhamento adequado e condições para que o menino continue estudando, preferencialmente em escola de tempo integral, sem precisar voltar às ruas para trabalhar.


A solidariedade que surgiu depois da humilhação é importante. Mas não basta comprar todos os bombons do menino. É preciso garantir que ele não precise vendê-los novamente para ajudar no sustento da casa.


E termino com uma reflexão.


Se trabalhar na infância é tão maravilhoso, por que aqueles que defendem essa prática fazem de tudo para que seus próprios filhos não precisem trabalhar?


A infância que muitos dizem ter perdido não pode servir de justificativa para tirar a infância de outras crianças.


Filho de pobre também tem direito de brincar, estudar, sonhar e crescer protegido. Não nasceu para trabalhar antes do tempo.


Carlos Jardel 

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