Consumo de mexilhões pode aumentar exposição a microplásticos, indica estudo
Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) sugere que os mexilhões podem atuar como uma via de entrada de microplásticos no organismo hum...
POR A NOTICIA DO CEARÁ
Publicado em 15/06/2026 às 20:00
Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) sugere que os mexilhões podem atuar como uma via de entrada de microplásticos no organismo humano. O estudo foi publicado nesta segunda-feira (15/06) na revista científica Ocean and Coastal Research.
Os mexilhões são moluscos encontrados em costões rochosos e amplamente consumidos na gastronomia brasileira. Segundo os pesquisadores, esses organismos se alimentam por filtração da água do mar e não conseguem diferenciar microalgas, que compõem sua dieta natural, de partículas de microplástico presentes no ambiente.
Embora publicada em inglês, a Ocean and Coastal Research é um periódico brasileiro editado pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). A divulgação dos resultados ocorreu em parceria com a Agência Bori, especializada na difusão de pesquisas científicas.

Para realizar o estudo, a equipe coletou exemplares da espécie conhecida como mexilhão-marrom (Perna perna) na Praia Vermelha, localizada na zona sul do Rio de Janeiro. Os animais foram levados para laboratório, onde os cientistas reproduziram condições ambientais controladas para avaliar o comportamento alimentar da espécie.
Os mexilhões foram separados em três grupos e expostos a diferentes soluções aquáticas: uma contendo apenas microalgas, outra apenas microplásticos e uma terceira com a combinação dos dois elementos.
Após uma hora de observação, os pesquisadores analisaram a água dos aquários e verificaram que os organismos consumiram tanto as microalgas quanto os microplásticos sem distinção. De acordo com a bióloga marinha e professora Raquel de Almeida Ferrando Neves, uma das autoras do trabalho, os resultados demonstram que a espécie não possui mecanismos para diferenciar partículas naturais de partículas plásticas.
No experimento com a solução mista, aproximadamente 48% das microalgas e 52% das partículas plásticas permaneceram na água após a filtragem. Para os pesquisadores, a proximidade entre os índices reforça a ausência de seletividade alimentar dos mexilhões.
O que são microplásticos?
Os microplásticos são fragmentos microscópicos originados da degradação de materiais plásticos maiores. Com a ação do tempo e da exposição solar, esses resíduos se quebram em partículas menores, que passam a circular na água, no solo e até no ar.

Esses fragmentos podem ter origem em embalagens, garrafas, pneus, tecidos sintéticos e revestimentos com tinta descartados no ambiente. Além disso, carregam substâncias químicas potencialmente nocivas à saúde.
A preocupação com os efeitos dos microplásticos tem crescido nos últimos anos. Pesquisas brasileiras já identificaram essas partículas em 93% de uma amostra de peixes analisados no litoral do Paraná, além de encontrá-las em placentas e cordões umbilicais humanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a poluição por microplásticos como um problema global e defende a ampliação dos estudos sobre seus impactos à saúde.
Riscos
Segundo a professora, os riscos associados ao consumo de mexilhões contaminados não se limitam ao plástico em si. Como organismos filtradores, eles podem acumular contaminantes químicos aderidos à superfície dessas partículas. A pesquisadora destaca ainda que o nível de exposição varia conforme os hábitos alimentares.
“Se uma pessoa consome esporadicamente, ela vai ter menos risco, menos exposição. Isso a gente chama de análise de risco de consumo. Se consome com muita frequência, estará mais exposta a esse determinado contaminante”, afirma.
Outro ponto observado é que o preparo dos alimentos não elimina esse tipo de risco. Diferentemente de microrganismos patogênicos e parasitas, contaminantes como microplásticos, metais e biotoxinas não têm seus níveis reduzidos durante o cozimento.
O que fazer?
Apesar de a coleta dos exemplares ter ocorrido em uma única área do litoral fluminense, os pesquisadores acreditam que o comportamento identificado pode ser observado em outras regiões. Isso porque a espécie está distribuída ao longo da costa brasileira e apresenta padrões de alimentação semelhantes.
Diante dos resultados, a equipe da Unirio defende a adoção de medidas para reduzir a poluição por plástico nos ambientes marinhos. Entre as propostas estão o fortalecimento de políticas públicas voltadas à diminuição do descarte de resíduos no oceano e a restrição ao uso de plásticos descartáveis.
Os pesquisadores também apontam o monitoramento contínuo das áreas de maricultura como uma estratégia importante para garantir a segurança do consumo de frutos do mar e a sustentabilidade econômica da atividade no futuro.
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