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Ceará / 08.08.2026

Com voz, sanfona e sintetizadores, Marcelo Jeneci apresenta a turnê “SOLO” em Fortaleza e Sobral

Depois de mais de 15 anos de carreira, Marcelo Jeneci decidiu retirar do palco aquilo que, para muitos artistas, representa a grandiosidade de um espetáculo: a banda. Em vez de uma...

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POR O ESTADO

Publicado em 08/08/2026 às 15:25

Com voz, sanfona e sintetizadores, Marcelo Jeneci apresenta a turnê “SOLO” em Fortaleza e Sobral
© FONTE: O Estado

Depois de mais de 15 anos de carreira, Marcelo Jeneci decidiu retirar do palco aquilo que, para muitos artistas, representa a grandiosidade de um espetáculo: a banda. Em vez de uma grande estrutura, o cantor, compositor e instrumentista escolheu a simplicidade para criar uma experiência mais próxima do público. É essa proposta que conduz a turnê SOLO, que chega ao Ceará neste fim de semana, com apresentações no sábado (8), no Theatro São João, em Sobral, e no domingo (9), no Teatro Claro Mais, em Fortaleza.

No espetáculo, Jeneci revisita canções que marcaram sua trajetória, como Pra Sonhar, Felicidade e Amado, em novos arranjos construídos para um formato mais intimista. Além dos sucessos, o repertório abre espaço para músicas inéditas e para experimentações sonoras que unem sanfona, sintetizadores e voz, aproximando o público de um momento mais contemplativo do artista.

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A escolha pelo formato solo representa, segundo Jeneci, uma forma de estabelecer uma conexão mais profunda com quem está na plateia. Para ele, a ausência de uma banda amplia o espaço para que a música e as emoções circulem de maneira mais direta entre artista e público.

A turnê também marca um momento de reencontro com a própria identidade musical. Filho de Manoel Jeneci, considerado um dos principais eletrificadores de sanfonas do país, o músico reforça, no espetáculo, a presença do instrumento que acompanha sua história desde a infância e que continua sendo um dos pilares de sua obra. Ao mesmo tempo, mantém o diálogo com diferentes influências musicais, como o forró, a música latino-americana e a poesia popular nordestina.

A relação com o Ceará também ocupa um lugar especial em sua trajetória. O artista relembra a primeira apresentação em Fortaleza, realizada no campus da Universidade Federal do Ceará (UFC), diante de milhares de pessoas, experiência que, segundo ele, consolidou um vínculo afetivo com o público cearense.

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Estado, Marcelo Jeneci falou sobre a proposta da turnê SOLO, refletiu sobre o momento atual da carreira, explicou por que acredita que a música deve proporcionar mais do que entretenimento e comentou a influência da cultura nordestina em sua trajetória artística. O cantor também relembrou o carinho que recebe do público cearense e afirmou que retornar ao Estado representa fortalecer uma relação construída ao longo dos anos.

O ESTADO | O espetáculo “SOLO” leva você ao palco praticamente sem rede, conduzindo tudo sozinho. O que esse formato revelou sobre você como artista que uma banda talvez escondesse?

MARCELO JENECI | Todo palco é em si um chão sagrado. Me percebi capaz de esculpir o tempo de quem se faz presente em minhas apresentações, sem a necessidade de uma banda. Desse modo, consigo aproximar a todos da energia que me comove. Sem distrações de banda porém com uma conexão direta e profunda com quem sou e para onde vou. Buscando sempre trazer instrumentos de navegação em forma de canções, para nós todos. No show solo essa chama intencionada brilha mais que o fogaréu que a grande estrutura de banda e etc conseguem alcançar.

OE | Você revisitou canções muito conhecidas em novos arranjos. Foi mais difícil desapegar das versões originais ou descobrir novas possibilidades para elas?

MJ | Considero que há uma grande autoralidade em gravar versões. No entanto, para que isso aconteça, você precisa saber como se constrói cada camada para depois desconstruí-las. E cada voz que canta a mesma canção carrega uma singularidade. Para acessar este lugar, é realmente necessário alterá-la a seu modo. Se distanciando de semelhanças com os fonogramas inaugurais.

OE | Há uma sensação de silêncio e contemplação muito forte no show. Você acredita que o público de hoje ainda busca esse tipo de experiência em meio ao consumo acelerado de música?

MJ | Nossa alma tem sede. E a grande indústria da música nem sempre consegue saciá-la. Todos nós precisamos desse desrelógio. E essa é a tônica de conexão com o que se vive em nossos shows solo. O afeto indo e vindo tem mais magia do que a busca pelo puro entretenimento.

OE | Depois de mais de 15 anos de carreira, como você enxerga Marcelo Jeneci hoje em comparação ao artista que lançou “Pra Sonhar” e “Felicidade”?

MJ | Hoje estou sob a mesma regência interna em que estive quando lancei meu álbum de estreia, o “Feito Pra Acabar”. E isto está engendrado em meu novo momento autoral. Conectado ao meu lugar de força. É glorioso afinar a alma com o seu lugar de força, após tantas aventuras deportadas pelo nosso querer. A gente precisa afastar tudo que impede o facho de luz que nos foi dado por nossa ancestralidade. E cá estou, tal qual Odisseu ao retornar para casa.

OE | “Pra Sonhar” acabou se tornando quase um patrimônio afetivo dos casamentos brasileiros. Em algum momento você chegou a imaginar que uma composição sua teria esse lugar na vida das pessoas?

MJ | Esse presente é dadivoso em meu caminho. Nasci para trazer poções de amor em formato de canção. Mas eu não imaginava que chegaríamos tão longe.

OE | Recentemente você voltou a viralizar ao cantar “Pra Sonhar” em um casamento. Como é perceber que uma música ganha novas vidas através das redes sociais, tantos anos depois do lançamento?

MJ | Algumas musicas são feitas com camadas capazes de durar no tempo. Me importa fazê-las. Mas só o tempo dirá se isso irá acontecer.

OE | A sanfona sempre ocupou um lugar central na sua identidade musical. Em um momento em que tantos artistas buscam sonoridades eletrônicas, o instrumento continua sendo um símbolo da sua obra. O que ele representa para você?

MJ | Nossa identidade brasileira é fraterna e festiva. E a sanfona imprime isso. Mas, para além disso, existe meu pai. Manoel Jeneci, que continua sendo o melhor eletrificador de sanfonas no Brasil. Nosso provento veio da sanfona e nós continuaremos sendo caminho e passagem para essa tradição.

OE | Em “Night Clube Forró Latino”, você aproximou o forró de ritmos latino-americanos. O que descobriu nessa conversa entre culturas que talvez já estivesse presente na música nordestina sem que percebêssemos?

MJ | Descobri que o violão flamenco e cubano é mais ardente que o violão de sete cordas para o mundo do forró. Tento dizer isso indiretamente em meus dois discos de forró. E cada um faz o seu feijão com seus temperos. Os meus são esses.

OE | “Fome do Metal” traz uma ambientação inspirada no sertão nordestino. O que o sertão desperta artisticamente em você?

MJ | No sertão, no chão de tradição, na força das benzedoras e dos benzedores, mora nosso Brasil oficial. A sabedoria da pura poesia, a que mora no anonimato, diz muito para mim. Seguirei reverente a este chão sagrado. Indo e vindo.

OE | Você retorna ao Ceará para apresentações em Sobral e Fortaleza. Existe alguma lembrança ou relação especial com o público cearense?

MJ | “Eu já cantei no Pará, toquei sanfona em Belém, cantei lá no Ceará e sei o que me convém” – Eternos versos da canção Baião. Nunca esquecerei do acolhimento que vivi e vivo com o povo cearense. Me apresentar em Sobral e em Fortaleza fortalece ainda mais esse laço já tão bem dado entre nós. Nunca esquecerei de minha primeira apresentação no Ceará. No caso em Fortaleza, no campus da UFC, com 5 mil pessoas diante de mim, cantando junto a maioria das músicas. Há uma verdadeira identificação entre nós.

OE | O Nordeste costuma abraçar muito a música feita com sanfona, mas também é um lugar de inovação. Você sente que tocar na região tem um significado diferente?

MJ | O nordeste vem salvando o Brasil há muito tempo. Onde mora nossa verdadeira IA. A inteligência Arisca do sertanejo. Nossos ancestrais do futuro continuam dizendo a que vieram. Fonte do sol e do vento que nos leva adiante.

OE | O público deve sair do teatro levando alguma sensação do espetáculo “SOLO”, qual você gostaria que fosse?

MJ | No show solo, há espaço para que cada pessoa se insira e alquimize seu sentir. Sinto que prevalece um bem-estar feliz ao final de cada show. Mas… metade da palavra é de quem fala e metade de quem a escuta. Por isso a poesia. Grávida de sentidos, para que cada um se coloque nela.

Por: Ismael Azevedo

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