“Cid procurou a Executiva Nacional do União Brasil para se filiar”
Por Gabriela de Palhano, Hyago Felix e Kelly Hekally No terceiro episódio do videocast Caráter, o Jornal O Estado recebeu o presidente da Federação União Progressista (UPB), no Cea...
POR O ESTADO
Publicado em 05/06/2026 às 03:30
Por Gabriela de Palhano, Hyago Felix e Kelly Hekally
No terceiro episódio do videocast Caráter, o Jornal O Estado recebeu o presidente da Federação União Progressista (UPB), no Ceará, Capitão Wagner (UPB). Na entrevista, Wagner fala sobre a união da oposição para composição de uma chapa contra o governismo, sua pré-candidatura ao Senado, as movimentações para construção da chapa de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Estado, sua relação com os irmãos Ferreira Gomes, segurança pública e economia. A entrevista na íntegra está disponível às 19h desta sexta-feira (5).
CARÁTER. Capitão, gostaria de saber, como é que começou essa relação sua com o Ciro Gomes? Quem ligou para quem?
Capitão Wagner. Na verdade, logo depois do primeiro turno da eleição de 2024 para prefeito em Fortaleza, quando eu não fui para o segundo turno, o senador Tasso me convidou para um almoço lá no escritório dele. Lá estava o Sargento Reginaldo (União Brasil), que já tinha uma relação com Ciro Gomes. O Ciro chegou, e a primeira vez que a gente se cumprimentou de fato foi em 2024. Acho que o Roberto Cláudio (UB) e o Reginauro foram os dois links que me aproximaram do Ciro. Hoje a gente tem uma relação de confiança.
CARÁTER. Você está no meio de um “congestionamento familiar”, digamos assim. Ciro passou a ser seu aliado direto, mas Cid e Ciro continuam sendo irmãos. Como é que você se sente no meio dessa circunstância familiar?
CW. Quando se iniciou essa relação com o Ciro… acho que, dos irmãos que estão na política, eu nunca imaginei estar tão próximo dele. Com o Cid, eu tive um momento de diálogo que acho que vou falar em primeira mão para vocês. Ele viveu um momento, quando saiu do PDT, de indefinição partidária, e procurou o União Brasil a nível nacional para se filiar. Isso foi naquele contexto do final de 2022, começo de 2023. Ele procurou a Executiva Nacional do partido e, graças à minha boa relação com eles, o presidente nacional disse ‘Olha, aí no estado o presidente é o Capitão Wagner, se há a possibilidade de você vir participar, você tem que conversar com ele, tem que dialogar com ele’.
Houve uma ou duas conversas presencialmente, outras por telefone e, por questões óbvias, ele não veio para o União Brasil, mas ficou a relação de respeito. Entendo quando o Cid faz críticas a mim, que ele tem que tentar de alguma forma me diminuir para apoiar os possíveis candidatos ao Senado que eles terão do lado de lá, mas eu tenho procurado me envolver pouco nesta rusga familiar. Eu não gostaria de ver ninguém falando do meu irmão ou das minhas irmãs pela imprensa. Então eu prefiro evitar. Eu acho que já passei dessa fase de ter que fazer esse enfrentamento com o Cid, que eu acho que foi o que me projetou politicamente. Para os amigos mais próximos eu digo: esse embate que tive com o Cid em determinado momento foi o que me projetou para eu ser a figura que me tornei a nível estadual. Eu jamais me imaginei candidato a governador se não fizesse esse embate com o governador Cid Gomes à época, e depois com o Camilo Santana [PT].
CARÁTER. Esse recálculo de rota foi importante para acomodar todos?
CW. Eu acho a experiência de 2024 uma grande lição. Foi ótimo para a gente entender que, quando lançamos vários candidatos de oposição, nós dividimos as forças. Essa divisão fez com que o André [Fernandes] fosse para o segundo turno e não ganhasse a eleição, mesmo tendo uma grande chance e um grande resultado. A gente entende que para vencer uma máquina forte como essa que está aí — o PT hoje tem o Governo Federal, tem o Governo do Estado, tem o governo do município de Fortaleza, tem várias prefeituras pelo Interior; se somar PSB e PT, quase todas as prefeituras são deles —, só há uma forma: esquecer um pouquinho as diferenças e tentar unir naquilo que a gente é convergente. E há muitas convergências entre nós, especialmente entre mim e o Roberto, pela questão da nossa geração, que é mais ou menos a mesma, temos idades parecidas. A gente diverge em alguns pensamentos, mas na grande maioria a gente concorda.
CARÁTER. E como é que o senhor definiria sua pegada política?
CW. Olha, acho que hoje estou entre essa pegada da meninada do PL e a do Roberto Cláudio. Eu considero o Roberto Cláudio um dos quadros mais técnicos da política cearense.
CARÁTER. O senhor não vê como prejudicial vídeos que alguns nomes do PL divulgam que podem causar desinformação?
CW. Eu acho que aquela atitude do André, de ver aquela praça suja e cheia de mato, de juntar os correligionários e ir lá limpar, recolher o lixo, foi extremamente bacana. Até porque, a partir de então, a prefeitura passou a agir com mais agilidade. O André, como forma de chamar a atenção, foi deixar o lixo em frente à Prefeitura e foi isso o que impactou. O que mais gerou repercussão no vídeo não foi a limpeza da área que estava suja, não foi a atitude proativa daqueles que lá foram, e sim ele ter deixado o lixo ali na frente. Eu sendo o prefeito teria recebido aquilo ali como uma crítica construtiva, muito embora o descarte não tenha sido adequado ao deixar o lixo em frente à prefeitura. Quando você fala do Carmelo, que foi denunciar obras que diziam estar paradas, mas na verdade não estavam, eu procuro me cercar de toda certeza quando vou fazer uma denúncia. Eu faço muita denúncia parecida com essa do Carmelo, mas eu vou lá, investigo, vejo se a obra está parada mesmo, converso com a população, vou atrás da construtora para entender os motivos para só então eu me posicionar. Eu acho que é legítimo a oposição fazer esse tipo de crítica, só que com um pequeno cuidado.
CARÁTER. As indústrias ainda estão muito concentradas na Região Metropolitana de Fortaleza. Como pensar numa descentralização, levando em conta e considerando o potencial de cada região do estado?
CW. Antes de qualquer coisa, a gente tem que entender o potencial que cada região tem. A gente tem um Estado com 600 km de praias e, infelizmente, não temos um trabalho por parte do Governo do Estado no sentido de aproveitar essa vocação para a indústria da praia, a indústria da pesca, a indústria do turismo. A gente tem muitas iniciativas vindas da iniciativa privada, mas poucas ações do poder público no sentido de gerar oportunidades, principalmente no interior.
CARÁTER. É importante pontuar que também houve muito investimento em outras áreas, como tecnologia, por exemplo…
CW. Tecnologia sim. A gente vive num Estado que tem acho que o maior potencial de energias renováveis no Brasil. A energia eólica não tem um local que tenha tanto vento; o sol também, o estado do Ceará é uma referência, muito embora o Governo do Estado não esteja sabendo aproveitar essa vocação que a gente tem para as energias renováveis. Trabalhou-se durante seis ou sete anos um discurso, inclusive junto com a Fiec [Federação das Indústrias do Estado do Ceará] — e aqui é uma crítica construtiva à Fiec —, de que nós teríamos aqui a fabricação e a distribuição para o mundo todo do hidrogênio verde. E agora se calaram, porque viram que era completamente inviável no momento.
CARÁTER. E para curto prazo?
CW. Eu acho que a gente tem que, acima de tudo, aproveitar a característica turística que a gente tem. Mas para a gente aproveitar esse turismo, a praia, o litoral, a gente tem que tirar uma mancha do estado do Ceará, que é a mancha da violência. Então o turista já evita e vai procurar uma outra opção.
CARÁTER. Presidente, o STF está na mira de parte da população. Se for eleito ao Senado, o senhor vai querer colocar o STF na berlinda?
CW. Eu acho que a gente, enquanto democrata, tem que entender que os poderes devem funcionar em harmonia, mas independentes. A população cobra muito do Poder Legislativo, e com toda razão, porque carece de leis que sejam efetivas e que funcionem. Cobra muito do Executivo, porque o Executivo também se envolve em muitos escândalos de corrupção, e a população passou a cobrar também do Judiciário. O sistema judiciário, como qualquer dos outros poderes, é extremamente importante e vital para a democracia, mas o Judiciário enfrenta uma série de questionamentos da primeira instância até a Corte Suprema do país. E a gente considera que nós temos 11 pessoas que não podem ser questionadas se porventura se envolverem em excessos, ou usar do seu poder de influência, isso não é admissível. Comprovada qualquer irregularidade crassa nesse sentido, acho que a posição do Senado é abrir o processo de análise. Se durante o processo for verificado que de fato cometeram um crime de responsabilidade, tem que ter impeachment, assim como foram julgados os presidentes da República.
CARÁTER. O presidente Domingos Filho (PSD) deixou uma pergunta para o senhor sobre como intensificar o combate às facções…
CW. A gente precisa trabalhar na mudança da legislação para proteger quem porventura vai ser testemunha dessas pessoas. Mas o que tem dado certo mundo afora no combate a grupos territoriais armados é o uso da tecnologia. Se a gente pegar, por exemplo, a questão de São Paulo, lá em São Paulo a gente teve uma grande operação da Polícia Civil junto com a Polícia Federal, com as forças de segurança, que descobriu o envolvimento do crime organizado lá na Faria Lima, na Bolsa de Valores de São Paulo. O PCC é uma estrutura muito mais organizada e trabalha muito mais visando o lucro financeiro em larga escala; o CV é uma estrutura mais territorialista, que usa da força ostensiva, que gera confrontos e foca no controle de comunidades. Mas em todos os casos, o uso da tecnologia é extremamente importante. O que o município de São Paulo fez criando o Smart Sampa: 20.000 câmeras espalhadas pela cidade que monitoram as pessoas com leitura facial […] Acredito que políticas públicas que gerem ligação real entre município, estado e União são as mais eficazes no combate ao crime.
CARÁTER. Há discussões sobre segurança pública, PEC da Segurança Pública sendo debatida e propostas de leis integradas. Essa integração realmente pode acontecer na prática?
CW. Para funcionar, a primeira coisa é que a gente tem que se despir de qualquer vaidade ideológica ou questões partidárias. Eu me lembro de uma época em que Diadema (SP) era considerada uma das cidades mais violentas do Brasil, tinha índices altíssimos de homicídios por 100.000 habitantes. Veja só: o prefeito de Diadema era do PT, o governador de São Paulo era do PSDB e o presidente da República era do PT. Eles se juntaram. As três gestões resolveram esquecer qualquer questão ideológica e foram implementadas legislações no município.
The post “Cid procurou a Executiva Nacional do União Brasil para se filiar” appeared first on O Estado CE.