Varizes afetam milhões no Brasil, mas acesso a tratamento revela desigualdades alarmantes
Estudo revela que varizes afetam até 40% dos adultos brasileiros, mas o acesso ao tratamento cirúrgico é alarmantemente desigual no país. O post Varizes afetam milhões no Brasil, ...
POR SOBRAL ONLINE
Publicado em 01/08/2026 às 11:25

As varizes, frequentemente vistas apenas como um problema estético, representam, na verdade, uma das manifestações mais comuns da doença venosa crônica. Esta condição, que atinge entre 30% e 40% da população adulta brasileira, pode evoluir para quadros graves com dor intensa, inchaço, alterações cutâneas, sangramentos e até úlceras de difícil cicatrização se não for devidamente tratada.
Um estudo recente, liderado por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita e publicado na revista Annals of Vascular Surgery, lança luz sobre um desafio significativo: a disparidade no acesso ao tratamento cirúrgico de varizes no Brasil. A pesquisa, que analisou mais de 1,2 milhão de cirurgias realizadas entre 2015 e 2023, utilizando dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar e do Datasus, revela uma profunda desigualdade entre os sistemas de saúde e as regiões do país.
Desigualdade no Acesso ao Tratamento Cirúrgico de Varizes
A análise do estudo aponta que, embora cerca de 75% da população brasileira dependa exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa de procedimentos cirúrgicos para varizes na saúde suplementar foi quase cinco vezes maior. Essa discrepância sublinha uma barreira considerável para a maioria dos cidadãos que dependem do sistema público.
Além da diferença entre os sistemas, o levantamento também identificou marcantes disparidades regionais. O Sudeste concentrou a maior parte das cirurgias, com 62% dos casos, seguido pelo Sul, com 17,5%. Em contraste, a região Norte respondeu por apenas 1,5% dos procedimentos, evidenciando uma distribuição de recursos e acesso ao tratamento extremamente desigual.
Bruno Jeronimo Ponte, cirurgião vascular no Einstein e um dos autores da pesquisa, enfatiza que o objetivo do trabalho não foi comparar a qualidade dos sistemas, mas sim oferecer um retrato fiel da realidade brasileira. “Agora surgem novas perguntas que poderão ser respondidas em outros trabalhos: por que algumas regiões fazem mais cirurgias do que outras? Como otimizar a distribuição de recursos? Como ampliar o acesso ao tratamento?”, questiona Ponte, esperando que os dados sirvam de base para futuras políticas públicas.
A Progressão Silenciosa da Doença Venosa Crônica
As varizes são parte de um espectro mais amplo conhecido como doença venosa crônica, que pode se manifestar desde pequenos vasos aparentes até veias de maior calibre. O problema se inicia quando as válvulas dentro das veias, responsáveis por impulsionar o sangue de volta ao coração, falham em seu funcionamento.
Nelson Wolosker, cirurgião vascular, reitor do Ensino Einstein e líder da equipe do estudo, explica que, com a falha das válvulas, o sangue reflui e se acumula nas pernas, causando a dilatação das veias e o surgimento das varizes. A doença costuma progredir lentamente ao longo dos anos, começando com alterações visíveis na pele e evoluindo para sintomas como sensação de peso, dor, cansaço e inchaço no final do dia.
Em estágios mais avançados, o aumento da pressão nas veias pode levar à inflamação dos tecidos, alterações na coloração da pele e à formação de úlceras venosas, que podem permanecer abertas por longos períodos. Além disso, há um risco aumentado de trombose venosa profunda e de sangramentos decorrentes do rompimento de varizes mais calibrosas. Wolosker alerta que, embora a doença não seja fatal, ela pode comprometer significativamente a qualidade de vida, levando pacientes a conviver com dor crônica e feridas persistentes.
A pesquisa também revelou que 78% das cirurgias no Brasil foram realizadas em mulheres, embora a doença afete ambos os sexos. Fatores como genética, envelhecimento, obesidade, gestações e profissões que exigem longas horas em pé ou sentado são considerados de risco para o desenvolvimento de varizes.
Diagnóstico e Opções Terapêuticas Atuais
Um dos maiores desafios no tratamento das varizes é a percepção de muitos pacientes de que se trata apenas de uma questão estética, o que frequentemente atrasa a busca por atendimento médico. “Muitos pacientes só procuram ajuda quando a doença já está causando complicações. Mas é importante entender que as varizes são uma doença progressiva”, alerta Bruno Jeronimo Ponte.
O diagnóstico é geralmente baseado na avaliação clínica e no histórico do paciente. Exames de imagem, como o ultrassom, são frequentemente solicitados após o diagnóstico inicial para mapear as veias afetadas e planejar o tratamento, especialmente quando há indicação de procedimentos invasivos, como a cirurgia.
Atualmente, diversas opções terapêuticas estão disponíveis para o tratamento das varizes. Elas variam desde a cirurgia convencional, que é a técnica predominante na rede pública e envolve a retirada da veia doente, até métodos mais modernos como a aplicação de laser, radiofrequência e escleroterapia com espuma. A escolha do tratamento ideal depende das características individuais de cada paciente e da gravidade do quadro. Nelson Wolosker reitera que o objetivo principal do tratamento vai além da melhoria estética, visando interromper a progressão da doença e prevenir suas complicações.
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