Terremoto na Venezuela: entenda as chances de sobrevivência dias após o desastre
Uma pessoa caminha entre os escombros de um prédio que desabou, após os terremotos em Caracas , Venezuela. Leonardo Fernandez Viloria / Reuters Quase dois dias após os terr...
POR G1 MUNDO
Publicado em 26/06/2026 às 20:36

Uma pessoa caminha entre os escombros de um prédio que desabou, após os terremotos em Caracas , Venezuela.
Leonardo Fernandez Viloria / Reuters
Quase dois dias após os terremotos atingirem a Venezuela, o governo estima que mais de 200 pessoas ainda podem estar presas nos escombros.
O balanço mais recente, da tarde desta sexta-feira (26), atualizou para 920 o número de mortos por conta dos tremores. Há quase 3 mil feridos.
➡️ Na noite de quarta-feira (24), dois terremotos em sequência atingiram a região norte do país, onde fica Caracas. Além das mortes, os tremores derrubaram prédios e deixaram um rastro de destruição na capital venezuelana e arredores. Os sismos foram os mais fortes no país em mais de 100 anos.
A cada hora que passa, a chance de encontrar pessoas com vida diminui. Segundo especialistas, o tempo de sobrevivência sob os escombros depende de muitos fatores, especialmente:
Posição da vítima no momento do colapso
Acesso ao ar e à água
Clima
Condições meteorológicas
Aptidão física da pessoa
Ainda que boa parte dos resgates seja feito nas primeiras 24 horas após um desastre, há casos de pessoas tiradas de edifícios destruídos depois de muito mais tempo.
Por mais que possa parecer contraditório, crianças e bebês, por exemplo, são os que têm mais chances de serem encontrados com vida, por conta de seu tamanho.
Abaixo, entenda quais fatores contribuem para o aumento do tempo de vida em condições adversas depois de um terremoto.
Chances de resgate
Em entrevista ao g1, Léo Farah, especialista em Redução de Risco de Desastres, explica que as primeiras horas durante um resgate são muito importantes, independentemente da idade das vítimas.
Segundo ele, com o passar do tempo, as chances de um resgate com vida vão diminuindo e, até 7 dias após um desastre, a possibilidade de encontrar um sobrevivente cai para em torno de 5%.
Mas esse intervalo de tempo varia muito. No [terremoto de 2010 do] Haiti, por exemplo, encontraram pessoas vivas 12 dias depois, porque se formam os bolsões que chamamos de 'espaço vital isolado', onde a pessoa consegue sobreviver.
No caso dos pequenos, Farah explica que, além do tempo, o principal fator que influencia a possibilidade de um resgate com vida é o fato de crianças e bebês serem menores que os adultos e, assim, se acomodarem nesses pequenos espaços de ar.
Ainda de acordo com o especialista, apesar disso, nada impede que outras pessoas consigam sobreviver nesses casos.
"É lógico que, se a gente estiver falando de um adulto extremamente preparado, que consegue ter um raciocínio e um instinto de sobrevivência maior, ele vai ter uma chance natural maior", diz Farah.
No entanto, ele afirma que a possibilidade de um adulto ficar preso é maior.
"Um adulto, por exemplo, tem uma possibilidade maior de ficar preso nos escombros que uma criança. Além disso, justamente por causa do seu tamanho, o resgate de uma criança ou bebê é mais fácil. Isso porque podemos retirar a criança em um espaço menor e com mais facilidade. A criança tem uma maior maleabilidade e, por isso, os resgates nessas situações são mais rápidos", detalha.
Como se proteger quando acontece um terremoto
Pessoas recebem atendimento em um hospital de campanha após os terremotos, em La Guaira, na Venezuela, em 24 de junho de 2026.
Reuters/Maxwell Briceno/TPX Images of the Day
Água é fundamental
Nós não vivemos sem oxigênio, água ou alimentos. Quando um destes falta ou fica escasso, a sobrevivência fica seriamente ameaçada, independentemente da idade.
Segundo Carlos Eduardo Pompilio, clínico geral do Hospital das Clínicas de São Paulo, o nosso corpo consegue até sobreviver um tempo sem comida, mas isso só vai acontecer se tivermos água. Ele explica que a quantidade de dias que conseguimos ficar sem água depende de fatores como peso, idade, doenças preexistentes e condições do ambiente.
Você precisa de água para fazer funcionar o metabolismo basal. Nossa produção de energia deixa 'lixo metabólico', resíduos que são ácidos e tóxicos e que precisam ser excretados. E como isso acontece? À medida que você dilui esses resíduos em água. Se não tem essa água para fazer essa diluição, você acaba tendo um acúmulo e entrando em insuficiência renal.
A água é vital para a circulação e funcionamento de todos os órgãos. Além disso, ela fornece nutrientes, regula a temperatura e também lubrifica olhos e articulações.
A falta de água, ou desidratação, provoca efeitos graves no corpo, até que ele pare de funcionar.
A desidratação pode levar à hipertermia, que leva a reações enzimáticas e podem provocar a paralisação completa dos órgãos. A perda de enzimas também pode causar uma coagulação do sangue nos vasos sanguíneos, impedindo a circulação.
Impacto das condições climáticas
No caso da hidratação, o calor é um aspecto que influencia negativamente, visto que é mais difícil manter a conservação de água no corpo. Isso porque, nessas situações, perdemos água mais rápido e sem perceber - seja pelo suor ou pela respiração.
A água evapora para tentar manter a temperatura do corpo nos 37ºC e a concentração de sódio aumenta muito.
Como as regiões mais atingidas pelo tremor vêm registrando temperaturas na casa dos 27ºC desde quarta-feira, esse é mais um ponto de preocupação.
Por que a água é tão importante para a saúde?
Alimentos garantem energia para o corpo
Para funcionar bem, o nosso corpo também precisa de nutrientes. São eles que garantem a energia essencial para o funcionamento das células. Esta energia é fundamentalmente convertida em glicose, nutriente do cérebro. Quando falta glicose, o cérebro consegue funcionar com outra forma de energia, que são os corpos cetônicos.
O corpo "estoca" a energia basicamente em três lugares: fígado, músculos e tecido adiposo (gordura).
Em uma situação de privação de alimentos, os primeiros estoques que acabam são os do fígado, que manda toda a glicose para a circulação.
Em seguida, o corpo começa a retirar a energia das gorduras para produzir os corpos cetônicos que, depois de 2 semanas, passam a abastecer o cérebro. Paralelamente, as proteínas são retiradas dos músculos e transformadas em glicose.
Com isso, o corpo vai se autoconsumindo para garantir a energia que o cérebro precisa para manter as funções vitais. Ocorrem perda de peso, perda de massa muscular, fraqueza, anemia, inchaço, maior chance de infecções, alteração do humor, mau hálito e maior possibilidade de transtornos psicoemocionais.
No caso das crianças e bebês, a situação é mais delicada ainda porque eles possuem uma menor reserva energética e um gasto energético maior.
Além disso, conforme explica Lívia Aguiar, pediatra da BP, o estômago de um recém-nascido ou de um bebê é bem menor que o de um adulto e, consequentemente, o volume de comida que ele pode estocar é bem menor.
No caso dos recém-nascidos, em específico, a especialista ressalta ainda que outro complicador é o fato de que a digestão do leite materno é feita de forma mais rápida.
Segundo o CDC, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, no início da vida, justamente por causa disso, os bebês precisam comer a cada 2 a 4 horas para ajudá-los a obter nutrição suficiente e crescer.
"E a gente precisa lembrar que, quanto menor a criança, como bebês até um ano e recém-nascidos, temos um baixo estoque de glicogênio [a principal reserva de energia nas células animais]. E à medida que ele vai caindo, vai gerando mais estresse na criança", diz Aguiar.
"A alimentação é muito importante. Ela faz com que você tenha substrato energético para poder viver, reproduzir suas células, contrair seus músculos. O combustível do organismo é a glicose e nós temos essa reserva, tiramos energia de vários meios. Conseguimos nos virar em condições sem alimentos, mas sem a água não conseguimos isso", acrescenta Pompilio.
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