Sangue pode revelar como uma pessoa responderá à vacina antes da imunização, diz estudo
As vacinas protegem a população da versão grave de diversas doenças, no entanto, a eficácia dos imunizantes varia entre os pacientes. Agora, um novo estudo liderado pela Universid...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 21/08/2026 às 15:52
As vacinas protegem a população da versão grave de diversas doenças, no entanto, a eficácia dos imunizantes varia entre os pacientes. Agora, um novo estudo liderado pela Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, ajuda a entender o porquê. Para o trabalho, publicado, ontem, na revista Cell Press Blue, os cientistas avaliaram amostras de sangue de mais de quatro mil voluntários.
Ao estudar as amostras, os cientistas avaliaram a presença de anticorpos que atuam contra 185 antígenos, alvos reconhecidos pelo sistema imunológico, incluindo vírus e bactérias comuns, bem como alvos associados a doenças autoimunes. Em seguida, eles analisaram padrões antes e depois da vacinação contra a covid, para identificar assinaturas de anticorpos que ajudaram a distinguir pacientes com forte resposta ao imunizante daqueles com reação fraca.
“O que nosso estudo descobriu é que certos biomarcadores podem prever quem provavelmente responderá bem a uma vacina, mesmo antes de recebê-la. Isso sugere que algumas pessoas podem estar mais preparadas imunologicamente do que outras”, diz Joshua LaBaer, líder do estudo.
Normalmente, os cientistas avaliam a resposta à vacina após a aplicação, mensurando se o sistema imunológico produziu anticorpos contra o alvo. Durante a nova pesquisa, os estudiosos se questionaram se padrões já presentes no sangue poderiam prever a resposta antes da imunização
A abordagem utilizada pelos cientistas é uma das primeiras a usar uma espécie de ‘impressão digital’ ampla de anticorpos pré-vacinação, para avaliar a prontidão do sistema imunológico. Ao contrário de alguns métodos de previsão que dependem de análises genéticas, essa estratégia utiliza padrões de anticorpos no sangue, o que pode ser mais fácil de adaptar para uso clínico.
Para testar se essa assinatura de anticorpos poderia revelar a prontidão para a vacinação, os pesquisadores analisaram as respostas de anticorpos a 185 antígenos. O estudo incluiu 8.687 amostras de 4.089 participantes, abrangendo voluntários saudáveis e pessoas com doenças ou tratamentos relacionados que provocam supressão imunológica.
A equipe descobriu que níveis mais elevados de certos anticorpos preexistentes, incluindo aqueles contra micróbios comuns como Staphylococcus aureus e vírus respiratórios, estavam associados a respostas mais fortes à vacina contra a covid.
Anticorpos sentinela
Os pesquisadores descrevem esses anticorpos como sentinelas, pois podem indicar a predisposição imunológica basal de uma pessoa. Eles não estão necessariamente combatendo o alvo da vacina diretamente, no entanto, podem refletir a probabilidade de produção de anticorpos.
Em seguida, os cientistas questionaram se a impressão digital completa dos anticorpos, e não apenas alguns marcadores individuais, poderia ajudar a identificar pessoas com maior probabilidade de apresentar respostas vacinais fracas. Seu modelo de aprendizado profundo analisou padrões em todo o painel de anticorpos, combinando diversas medições em um perfil imunológico mais abrangente.
Os pesquisadores afirmam que as descobertas podem ter implicações além da covid, caso sejam validadas em estudos adicionais e com outras doenças. Segundo eles, o perfil de anticorpos sentinela pode auxiliar no direcionamento dos testes de imunizantes, no desenvolvimento de vacinas e no atendimento clínico de pessoas com risco de respostas imunológicas deficientes.
Segundo Fernanda America Pedreira Soubak, imunologista integrante da plataforma INKI, a resposta à vacina é resultado da interação entre características individuais e fatores relacionados ao próprio imunizante. “Entre os principais determinantes estão idade, genética, sexo, estado nutricional, doenças crônicas, uso de medicamentos imunossupressores, qualidade do sono, composição da microbiota e histórico de infecções e vacinações anteriores.”
Segundo Soubak, é importante considerar o estado do sistema imunológico no momento da vacinação. “Uma infecção recente, inflamação persistente ou alterações na imunidade podem modificar a forma como o organismo reconhece o antígeno e produz anticorpos e células de memória. Além disso, as pessoas não chegam à vacinação ‘imunologicamente neutra’. Cada indivíduo possui uma história própria de exposições a vírus, bactérias e vacinas.” A especialista diz que essa experiência prévia pode favorecer uma resposta mais rápida e intensa, mas, em alguns casos, pode ter efeito oposto.
Para os cientistas, essa abordagem poderá, eventualmente, ajudar os médicos a identificar pacientes que precisam de doses adicionais da vacina, acompanhamento mais rigoroso ou medidas de proteção alternativas. Também poderá ajudar os pesquisadores a entender melhor por que algumas pessoas respondem bem à vacinação, enquanto outras não.