Síndrome dos ovários policísticos aumenta risco de infarto e AVC mesmo sem obesidade ou diabetes
Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOPM) têm até quatro vezes mais chances de sofrer infarto, derrame ou outras doenças cardiovasculares do que mulheres sem a...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 06/08/2026 às 19:15
Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOPM) têm até quatro vezes mais chances de sofrer infarto, derrame ou outras doenças cardiovasculares do que mulheres sem a síndrome — mesmo quando fatores como peso, diabetes e pressão alta são descartados da equação. A conclusão é de um estudo publicado na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health.
A SOPM é uma condição endócrina multissistêmica que afeta entre 10% e 13% das mulheres no mundo. Está associada ao hiperandrogenismo, excesso de hormônios masculinos, e à resistência à insulina, fatores que aumentam o risco de diabetes tipo 2, hipertensão e obesidade.
Até aqui, a explicação pareceria simples: mulheres com SOPM adoecem do coração porque engordam mais ou desenvolvem diabetes com mais frequência. Mas o estudo mostra que essa lógica é incompleta. Segundo os pesquisadores, a síndrome atua como um potencializador de risco direto: o perigo para o coração não vem só das consequências visíveis da doença, mas da própria biologia da SOPM.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas fizeram uma análise estatística que isolou o efeito de peso, diabetes e pressão alta, perguntando: mesmo sem esses fatores, mulheres com SOPM continuam correndo risco? A resposta foi sim.
Os números por trás do risco
Somados, os fatores de risco tradicionais explicam apenas 36,3% da ligação entre a SOPM e os eventos cardiovasculares. Individualmente:
- Hipertensão: explica 15,6% do risco
- Obesidade: explica 14,3% do risco
- Colesterol alto (hiperlipidemia): explica 12,7% do risco
- Diabetes tipo 2: explica 10,0% do risco
Na prática, isso significa que uma mulher com SOPM pode ter peso considerado saudável e exames de glicose normais e, ainda assim, carregar um risco cardíaco residual elevado, que não pode ser ignorado nas consultas médicas.
Ao contrário da crença de que problemas cardíacos surgem só após a menopausa, o estudo focou em mulheres jovens, com idade média de 31 anos. Os dados mostram que a divergência de risco começa cedo: aos 35 anos, mulheres com SOPM já apresentam probabilidade significativamente maior de eventos graves do que o grupo de referência.
Metodologia
Trata-se do maior levantamento nacional já realizado nos Estados Unidos sobre essa conexão. Os pesquisadores analisaram dados de saúde de mais de 2,4 milhões de mulheres — 413.450 delas com SOPM — ao longo de duas décadas, entre 2000 e 2022, o que confere aos resultados uma autoridade científica sem precedentes.
Os critérios de inclusão consideraram mulheres entre 18 e 50 anos, sem histórico prévio de doenças cardíacas, câncer ou transplantes. O desfecho principal analisado, batizado de ASCVD, reuniu três categorias de eventos:
- Doença coronariana: infarto do miocárdio ou angina
- Doença cerebrovascular: AVC isquêmico ou ataque isquêmico transitório (AIT)
- Doença arterial periférica: problemas de circulação nos membros
A taxa de eventos cardíacos foi de 4,52 por 1.000 pessoas-ano no grupo com SOPM, contra apenas 0,78 no grupo saudável. Por categoria, o risco ajustado foi:
- Doença coronariana: 4,41 vezes maior
- Doença cerebrovascular: 4,33 vezes maior
- Doença arterial periférica: 4,98 vezes maior
Uma mudança nos atendimentos
Historicamente, mulheres com SOPM que não são obesas — as chamadas “magras com SOP” — recebiam menos atenção quanto à saúde do coração. O estudo derruba essa prática ao mostrar que a associação com doenças cardíacas deve ser discutida mesmo em pacientes sem os fatores de risco tradicionais. Em resumo: a SOPM não é apenas uma questão reprodutiva ligada ao ganho de peso, mas uma condição endócrina que, por natureza própria, funciona como um potencializador direto de risco para o sistema circulatório.
Diante desses achados, os pesquisadores defendem que médicos e pacientes não podem esperar o surgimento de sintomas clássicos para agir. A recomendação agora é que o rastreamento cardiovascular comece imediatamente no momento do diagnóstico da SOPM, com intervenções precoces em dieta, estilo de vida e acompanhamento de longo prazo, mesmo em mulheres que parecem saudáveis.