Romper o silêncio também é um ato de coragem
Quando uma mulher decide denunciar um relacionamento abusivo, muita gente acredita que o pior já passou. Infelizmente, essa não é a realidade de milhares de brasileiras. Para muita...
POR O ESTADO
Publicado em 27/07/2026 às 02:13
Quando uma mulher decide denunciar um relacionamento abusivo, muita gente acredita que o pior já passou. Infelizmente, essa não é a realidade de milhares de brasileiras. Para muitas vítimas, a denúncia representa apenas o início de uma nova batalha, marcada por medo, insegurança e pela difícil tarefa de reconstruir a própria vida.
Ao longo dos últimos anos, o Brasil avançou na proteção dos direitos das mulheres. A legislação passou a reconhecer que a violência não deixa apenas marcas no corpo. Humilhações constantes, controle excessivo, ameaças, perseguição, isolamento e manipulação emocional também são formas de violência e podem destruir a autoestima e a liberdade de uma mulher.
Mesmo assim, romper esse ciclo continua sendo um enorme desafio. Não por falta de coragem, mas porque quase sempre existem fatores que prendem a vítima ao agressor: dependência financeira, filhos, medo de represálias, vergonha, ausência de apoio familiar e até a esperança de que o companheiro mude.
É importante compreender que a violência doméstica raramente começa com uma agressão física. Ela costuma surgir de maneira silenciosa, por meio do controle, do ciúme disfarçado de cuidado, das críticas constantes e das tentativas de afastar a mulher de amigos e familiares. Quando ela percebe, já vive uma rotina de medo.
Também é preciso acabar com um mito muito comum: a violência doméstica não escolhe classe social, profissão ou escolaridade. Ela acontece em todas as camadas da sociedade e, muitas vezes, dentro de lares que aparentam perfeição para quem observa de fora.
Outro ponto fundamental é que denunciar não deve ser encarado como um ato isolado. A mulher precisa encontrar uma rede de proteção eficiente, formada pela família, amigos, profissionais de saúde, assistência social, forças de segurança e pelo Poder Judiciário. A lei é indispensável, mas, sozinha, não basta. Proteção exige acolhimento, rapidez e presença do Estado.
Também é essencial que toda mulher saiba que não precisa esperar uma agressão física para buscar ajuda. Ameaças, perseguições, violência psicológica e digital também são crimes e podem justificar medidas protetivas.
Mais do que orientar sobre direitos, precisamos fortalecer uma cultura de respeito e prevenção. Cada denúncia acolhida, cada vida protegida e cada mulher que consegue recomeçar representam uma vitória coletiva.
Nenhuma mulher deve carregar sozinha o peso da violência. O silêncio protege o agressor. A informação, a denúncia e a rede de apoio salvam vidas.
ANA CLÁUDIA CASTRO
ADVOGADA
The post Romper o silêncio também é um ato de coragem appeared first on O Estado CE.