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Ceará / 02.09.2026

População envelhece, e nova geração assume rotina solitária de cuidados com idosos

Com o envelhecimento da população brasileira, filhos e netos assumem uma rotina de cuidados que mistura amor, responsabilidade, renúncias e, muitas vezes, a falta de apoio de outro...

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POR O ESTADO

Publicado em 02/09/2026 às 09:01

População envelhece, e nova geração assume rotina solitária de cuidados com idosos
© FONTE: O Estado

O envelhecimento costuma chegar devagar. Primeiro, alguém começa a acompanhar uma consulta. Depois, passa a ajudar com os medicamentos, as compras, o banho, as contas, os deslocamentos. Quando a família percebe, aquele filho ou neto que apenas “dava uma força” passou a ser o responsável por quase tudo.

No Brasil, essa realidade tende a alcançar cada vez mais famílias. Em 2024, o país tinha cerca de 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa um crescimento de 53,3% em relação a 2012, quando eram 22 milhões.  A expectativa de vida também aumentou: chegou a 76,6 anos em 2024. 

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Por trás dos números, existem histórias de pessoas que precisaram reorganizar a própria vida para acompanhar quem um dia fez o mesmo por elas.

Foi assim com Maria de Fátima. O cuidado com os pais começou quando ela ainda era muito jovem. A mãe, Rosa da Conceição, já enfrentava problemas de saúde, e Maria acabou assumindo parte da rotina da casa. Depois, veio o cuidado com o pai, Cosmo Leite, que era cego.

O que começou cedo atravessou boa parte de sua vida. Maria cuidou dos dois até o fim. Trabalhou quando conseguiu, enfrentou dificuldades financeiras e precisou abrir mão de oportunidades porque a prioridade era estar por perto.

A divisão das responsabilidades familiares, porém, não aconteceu como ela gostaria. Segundo Maria, os irmãos não ajudaram nos cuidados. A exceção foi um deles, que colaborava pagando a escola da filha dela e da forma que podia, já que Maria não tinha condições de trabalhar normalmente. Mesmo diante das dificuldades e da ausência dos demais irmãos em muitos momentos, ela não guarda arrependimento.

Para Maria, cuidar dos pais foi uma forma de retribuir tudo o que recebeu deles. E, embora reconheça que houve dias difíceis, acredita que a vida também lhe devolveu muito do que entregou. A história mostra um dos lados mais delicados do envelhecimento: quando a responsabilidade recai sobre uma única pessoa da família.

“Às vezes, a família acha que contratar alguém resolve tudo. O cuidador profissional é muito importante, mas a presença da família também é”, explica a cuidadora de idosos Luísa Mendes. Para ela, mesmo quem trabalha e não consegue permanecer durante o dia pode participar da rotina. “Ter aquele momento quando chega à noite, no final de semana, perguntar como está, conversar, acompanhar. Isso faz diferença para o idoso.”

A presença, nesse caso, não significa necessariamente estar disponível 24 horas. Significa não transformar o cuidado em uma responsabilidade terceirizada completamente para uma única pessoa.

A experiência do ex secretário da Secretaria da Proteção Animal do Ceará e vereador Erich Douglas também passou por esse caminho. Aos 14 anos, ele foi morar com o avô de coração, Doquinha, marido de sua avó. Depois que ela morreu, Doquinha ficou sozinho e Erich decidiu viver com ele.

A relação, que já era de afeto, ganhou outra dimensão a partir de 2020, quando o avô desenvolveu Alzheimer. Na época, Erich ainda não tinha condições financeiras para contratar ajuda permanente. A solução foi levar Doquinha para onde pudesse. O avô passou a frequentar o ambiente de trabalho, encontrar os amigos e acompanhar o neto em diferentes momentos da rotina.

Quando Erich conseguiu melhorar a situação financeira, já como vereador e secretário, passou a pagar uma cuidadora para acompanhá-lo durante o período em que estava trabalhando.

Mas o cuidado continuava sendo dele. À noite, era Erich quem estava com Doquinha. Nos finais de semana também. Os dois saíam, passeavam e mantinham uma rotina possível dentro das limitações impostas pela doença. Doquinha morreu este ano, e deixou uma ausência que não se resolve com uma agenda vazia.

A experiência pessoal também acabou se transformando em uma pauta de atuação pública. Na Câmara Municipal de Fortaleza, Erich apresentou indicações para a construção de Centros-Dia para idosos nos bairros São João do Tauape e Conjunto Ceará.  A ideia é oferecer uma alternativa para famílias que precisam trabalhar, mas não querem deixar o idoso sozinho.

Entre o cuidado e o abandono

Nem todas as histórias, entretanto, têm a mesma rede de afeto. Há idosos que acabam em instituições de longa permanência porque a família não consegue oferecer os cuidados necessários. Em outros casos, o acolhimento ocorre depois de situações de negligência, violência ou abandono.

É importante diferenciar as situações. Uma instituição de longa permanência não é, por si só, sinônimo de abandono. O próprio Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social considera o acolhimento uma medida que pode ser necessária quando não existem condições de permanência com a família, inclusive em casos de violência, negligência ou abandono.  O problema aparece quando o afastamento significa simplesmente deixar de acompanhar, visitar ou garantir as necessidades básicas.

A advogada Ana Cláudia explica que a responsabilidade pelo idoso não desaparece porque ele está em uma instituição. O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece que é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar, com prioridade, direitos como vida, saúde, alimentação, dignidade, respeito e convivência familiar e comunitária. 

A legislação também prevê punição para o abandono da pessoa idosa e para a falta de atendimento de suas necessidades básicas quando houver obrigação legal. 

Os números ajudam a dimensionar o problema. Entre janeiro e maio de 2025, dados do Disque 100 apontaram mais de 72 mil denúncias e 419 mil violações de direitos contra pessoas idosas no país. Entre as violações registradas estavam negligência e abandono. 

Em Fortaleza, somente nos quatro primeiros meses de 2025, os Creas acompanharam 355 pessoas idosas vítimas de violência. No mesmo período, foram registradas 366 denúncias de violência contra idosos. 

Quando cuidar também precisa ser uma política pública, é justamente nesse ponto que iniciativas como o Centro-Dia ganham importância.

O serviço funciona como uma espécie de apoio diurno para famílias. A pessoa idosa pode passar parte ou todo o dia no equipamento, receber cuidados, participar de atividades de convivência e ter acompanhamento especializado, enquanto a família mantém sua rotina de trabalho. O serviço também oferece orientação aos cuidadores familiares e busca evitar isolamento, abandono e a necessidade de acolhimento institucional. 

Em 2026, o Governo Federal também iniciou em Fortaleza um projeto-piloto de cuidado domiciliar para pessoas idosas, dentro da iniciativa Cuidado em Casa, voltada também ao apoio de familiares que exercem o cuidado de forma não remunerada. 

São alternativas que apontam para uma mudança necessária: o cuidado não pode ser entendido apenas como obrigação de um filho que deixou de trabalhar, de uma filha que abriu mão da própria vida ou de um neto que decidiu assumir sozinho uma responsabilidade familiar.

Cuidar pode ser um gesto de amor. Mas amor não deveria significar solidão para quem cuida. Porque, quando os pais envelhecem, a pergunta talvez não seja apenas quem vai cuidar deles. É também: quem vai cuidar de quem está cuidando?

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