Pesquisa da UFC com pele de tilápia transforma vidas, recupera autoestima e abre novas possibilidades para cirurgias de reconstrução vaginal
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC), que utiliza a pele de tilápia para reconstrução e ampliação do canal vaginal, está abrindo novas perspectivas pa...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 30/10/2026 às 01:47
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC), que utiliza a pele de tilápia para reconstrução e ampliação do canal vaginal, está abrindo novas perspectivas para melhorar a autoestima, a sexualidade e a qualidade de vida de pacientes em diferentes regiões do Brasil.
A técnica, criada por pesquisadores cearenses, foi utilizada em três cirurgias realizadas nos dias 27 e 28 de outubro, no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife, beneficiando pacientes trans atendidas pelo Espaço de Acolhimento e Cuidado de Pessoas Trans e Travestis.
Os procedimentos fazem parte de uma pesquisa clínica que busca tornar a neovagina mais funcional, com maior profundidade, largura e elasticidade. O objetivo é proporcionar melhores condições anatômicas e funcionais, com possíveis reflexos positivos na autoimagem corporal, na satisfação pessoal e na qualidade de vida das pacientes.
A inovação demonstra como estudos realizados nas universidades públicas podem ultrapassar os laboratórios e chegar aos serviços de saúde, oferecendo novas possibilidades de tratamento para pessoas que necessitam de reconstrução vaginal.
PESQUISA COMEÇOU NO CEARÁ EM 2017 E JÁ BENEFICIOU MAIS DE 50 PACIENTES
O professor Leonardo Bezerra, da Faculdade de Medicina da UFC e da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), é um dos responsáveis pelo desenvolvimento da técnica.
Segundo o pesquisador, os estudos começaram em 2017 e já permitiram a realização de mais de 50 procedimentos para correção da agenesia vaginal, condição congênita caracterizada pela ausência ou formação incompleta do canal vaginal, associada à síndrome de Rokitansky.
“Desde 2017 estamos empreendendo a pesquisa com uso de pele de tilápia para reconstrução do canal vaginal na UFC. Mais de 50 casos já foram realizados com a correção do distúrbio de agenesia vaginal”, explica Leonardo Bezerra.
O pesquisador destaca que a pele de tilápia passa por um processo de preparação e esterilização antes da utilização cirúrgica.
Depois de liofilizada, ela funciona como uma estrutura biológica que favorece o crescimento e a proliferação de células, contribuindo para a formação do canal vaginal.
TECNOLOGIA CEARENSE É UTILIZADA EM CIRURGIAS DE AFIRMAÇÃO DE GÊNERO
Os três procedimentos realizados no Hospital das Clínicas da UFPE representam mais uma etapa da pesquisa, agora voltada à utilização da técnica em cirurgias de afirmação de gênero.
Duas pacientes passaram por cirurgias primárias, realizadas para a criação da neovagina, enquanto a terceira foi submetida a uma cirurgia secundária, destinada à correção de complicações de procedimento anterior.
Leonardo Bezerra participou das intervenções, compartilhando os conhecimentos desenvolvidos na UFC e treinando a equipe médica pernambucana.
“Nossa hipótese é que o uso da pele de tilápia possa promover um canal vaginal fisiologicamente melhor: mais longo, largo, elástico e funcional para a relação sexual”, afirma o professor.
Segundo ele, a técnica poderá ajudar a superar limitações de procedimentos convencionais, como a neovaginoplastia por inversão da pele peniana, em que a quantidade de tecido disponível pode restringir as dimensões do canal vaginal.
TRATAMENTO CONTRA O CÂNCER
O estudo conduzido pela UFC, por meio do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), possui três frentes principais: reconstrução vaginal em pacientes com síndrome de Rokitansky, recuperação do canal vaginal de mulheres submetidas à radioterapia e utilização da técnica em cirurgias de afirmação de gênero.
Essas aplicações demonstram o alcance potencial da pesquisa, que poderá oferecer alternativas terapêuticas para diferentes condições de saúde.
Uma das vantagens investigadas pelos pesquisadores é o baixo custo da pele de tilápia como material biológico, além de suas possibilidades de utilização após processamento adequado.
PACIENTES SERÃO ACOMPANHADAS DURANTE UM ANO
A ginecologista Aleide Tavares, do Hospital das Clínicas da UFPE, explica que a unidade participará do acompanhamento clínico das pacientes para avaliar os resultados da técnica.
“Vamos usar a pele de tilápia nas próximas cirurgias realizadas aqui no HC, ao longo de um ano, acompanhando a evolução da adaptação da pele de tilápia e o grau de satisfação das pacientes com essa possibilidade de uma melhor funcionalidade da vagina”, afirma.
A avaliação permitirá investigar aspectos como adaptação do material, evolução clínica, funcionalidade do canal vaginal e satisfação das pacientes.
Os resultados são importantes para determinar a segurança e a eficácia da técnica nessa aplicação específica, que permanece em investigação clínica.
SA
A pesquisa já havia alcançado outro marco em dezembro de 2024, quando foi realizada a primeira neovaginoplastia com pele de tilápia em uma paciente trans no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo.
A experiência adaptou conhecimentos desenvolvidos anteriormente sobre o uso da pele de tilápia no tratamento de queimaduras e na reconstrução vaginal.
