Passado e presente se entrelaçam e escrevem novas histórias no Pecém
Distrito de São Gonçalo do Amarante trilha, desde início da construção do CIPP, um caminho de mudanças econômicas e sociais da população The post Passado e presente se entrelaçam...
POR O ESTADO
Publicado em 27/10/2026 às 20:00
Quando se mudou do Piauí para o Ceará, em 2021, Francisco Costa, de 49 anos, escolheu o Pecém em razão da expectativa que, já à época, se colocava no distrito, um dos oito de São Gonçalo do Amarante.
Dono de um Complexo Portuário posto diante de uma costa que flerta com a grandeza do Atlântico, o Pecém trouxe-lhe, conta o microempreendedor à frente de uma pequena loja de serviços, qualidade de vida e esperança em um cotidiano melhor. “Aqui é bom de viver, está crescendo e sempre tem muita gente.
Observo hotéis sempre recebendo gente de fora”, compartilha com O Estado ao ser questionado sobre como é a vida em Pecém, que segundo o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), soma cerca de 10 mil habitantes, total que corresponde a aproximadamente 20% da população da cidade-sede.
A reportagem visitou o distrito em outubro e, durante o deslocamento de cerca de 7km dentro do distrito para a apuração deste conteúdo, encontrou ruas limpas, serviços como de apoio à população, como agentes de trânsito no controle do tráfego da principal via do Centro do Pecém, avenida Antônio Brasileiro.
A via também concentra mercadinhos, lotéricas, pousadas, escolas, unidades de saúde, entre outros serviços mínimos para a garantia de atividades que retenham ganhos econômicos e consigam proporcionar um cotidiano dinâmico sem que os habitantes do distrito precisem se deslocar para acessar dispositivos básicos, incluindo privados, a exemplo de cobertura de plano de saúde.
“Boa morada”
A boa morada se soma também às falas de Antônio Costa, que “calçou os pés” no Pecém acreditando no distrito como um lugar bom de se viver. Antigo pescador, o comerciante de 59 anos passou pelo município de Caridade, no Interior do Estado, e chegou a trabalhar em uma importante indústria cearense na década de 1980.
As histórias de Antônio passam também pelo Pará, estado da região Norte, mas voltaram a encontrar sua trilha no Ceará, quando o Pecém passou a ser, argumenta, sua casa definitiva, em 2021.
A melhoria de vida hoje demonstrada pelas declarações de ambos é amparada em relatório de 2019 sobre os índices do Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios cearenses. Realizado pelo Instituto de Pesquisa e Economia do Ceará (Ipece), o levantamento apontou ganho de 2,04 pontos percentuais (pp) na fatia do PIB, em 17 anos, de São Gonçalo do Amarante, atualmente o quarto maior do Estado.
“São Gonçalo do Amarante teve um forte ganho de participação ao sair de uma participação de 0,26% em 2002 para 2,30% em 2019, embora tenha perdido com relação ao 2018 (2,71%). O município de maior PIB per capita do Estado do Ceará foi São Gonçalo do Amarante (R$77.639,32), ocupando o primeiro lugar no ranking desde 2017”, endossa o documento.
O primeiro ano ao que o Ipece se refere, 2002, foi o de inauguração do Porto do Pecém, cujas atividades entraram em funcionamento com duas siderúrgicas, Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) e ArcelorMittal, em 2016. Em 2023, a CSP foi comprada pela gigante russa, de maneira que a ArcelorMittal concentra, no Ceará, a produção de placas de aço para exportação, enviadas à Europa, à Ásia e às Américas.
“Meus vizinhos trabalham no porto”
Os dois Antônios trazem, também em comum, os relatos de que a maioria dos vizinhos trabalha “nas atividades do Porto do Pecém”. Quem também transcorre essa argumentação é John Lennon, de 33 anos, ao comentar que, além dos vizinhos, os clientes são funcionários do CIPP.
“Meus vizinhos trabalham lá e muitos dos meus clientes são de lá. Eles vêm almoçar, fazer alguma coisa aqui, e sempre compram algo”, descreve o paraibano e microempreendedor que há 10 anos mora no distrito. “É sempre muito movimentado aqui”. A perspectiva de que “a vida melhorou” é compartilhada por Marília Barbosa, cuja loja de roupas está em ampliação.
Em meio à adaptação que precisou fazer no espaço das mercadorias enquanto se muda para um novo ponto, a comerciante de 38 anos celebra a expansão populacional e, consequentemente, de vendas, desde a abertura de seu comércio, há 15 anos.

Para Marília, o marco da ampliação é o início do funcionamento do Porto do Pecém. “Eles vêm e consomem, tanto que tive que ampliar a loja”. A ampliação econômica do distrito também foi um chamariz para o paulista Daniel Nascimento (31), que saiu de São Paulo em busca de novas oportunidades no distrito.
Em pouco menos de um ano, o comerciante conseguiu abrir o próprio negócio e conta que os investimentos no Porto do Pecém trouxeram e continuam trazendo novas possibilidades.
“A chegada do porto trouxe mais gente para cá. Quanto mais pessoas, maior é o movimento de comércio. Têm as pessoas que trazem cultura de fora, investimento estrangeiro também, e isso vai agregando outras coisas. Trabalhador que vem de fora, trabalhador interno. O maior comentário é o tanto de emprego que aumentou, ou seja, a possibilidade de emprego”.
De acordo com a Associação Brasileira de Zonas de Processamento de Exportação (ABRAZPE), os investimentos concentrados no Porto do Pecém alcançam além do setor portuário, impulsionando o desenvolvimento regional ao estimular novos negócios, infraestrutura urbana, serviços e projetos de energia e inovação.
“A presença de grandes indústrias e operadores logísticos aumenta a demanda por mão de obra qualificada, habitação, comércio e serviços, criando um ciclo positivo de crescimento econômico, movimento que transforma o entorno em uma área estratégica para quem busca oportunidades ligadas à economia real”.
Segundo a Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (AECIPP), em 2025, o Porto do Pecém movimentou aproximadamente 592 mil contêineres, padrão de 20 pés. O total, conforme a entidade, supera o de 2024, e reforça a posição do “Pecém como um dos principais hubs logísticos do Brasil”.
O cenário proporciona ganhos locais que aportam diretamente a economia das famílias, com a geração de cerca de 80 mil empregos diretos e indiretos em torno das operações do complexo, ainda de acordo com dados da AECIPP.
Pecém entre memórias e lembranças
A história de industrialização e de crescimento econômico no Porto do Pecém também é contada por moradores antigos, que acompanharam as mudanças no distrito ao longo das últimas décadas.
Entre memórias e lembranças de Raimunda da Silva (67) e Dona Raimundinha (76) estão cenas que contam como a industrialização marcou a vida de moradores do Pecém, traçando caminhos convergentes ou iniciando outras trajetórias.
Dona Raimundinha, que há mais de quatro décadas mora na localidade e se diz feliz com a escolha, relembra o tempo de afazeres na cozinha para o sustento da família. A idosa chegou ao distrito em 1982, com os dois filhos, à época de 6 e 8 anos.
A família morava de aluguel em uma casa que, conta, estava em condições precárias. Para garantir o sustento, trabalhava muito, inclusive durante a noite, preparando comida. As lembranças daquele começo ajudam-na a dimensionar o caminho percorrido desde então e olhar para o tempo que passou.
Ao falar do presente e dimensionar uma perspectiva de futuro aos jovens do distrito, a aposentada vê com bons olhos as oportunidades abertas pela instalação de empresas. “Quem não tinha nenhum trabalhinho conseguiu comprar suas coisas com seu próprio trabalho”.
Dona Raimundinha argumenta que a expansão das atividades econômicas favoreceu os moradores e contribuiu para melhorar as condições de vida no local.
Raimunda da Silva guarda na lembrança os dias em que morava no distrito, há cerca de 12 anos, e a conversa com os amigos à frente de casa: era uma forma de lazer adotada pelos amantes da calmaria que o local concentrava à época.
A idosa rememora as saídas de madrugada para tomar banho de mar, “sem medo de sofrer violência”. “Antes da chegada do Porto era melhor, a gente era mais sossegado”, resume.
A preocupação com a permanência da tranquilidade que conheceu naquele período foi a razão pela qual a idosa decidiu readaptar seu vínculo com a localidade. Por volta de 2014, Raimunda deixou o Pecém e se mudou para Matões, outro distrito de São Gonçalo do Amarante, a cerca de 15km de sua anterior morada.
São Gonçalo do Amarante está situada na Área Integrada de Segurança 23. Números de painel da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) mostram que, na respectiva AIS, houve este ano, até setembro, 44 casos de Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs), das 193 ocorrências de toda RMF, composta por sete AIS.
Os totais de outubro não haviam sido disponibilizados até as 19 horas do dia 27 de outubro de 2026. Comparação com o intervalo entre janeiro e setembro de 2025 mostra que os 44 casos representam redução, já que no mesmo período do ano passado foram 72 CVLIs.
No decurso deste ano, em 6 dos 9 meses registrados até agora houve redução de pelo menos 50% no número mensal de CVLIs. Os anos de 2015 e 2016 registraram menos de 100 casos de CVLIs, com, respectivamente, 75 e 79 ocorrências. Em 2017 e em 2018 houve uma alta, com 126 e 108, nesta ordem.
O quantitativo voltou a ficar acima de 100 em 2023, 2024 e 2025, mas sem ultrapassar o teto de 2017, quando marcou os 126 casos citados acima. Em 2023 foram 115; em 2024 foram 100; e em 2025 foram 101.
Fechando a série composta pelos 12 anos consecutivos, 2019 marcou 73; 2020 marcou 85; 2021 marcou 75; e 2022 marcou 97. Na AIS 23 são 5 delegacias, 2 delas em São Gonçalo do Amarante; 1 Companhia do Batalhão de Bombeiros Militares (BBM); 1 Batalhão da Polícia Militar (BPM); e 4 Companhias do BPM.
O receio da insegurança, natural do crescimento de uma cidade ou distrito, pesou na decisão, mas a mudança não rompeu sua relação com o Pecém. É para lá que a aposentada segue quando precisa resolver demandas cotidianas, ponto que mais elogia na localidade atualmente, ao afirmar que todos os moradores de distritos próximos usufruem dos benefícios do desenvolvimento do Pecém.
“Assim como eu, vejo que as pessoas vêm para cá porque têm mais opções de mercantil. As opções acabam sendo mais baratas aqui. Também tem farmácia, UPA [Unidade de Pronto Atendimento], tudo é mais próximo aqui. Até a escola para os meninos, banco, casa lotérica, enfim”.
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