Operação Juros Zero: MPDFT investiga fraude milionária contra servidores do GDF
Operação Juros Zero, do MPDFT, mira BRB, GDF e PicPay em suposto esquema de fraude na folha de pagamento de servidores. O post Operação Juros Zero: MPDFT investiga fraude milionár...
POR SOBRAL ONLINE
Publicado em 19/06/2026 às 13:55

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (19/6), a Operação Juros Zero, uma ação de grande envergadura que visa desvendar um suposto esquema de fraudes na folha de pagamento de servidores públicos do Distrito Federal. A investigação, que já havia sido antecipada por colunas jornalísticas, aponta para irregularidades significativas que podem ter lesado milhares de funcionários públicos.
Com mandados de busca e apreensão cumpridos em três estados, a operação lança luz sobre práticas questionáveis envolvendo instituições financeiras, órgãos governamentais e empresas de tecnologia. O foco principal recai sobre descontos indevidos e operações financeiras que teriam sido realizadas sem a devida autorização ou em desacordo com a legislação vigente, gerando um prejuízo milionário aos cofres públicos e, principalmente, aos servidores.
A Deflagração da Operação Juros Zero
A Operação Juros Zero é conduzida pela Vice-Procuradoria-Geral de Justiça, pela Promotoria de Defesa do Consumidor e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPDFT. Por determinação do Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), foram cumpridos 50 mandados de busca e apreensão.
As diligências ocorreram simultaneamente no Distrito Federal, em Curitiba (PR) e em São Paulo, onde está localizada a sede de uma das empresas investigadas. A amplitude da operação demonstra a complexidade e a extensão do suposto esquema, que envolve diversas camadas de atuação e múltiplos atores.
Os Alvos da Investigação e Envolvidos
Entre os principais alvos da Operação Juros Zero estão o Banco de Brasília (BRB), a BRB Serviços S.A., a Secretaria de Economia do Distrito Federal e o Instituto de Previdência dos Servidores do DF (Iprev-DF). Além disso, o banco digital PicPay e diversas associações ligadas ao caso também estão sob o escrutínio dos investigadores.
As medidas judiciais não se restringem às instituições, atingindo também atuais e ex-dirigentes. Nomes como Ney Ferraz Júnior e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (este último já preso), e o diretor do PicPay, Eduardo Chedid Simões, são mencionados nas investigações. A apuração busca identificar responsabilidades individuais e coletivas na trama de irregularidades.
O Esquema de Fraudes e os Descontos Irregulares
As investigações do MPDFT e do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) apontam para um suposto esquema de fraudes em operações relacionadas à folha de pagamento dos servidores. Um dos focos é a realização de descontos referentes a empréstimos consignados e antecipações salariais de forma irregular, sem a devida transparência ou autorização dos servidores, aposentados e pensionistas do GDF.
O TCDF, em inspeção prévia, identificou um crescimento acentuado e um alto volume em uma nova modalidade de desconto direto na folha de pagamento, referente à amortização de serviços contratados com o PicPay. Em 2024, os consignados representaram R$ 11,7 milhões, saltando para R$ 70 milhões entre janeiro e agosto de 2025. O relatório da Corte de Contas indicou que o PicPay descontou R$ 81,7 milhões em salários de servidores do GDF entre 2024 e 2025, o que levou à suspensão de novos descontos diretos em folha vinculados ao banco digital em fevereiro, devido à aplicação de uma taxa sobre a antecipação salarial.
A Atuação do PicPay e Outras Irregularidades
O PicPay, de propriedade dos irmãos Batista da JBS, era o único habilitado, desde 2024, para realizar desconto compulsório – feito em conta, de forma automática – na folha de pagamento do GDF. Essa operação era realizada diretamente pela BRB Serviços, subsidiária do Banco de Brasília (BRB). O MPDFT também investiga consignações facultativas, como os descontos em favor da Associação dos Servidores Públicos do DF (ASDF), que teve um salto de R$ 3 mil em 2023 para R$ 1,49 milhão em 2025, um crescimento de 48.000%, sem estrutura compatível com o volume movimentado.
A apuração revela o uso de códigos de “plano de saúde” para mascarar empréstimos com juros, muitas vezes sem a autorização dos servidores, além da captação de senhas e tokens pessoais para a inserção de descontos. Empresas como CBBRAZIL, PEAK e VEMCARD (esta última ligada ao Grupo Fictor, envolvido no escândalo do Banco Master) teriam operado sob a mesma arquitetura, com os investigadores acreditando que o que foi descoberto até o momento é apenas uma pequena parte das fraudes.
Posicionamento das Instituições Envolvidas
Em nota, a Secretaria de Economia do DF confirmou as buscas em sua sede e afirmou estar colaborando integralmente com as investigações, garantindo acesso às instalações e prestando todo o apoio necessário. A Pasta ressaltou que a investigação tem como objeto a conduta de agentes públicos e não a atuação institucional da Secretaria.
O PicPay, por sua vez, negou qualquer irregularidade nas operações e rejeitou a alegação de cobrança indevida. A empresa declarou que seus produtos e serviços são estruturados e ofertados em conformidade com as normas vigentes e submetidos a rigorosos mecanismos de controle e supervisão. O PicPay reiterou que o valor antecipado era disponibilizado diretamente no cartão do cliente, sem intermediários ou associações, e que continuará colaborando com as autoridades para esclarecer os fatos. Os demais alvos ainda não se manifestaram publicamente, e o espaço segue aberto para seus posicionamentos.
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