O Tarifaço: Crise ou Chamado ao Novo Mundo?
Meus Diletos, Desde que me entendo por gente, e olha que já vi muito chão seco e muita safra boa, Pindorama viveu de joelhos. Não por falta de espinha, mas por excesso de costume. ...
POR O ESTADO
Publicado em 24/07/2026 às 14:19

Meus Diletos,
Desde que me entendo por gente, e olha que já vi muito chão seco e muita safra boa, Pindorama viveu de joelhos. Não por falta de espinha, mas por excesso de costume. Ajoelhada diante do espantalho de milharal, que de espantalho tem pouco e de milharal menos ainda, porque o que ele planta mesmo é certeza de si, arrogância de império e aquela velha mania de ditar o preço do mundo.
Nós, do lado de cá, sempre respondíamos: sim, senhor. E vinha a pergunta que não quer calar: era medo do Chuck Norris bater na porta? Do Rambo descer do helicóptero pra cobrar fatura atrasada? Ou era apenas a servidão voluntária, essa doença que não se pega por vírus, mas se herda por cultura?
Pois eis que o espantalho do topete platinado, resolveu sacudir as mangas e anunciou o tarifaço. E os diletos já me perguntam: Themotheo, é o fim dos tempos?
Não, meus caros. É o começo de outros.
Vejamos o curioso do teatro: o sistema de veículos a etanol, esse milagre da engenharia de Pindorama, fomos nós que inventamos, lá nos idos de 70, quando ainda se acreditava que a Terra de Santa Cruz podia pensar com a própria cabeça. Pois os gringos querem que compremos o etanol deles com tarifa zero, mas nosso açúcar entrando no mercado deles em pé de igualdade? Ah, isso já é demais. Querem sobretaxar têxteis, químicos, metais. Mas café e carne, que eles não produzem, podem passar. Bonito, não?
Pois este vosso escriba, que de economia entende o bastante para saber que não entende tudo, mas de teimosia nordestina entende muito, vê o seguinte: a União Europeia assinou com o Mercosul. Europeu também toma café, come carne e, pelo apreço que tem em não torrar o próprio planeta, deve olhar com bons olhos nosso etanol. A China, nosso maior comprador, já pôs cotas. Mas só existe a China na Ásia? O Oriente Médio é um mercado imenso e ávido por parcerias. A Rússia, com sua vastidão, está de braços abertos para novos acordos. O Vietnã, a Indonésia, as Filipinas. Países que crescem e precisam do que Pindorama produz de melhor.
O setor produtivo de Pindorama precisa entender que o tempo de pôr todos os ovos numa cesta já era. A cesta quebrou. Agora é hora de construir outras.
Ah, Themotheo, mas isso leva tempo!
Sim, meus diletos, leva. E é por isso mesmo que já estamos atrasados. Se ficarmos esperando a solução cair do céu como uma chuva boa no sertão, (que a gente espera, mas também planta, também cava poço, também faz açude) Pindorama não sai do lugar. O mundo está mudando. Os acordos de comércio de séculos estão sendo reescritos, com novos atores na mesa. Cabe a nós entender que o começo será duro como a vida de quem nasce no Nordeste e aprende cedo que o sol não espera ninguém.
Não se trata de baixar a cabeça. Trata-se de levantá-la e enxergar o horizonte. O espantalho já não assusta como antes. O Tio Sam (tiozinho tinhoso, diga-se de passagem), já não é a última Coca-Cola do deserto. O deserto, meus diletos, está cheio de oásis que a gente nunca olhou.
A caminhada é longa, sempre foi. Mas se não dermos o primeiro passo, ela será eterna. E nordestino que nasce sabendo lutar contra a seca não vai morrer de sede num mundo que tem água sobrando, só precisa cavar o poço no lugar certo.
Sigamos.
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