O PEQUENO BATMAN
Por Avelar Santos* Naquela manhã, cheia de sol, cujo brilho castigava os olhos do homem de meia idade que, impaciente, aguardava um táxi para levá-lo-ia à clínica, após passar...
POR CAMOCIM ONLINE
Publicado em 28/06/2026 às 20:02
Por Avelar Santos*
Naquela manhã, cheia de sol, cujo brilho castigava os olhos do homem de meia idade que, impaciente, aguardava um táxi para levá-lo-ia à clínica, após passar a noite com febre alta, sentindo-se bastante fraco, Antonino, cujo nome recebera do seu pai em homenagem ao imperador romano que sucedera Adriano, no trono, chega, enfim, ao seu destino.
Com passos incertos, ele dirige-se à recepção, onde uma atendente, depois de verificar a lista de consultas do Dr. Kanemann, informa-o que ele será o próximo a ser atendido e, gentil, pede- lhe para sentar-se um pouco.
Olhando, em derredor, pensativo, percebe que algumas pessoas estão entretidas com os seus pensamentos, enquanto outras fingem certa alegria ao conversarem entre si.
Foi nesse momento que Antonino avistou aquela criança usando uma camiseta com a estampa do Batman, sentado, quieto, junto à sua mãe, bastante pálido, cujas mãozinhas não desgrudavam do carro do homem morcego, que ganhara de presente, no Natal, pensando, talvez, como poderia tirá-lo dali.
Ao ver essa cena, Antonino sentiu uma profunda compaixão, pelo guri, ao recordar-se, com tristeza, da perda do seu netinho, por leucemia, que sequer tivera tempo de distender as asas para os primeiros voos solo de aprendizado.
Aproximando-se do menino franzino, tentando esboçar um sorriso, em meio ao turbilhão de recordações que povoavam sua mente, gentilmente pergunta-lhe quantos anos ele tem.
Num gesto automático, sem olhar o estranho, o menino mostra-lhe sete dedos, por coincidência a mesma idade do filho do seu primogênito que Deus chamara precocemente para morar com ELE.
Com a emoção boiando, afinal, no rosto, envelhecido por tristes lembranças, cujo peso carregava, na alma, lágrimas molham sua face.
Sem nada dizer, com um gesto cumprimenta à senhora, que afaga com doçura os cabelos da criança, revoltos como um mar encapelado, almejando, numa prece, tudo correr bem para o pequenino.
Poucos minutos se passaram quando a porta do consultório se abriu, ouvindo, ato contínuo, distintamente, seu nome ser chamado pelo médico.
Emudecido pelo sofrimento agudo do batmanzinho, que chispava nos seus olhos, Antonino pensou por que o Onipotente permitia tanta dor, angústias sem fim, nos caminhos da humanidade.
Por fim, a razão se impôs, dizendo-lhe, com altivez, da nossa pequenez, que nos impede aquilatar quaisquer
desígnios divinos, mesmo aquele em que o Rabi de Nazaré, deixou-se imolar, no madeiro, levando-nos a trilhar a estrada da luz; caindo em si, rogou ao Altíssimo perdão por suas conjecturas que já beiravam o precipício das blasfêmias.
Com o coração um pouco mais aliviado, agradeceu aos céus a dádiva preciosa da concessão de tantos anos - e, principalmente, de ter convivido, mesmo que de forma fugaz, com o seu primeiro neto, que veio ao mundo para encantar quem o conhecera, através de sua resignação diante da cruz que tivera que carregar tão cedo, sem nada reclamar, enfeixando, nos dias em que se sentia melhor, um bouquet de perfumadas risadas, que enchiam a casa de contentamento.
A sair dali, sem Antonino jamais vir a saber, um milagre estava prestes a acontecer na vida do pequeno Batman para felicidade de sua família.
*Professor e Escritor Camocinense