O passado que ainda pauta 2026
A disputa eleitoral de 2026 no Ceará tende a ser menos sobre novos projetos e mais sobre a reinterpretação de velhas feridas políticas que ainda não se fecharam. Declarações...
POR A NOTICIA DO CEARÁ
Publicado em 22/06/2026 às 15:00

A disputa eleitoral de 2026 no Ceará tende a ser menos sobre novos projetos e mais sobre a reinterpretação de velhas feridas políticas que ainda não se fecharam. Declarações recentes do senador Cid Gomes (PSB) e do ex-deputado Capitão Wagner (União Brasil) ajudam a reposicionar episódios do passado como elementos ativos do presente eleitoral.
Durante visita a Sobral, em maio, Cid foi questionado sobre declarações do irmão, Ciro Gomes, em meio a novas trocas de acusações sobre alinhamentos e mudanças de lado no cenário político. Em resposta, o senador abriu a camisa e exibiu as cicatrizes deixadas pelos disparos sofridos durante o motim da Polícia Militar de 2020.
O gesto, seguido da frase “Deus está vendo”, foi interpretado como uma manifestação simbólica de memória política ainda viva e também como recado indireto em meio a disputas familiares e políticas ainda em aberto.
O motim de 2020 permanece como um dos episódios mais críticos da segurança pública recente do estado. A paralisação de parte da Polícia Militar, motivada por reivindicações salariais, resultou na ocupação de batalhões, redução do policiamento e aumento expressivo da violência.
Mais do que um evento de crise institucional, o episódio se consolidou como um marco político que reorganizou narrativas e reposicionou atores no debate público cearense.
Mais recentemente, declarações do ex-deputado Capitão Wagner, apontado em diferentes momentos como liderança política ligada a debates sobre movimentos de policiais militares no estado, reacenderam a tensão em torno desse período.
Ao afirmar que condecoraria o policial envolvido no episódio em que Cid foi baleado, Wagner recoloca o motim no centro da disputa simbólica, abrindo espaço para novas leituras e novos atritos no campo político.
Cid, por sua vez, já indicou em diferentes ocasiões que episódios como o motim e a tentativa de contenção da crise em 2011 representam marcas pessoais e políticas profundas de sua trajetória no Executivo estadual. O episódio da retroescavadeira, em Sobral, é frequentemente citado por ele como símbolo de um momento-limite da crise de autoridade vivida à época.
Além disso, outro elemento que segue sem leitura unificada entre os principais atores políticos é o racha do PDT em 2022.
O episódio, que levou à fragmentação de uma das principais forças políticas do estado, ainda alimenta versões distintas sobre responsabilidades e decisões tomadas naquele período.
Nesse contexto, a eleição de 2026 se desenha como uma disputa em que a memória política terá tanto peso quanto as propostas futuras.
No Ceará, a política segue sendo também um campo de disputa narrativa sobre o passado e, em muitos casos, sobre feridas e cicatrizes que continuam influenciando a dinâmica entre as lideranças políticas.
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