Lula chama Flávio Bolsonaro de “traidor da pátria” e associa tarifa dos EUA à visita do senador a Trump
A nova ofensiva comercial dos Estados Unidos contra o Brasil provocou uma escalada na crise política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro ...
POR A NOTICIA DO CEARÁ
Publicado em 02/06/2026 às 20:57

A nova ofensiva comercial dos Estados Unidos contra o Brasil provocou uma escalada na crise política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nesta terça-feira (2), Lula responsabilizou o parlamentar pelo agravamento das tensões entre os dois países e afirmou que integrantes da família Bolsonaro estariam incentivando ações estrangeiras contra os interesses brasileiros.
A declaração foi feita durante um evento em Catalão, no interior de Goiás, poucas horas após o governo norte-americano anunciar uma proposta para aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. O documento foi divulgado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que acusa o Brasil de adotar práticas comerciais consideradas “irrazoáveis” e prejudiciais aos interesses americanos. Entre os alvos da investigação está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central e amplamente utilizado pelos brasileiros.
Durante o discurso, Lula relembrou uma postagem feita por Flávio Bolsonaro em julho de 2025, quando Donald Trump anunciou a primeira rodada de tarifas contra produtos brasileiros.
Segundo o presidente, o senador teria agradecido ao líder norte-americano pela medida. Lula acusou Flávio de agir contra os interesses nacionais e elevou o tom ao chamá-lo de “imbecil”, “vendilhão da pátria” e “traidor da pátria”.
“O filho dele, que hoje foi para a televisão dizer que não disse nada, eu vou repetir: no dia 9 de julho de 2025, no dia em que Trump puniu o Brasil, ele disse: ‘Obrigado, Trump. Faça o Brasil livre de novo'”, afirmou Lula diante do público.
O presidente também comparou a situação ao episódio histórico envolvendo Joaquim Silvério dos Reis, conhecido por delatar Tiradentes durante o período colonial.
“São traidores. Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis foi enforcado. O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país estrangeiro dentro do nosso país?”, questionou.
Visita de Flávio a Trump incomoda o Planalto
As declarações acontecem dias após Flávio Bolsonaro viajar aos Estados Unidos e se reunir com Donald Trump.
Inicialmente tratado com desdém por integrantes do governo federal, o encontro passou a preocupar o Palácio do Planalto após uma série de anúncios feitos pela administração norte-americana. Entre eles está a intenção de incluir facções criminosas brasileiras em listas de organizações terroristas, proposta defendida por Flávio durante sua agenda nos Estados Unidos e rejeitada pelo governo brasileiro.
Além disso, a visita ocorreu em um momento delicado das negociações comerciais entre Brasília e Washington. Pouco menos de um mês antes, Lula e Trump haviam se reunido na Casa Branca e anunciado a criação de um grupo bilateral para discutir os impasses comerciais entre os dois países. A expectativa do governo brasileiro era reduzir tensões e evitar novas barreiras comerciais.
Nova tarifa de 25% preocupa governo
A proposta divulgada pelo USTR prevê a aplicação de uma tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras em resposta ao que os Estados Unidos classificam como práticas comerciais desleais.
O relatório menciona diversas vezes o Pix e também questiona acordos comerciais firmados pelo Brasil com outros países. Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro consideram que os argumentos apresentados possuem forte componente político e pouca sustentação econômica.
Apesar da preocupação, o Planalto recebeu com alívio a lista de exceções apresentada pelos norte-americanos. Produtos importantes da pauta de exportação brasileira, como café, carne bovina, aeronaves e peças para a indústria aeronáutica, ficaram fora da sobretaxação.
Mesmo assim, a medida é vista como uma ameaça ao comércio bilateral e pode gerar impactos em diversos setores da economia caso entre efetivamente em vigor.
Flávio nega atuação contra o Brasil
Horas antes das declarações de Lula, Flávio Bolsonaro afirmou que trabalhou justamente para evitar prejuízos ao país.
Em entrevista, o senador declarou que pediu a Donald Trump que não adotasse medidas contra empresas brasileiras e defendeu o Pix e o etanol como ativos importantes da economia nacional.
“Não é justo taxar nossas empresas. A gente tem que valorizar nossa tecnologia, nosso Pix e nosso etanol, que é uma energia limpa”, afirmou.
Após ser chamado de traidor pelo presidente, Flávio respondeu dizendo que a responsabilidade pela deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos é do próprio governo Lula.
Governo aposta em negociação, mas prepara discurso político
Apesar da escalada do conflito, o governo brasileiro ainda acredita em uma saída negociada.
Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, as conversas com representantes norte-americanos foram consideradas positivas nas últimas semanas e ainda existe margem para reverter ou reduzir os efeitos da proposta anunciada pelo USTR.
No entanto, caso as negociações fracassem, integrantes do governo já sinalizam que pretendem explorar politicamente o episódio. Nos bastidores, a avaliação é de que a atuação de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump poderá ser usada como símbolo de uma suposta tentativa da oposição de buscar apoio estrangeiro para pressionar o governo brasileiro.
A nova disputa ocorre em um cenário de pré-campanha presidencial. Flávio Bolsonaro é apontado por aliados como um dos principais nomes do PL para a sucessão presidencial de 2026, enquanto Lula busca fortalecer sua base política diante dos desafios econômicos e das tensões internacionais.
Com a entrada dos Estados Unidos no centro do debate, a discussão sobre tarifas comerciais, soberania nacional, Pix e relações diplomáticas passa a ganhar contornos eleitorais.
O episódio marca mais um capítulo da polarização política brasileira e pode influenciar diretamente os rumos das negociações entre Brasília e Washington nos próximos meses.
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