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Ceará / 04.11.2026

Juros altos não são causa, mas consequência

O debate sobre os juros no Brasil frequentemente se concentra em uma interpretação equivocada: a de que a elevada taxa Selic seria a principal responsável pelos problemas econômico...

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POR O ESTADO

Publicado em 04/11/2026 às 03:02

Juros altos não são causa, mas consequência
© FONTE: O Estado

O debate sobre os juros no Brasil frequentemente se concentra em uma interpretação equivocada: a de que a elevada taxa Selic seria a principal responsável pelos problemas econômicos nacionais. Embora juros altos produzam efeitos adversos sobre o crédito, o consumo e os investimentos, é preciso compreender que, em grande medida, são consequência de desequilíbrios estruturais, especialmente da deterioração fiscal, das incertezas sobre a dívida pública e da incapacidade do governo de apresentar um programa consistente de ajuste das despesas.
A reeleição de Lula para um quarto mandato presidencial, em um cenário de crescente vulnerabilidade das contas públicas, ampliou as dúvidas sobre a disposição do governo em enfrentar o problema central da economia brasileira: a expansão persistente do endividamento público sem uma contrapartida efetiva de controle dos gastos.
A lógica econômica é relativamente simples. Quando o governo sinaliza que continuará gastando além de sua capacidade estrutural de arrecadação, aumenta a necessidade de financiamento da dívida. Os investidores, diante da possibilidade de maior inflação, desvalorização cambial e deterioração das contas públicas, passam a exigir remuneração mais elevada para financiar o Estado. O Banco Central, por sua vez, precisa manter uma política monetária restritiva para impedir que essas expectativas se traduzam em aumento generalizado dos preços.
Nesse contexto, merecem atenção as especulações sobre a possibilidade de Lula incorporar as ideias do economista André Lara Resende, que defende uma revisão profunda do atual regime monetário e fiscal, com redução expressiva dos juros e maior flexibilidade na condução da política econômica.
Entretanto, adotar essas propostas sem as devidas salvaguardas representaria riscos consideráveis. A tentativa de reduzir artificialmente os juros, sem estabilizar a trajetória da dívida, poderia provocar desancoragem das expectativas inflacionárias, fuga de capitais e perda de credibilidade do Banco Central. O resultado paradoxal seria a elevação dos juros de mercado, apesar de uma eventual redução administrativa da taxa básica.
A expansão adicional da dívida pública, sob o argumento de que os juros são o problema, também merece ressalvas. O risco é substituir a disciplina fiscal por uma aposta de que o crescimento econômico e a redução dos juros resolverão, por si sós, um problema que exige reformas e responsabilidade orçamentária.
A proposta de intervenção cambial também inspira cautela. A utilização intensiva das reservas internacionais para provocar uma valorização artificial do real poderia comprometer um importante instrumento de proteção contra crises externas. Além disso, uma cotação incompatível com os fundamentos econômicos tende a estimular movimentos especulativos e criar vulnerabilidades adicionais.
A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorre hoje, 4 de novembro, será um importante teste dessa conjuntura. Diante das incertezas fiscais, dos riscos inflacionários e da deterioração das expectativas, a interrupção do ciclo de redução da Selic constitui um cenário plausível e coerente com a necessidade de preservar a estabilidade monetária.
O verdadeiro caminho para juros mais baixos passa pela responsabilidade fiscal, pelo controle das despesas públicas, pela previsibilidade das regras econômicas e pela recuperação da confiança. Sem isso, qualquer tentativa de forçar a redução da Selic poderá produzir exatamente o efeito contrário: inflação mais elevada, câmbio instável, dívida ainda maior e juros persistentemente altos.
Em economia, a confiança não se decreta. Conquista-se. E o preço da sua ausência é, frequentemente, pago por toda a sociedade.

JOSÉ MARIA PHILOMENO
ADVOGADO
E ECONOMISTA

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