Jovens que usam vape com nicotina apresentam menor aptidão cardiorrespiratória, aponta estudo
Um estudo publicado no último dia 21 de outubro na JAMA Network, plataforma e consórcio de periódicos médicos revisados por pares publicada pela American Medical Association (AMA) ...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 26/10/2026 às 16:49
Um estudo publicado no último dia 21 de outubro na JAMA Network, plataforma e consórcio de periódicos médicos revisados por pares publicada pela American Medical Association (AMA) indicou que jovens que fumam diariamente cigarros eletrônicos com nicotina podem apresentar perdas na capacidade respiratória e dilatação dos vasos sanguíneos.
A função vascular e aptidão cardiorrespiratória foi menor nos indivíduos que usaram os chamados “vapes” com nicotina em comparação com aqueles que nunca usaram cigarros eletrônico nem convencionais. Além disso, os pesquisadores constataram que as perdas foram muito similares aos jovens que usaram tabaco comum.
Como foi feito o estudo
A análise “Função vascular e aptidão cardiorrespiratória em adultos que usam cigarros eletrônicos com nicotina” acompanhou 58 jovens adultos entre julho de 2023 e abril de 2025 sem doença cardiovascular conhecida ou fatores de risco importantes.
Durante esse período, 17 indivíduos usaram diariamente apenas vapes com nicotina, 19 fumaram somente cigarros convencionais, e o grupo de controle teve 22 participantes que não usaram nenhum dos dois.
Foram analisados primeiramente a função vascular, avaliada por meio da dilatação mediada pelo fluxo (DMF) e da reatividade da artéria carótida (RAC), e a aptidão cardiorrespiratória, avaliada por meio de respostas ventilatórias, metabólicas e cardíacas durante o teste de esforço cardiopulmonar máximo.
Além disso, resultados de atividade física foram realizados, para medir a capacidade do organismo e reação diante de esforço e desempenho físico.
Os resultados indicaram reatividade reduzida da artéria carótida, e o consumo máximo de oxigênio foi menor nos jovens que utilizavam cigarros eletrônicos com nicotina, em comparação com participantes que nunca fizeram uso de tabaco ou de vapes.
Foi destacada pelos pesquisadores a necessidade de mais estudos para determinar as implicações clínicas a longo prazo, por ser um fenômeno ainda recente.
Efeitos no organismo vão além
Como explica o cirurgião vascular pela SBACV (Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular), Herik Oliveira, os efeitos dos cigarros eletrônicos nos jovens podem envolver condições graves ao afetar a aptidão cardiorrespiratória, aumentando o risco de eventos cardiovasculares.
Ele destaca principalmente o desenvolvimento de hipertensão arterial, infarto agudo do miocárdio, AVC (acidente vascular cerebral), doença arterial periférica e até mesmo aneurismas, e que ambos cigarros, eletrônicos ou convencionais, são prejudiciais.
“A nicotina causa um aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, um estresse nos vasos, principalmente nas artérias coronárias, o que pode favorecer a inflamação e a formação de trombos, além do enfraquecimento da parede arterial, tanto venosa quanto arterial, devido ao processo inflamatório e às alterações na coagulação” destaca Oliveira.
Além disso, ele destaca que as lesões nos vasos sanguíneos ocorrem mesmo sem sintomas nos mais jovens, e podem não ser detectados em exames de rotina pela capacidade do corpo se adaptar por anos aos prejuízos da nicotina.
Um estudo publicado no mês passado na Neurology, revista científica oficial da Academia Americana de Neurologia (AAN) (American Academy of Neurology), destacou que o tabagismo foi uma das causas para o aumento de AVCs em jovens e adultos de 20 a 54 anos entre 1993 e 2020.
Nesse sentido, conforme o estudo publicado na Jama na segunda-feira (21), os cigarros eletrônicos demonstraram danos muito similares ao tabaco comum, principalmente popular entre os mais jovens.
Oliveira destaca que as pessoas acreditam erroneamente que os vapes sejam menos prejudiciais à saúde por falta de conhecimento e pressão social.
“Eles pensam que o vape é apenas um vapor d'água, um produto inofensivo que tem ação menos prejudicial. Além disso, o consumo é impulsionado pela influência de amigos, redes sociais e festas, bem como pela necessidade de estar em interação nesse mundo, constituindo um modismo”.
O cirurgião ainda destaca que os líquidos e aerossóis possuem gosto de doces, disfarçando o gosto e a sensação na garganta da nicotina, e o seu design moderno e compacto facilita o porte discreto em festas e escolas.
Uso no Brasil
Apesar de ter a venda proibida no Brasil desde 2009 pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 realizada pelo (IBGE) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 29,6% dos estudantes entre 13 e 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico.
Esse número era cerca de 16,8% no levantamento anterior, feito em 2019, indicando a popularização dos vapes no país e principalmente entre os mais jovens.
Em 2024 a agência ainda aprovou por unanimidade uma nova resolução sobre os cigarros eletrônicos, que reforçou a proibição da venda, fabricação, importação e publicidade deles.
Apesar de nem todos os cigarros eletrônicos possuírem nicotina, com opções “nicotine-free” disponíveis, a presença de metais pesados, aromatizante químicos e toxinas também impactam fortemente a saúde dos usuários, como estresse oxidativo, inflamação e disfunção endotelial.”
Como parar de fumar
Oliveira explica que o tratamento para parar de usar cigarro eletrônico envolve uma abordagem multidisciplinar, com psicólogos, pneumologistas e pediatras no caso de crianças e adolescentes. Em casos mais intensos de dependência, a terapia de reposição de nicotina pode ser necessária.
“Também importante fazer mudanças nos hábitos e na rotina, enfatizar a prática de exercícios físicos, que ajudam a liberar endorfinas e reduzir a ansiedade, aumentar o consumo de água e eliminar gatilhos, ou seja, descartar os dispositivos de cigarro eletrônico”, destaca o cirurgião.
O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece tratamento gratuito para quem deseja parar de fumar por meio do PNTC (Programa Nacional de Controle do Tabagismo), disponível em todo o país.
Para solicitar a inclusão no plano e o tratamento, o fumante deve comparecer a qualquer UBS (Unidade Básica de Saúde) com um documento original com foto e informar o desejo de parar de fumar.