Heteropessimismo: elas têm medo de relações tóxicas; eles, de cancelamento
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POR O ESTADO
Publicado em 08/08/2026 às 08:14
“Mulheres querem homens que ainda não existem. Homens querem mulheres que já não existem mais.”
Versões dessa frase viralizaram recentemente, reflexo de um desencontro nas expectativas amorosas entre homens e mulheres.
Para a psicóloga Denise Figueiredo, cofundadora do Instituto do Casal, há um sentimento de desamparo entre homens e mulheres.
“Tem uma agressividade muito forte nas relações de hoje: ‘Se não for do meu jeito, não serve'”, exemplifica ela.
É como se não houvesse espaço para ambos.
“Não é do teu jeito, e não é do jeito do outro. O ideal é que seja de um terceiro jeito, que é o jeito do vínculo. Você precisa ter claro os seus negociáveis e os seus inegociáveis. Tem valores que a gente não negocia. Agora, se entrar numa relação só com inegociáveis, eu não vou me relacionar com o outro. É preciso disposição para construir um novo jeito”, afirma.
É preciso aceitar que o ideal não existe, acrescenta. “Vejo que as pessoas têm mostrado pouca tolerância à dor. E aí, rapidamente, elas trocam. A gente vive em uma sociedade do consumo. Troca de camiseta, troca de casa, troca de homem, de mulher. É um movimento muito forte que traz infelicidade para as relações”.
Apostar no amor?
A contadora Margarete Licursi, 42, diz que o fato de ser independente já fez com que tivesse pouca tolerância para abrir espaço e ajustar hábitos. “Hoje, sou mais madura, faço terapia. A gente vai tentando melhorar”, conta.
O empresário Eduardo Ferreira de Almeida, 44, se separou há quatro anos e diz que tem buscado se informar mais e entender as relações diante dos avanços da autonomia feminina.
Ele se considera um “cara aberto” e valoriza mulheres “mais determinadas”. “Mas existe muita força envolvendo isso, né? Acaba assustando um pouquinho os homens”, relata.
“É uma movimentação bacana, mas que vem acrescida de muita força. É como se o homem não tivesse mais espaço para opinar. Quando evito uma discussão, me chamam de frouxo. Quando discuto, eu sou escroto”, opina.
Levantamentos recentes feitos pelas psicanalistas Carol Tilkian e Camila Holpert indicam que brasileiros andam de mal com o amor.
Na pesquisa “Narrativas Afetivas”, as autoras descobriram que quase 46% dos posts sobre amor estão associados a sentimentos negativos, como tristeza e medo. No “Raio-X da Vida Afetiva”, detectaram que o maior medo nas relações é o de não ser suficiente.
“A gente é alimentado o tempo todo com histórias tristes. Vivemos numa espécie de lógica de estresse pós-traumático. Precisamos achar possíveis ‘red flags’ para não nos machucarmos, para não correr o risco de perder tempo, para não passar por coisas que já passamos. Não queremos perceber, sentir e arriscar”, explica Carol Tilkian.
Segundo ela, homens estão se retraindo mais nas investidas românticas por medo de serem “cancelados”; mulheres estão mais conscientes para não romantizar relações abusivas e, por isso, teriam mais medo de se envolver.
“O cara não quer ser alguém que começa a sair com você e depois muda de ideia, porque tem receio de ser rotulado como narcisista ou ‘love bomber’. Então, já começa falando: ‘Olha, não espere nada de mim. Não quero te machucar, não vou prometer nada'”, exemplifica a pesquisadora, que considera esse tipo de comportamento “disfuncional”.
Elas, por outro lado, às vezes vão ao extremo de transformar o homem em um “oponente”. “Cresceu o heteropessimismo, o movimento do ‘boy sober’. Mas isso é perigoso, porque se a gente acha que os caras são sempre os inimigos e você é uma mulher heterossexual, qual é a solução?”, questiona.
A terapeuta Di Meira, 42 anos, está apostando. Ela diz que decidiu se separar depois da maternidade. “Meu marido não me via mais como mulher, apenas como mãe”, afirma.
Ela conta que passou por uma depressão profunda e um processo complicado até a separação. Hoje, mora sozinha e tem relacionamentos abertos.
“Estou a fim de me descobrir como mulher, preciso me amar primeiro”, diz ela, que tem certeza de que vai se casar novamente.
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