Fique por Dentro: aumento da temperatura causa erosão em 47% das praias do Ceará
A temperatura média do Ceará aumentou 1,8 °C nos últimos 63 anos, enquanto 47% das praias do estado já apresentam algum nível de erosão. Os dados evidenciam os impactos das mudanç...
POR SOBRAL ONLINE
Publicado em 04/11/2026 às 08:56

A temperatura média do Ceará aumentou 1,8 °C nos últimos 63 anos, enquanto 47% das praias do estado já apresentam algum nível de erosão. Os dados evidenciam os impactos das mudanças climáticas no território cearense, que também pode enfrentar ondas de calor mais intensas e períodos de seca.
As informações foram apresentadas no Fique por Dentro, videocast do g1, em entrevista com o professor Marcelo Soares, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Segundo o pesquisador, o aumento da temperatura está diretamente relacionado à intensificação do efeito estufa, provocada principalmente pela emissão de gases poluentes por indústrias, veículos e queimadas. Ele explica que, embora as mudanças climáticas sejam fenômenos naturais, a ação humana acelerou essas transformações nas últimas décadas.
“Nos últimos 63 anos, por exemplo, o estado do Ceará, a temperatura, em média, aumentou 1,8 graus, mais do que a média do planeta”, afirmou.
O professor destacou que o número é expressivo, especialmente porque o planeta já ultrapassou o limite de aquecimento de 1,5 °C estabelecido como referência pelo Acordo de Paris. Segundo ele, mesmo pequenas variações na temperatura média podem provocar consequências significativas para o equilíbrio ambiental.
“Pode parecer pouco, mas o que acontece é o seguinte: no caso do estado do Ceará, a gente está em uma área equatorial, então a gente recebe muito calor”, explicou.
El Niño pode intensificar ondas de calor e favorecer secas
Outro fenômeno que preocupa os pesquisadores é o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico. De acordo com Marcelo Soares, o fenômeno pode se intensificar entre novembro e janeiro, provocando ondas de calor mais fortes.
O pesquisador também alertou para a possibilidade de formação de um episódio de El Niño muito intenso, chamado de Super El Niño ou Mega El Niño. Segundo ele, há uma estimativa de 83% de probabilidade de ocorrência de um evento dessa magnitude.
O professor lembrou que o El Niño já esteve associado a grandes secas no Nordeste. Um dos exemplos históricos é a chamada Seca dos Três Setes, entre 1877 e 1879, que provocou uma tragédia humanitária na região, com centenas de milhares de mortes.
O fenômeno também esteve relacionado a períodos recentes de estiagem no Ceará, como o registrado entre 2015 e 2016, quando os reservatórios do estado chegaram a apenas 7% da capacidade de armazenamento.
O aquecimento dos oceanos também interfere na distribuição das chuvas. Enquanto algumas regiões podem enfrentar períodos mais secos, outras ficam sujeitas a volumes elevados de precipitação e enchentes.
No Ceará, a tendência é de maior preocupação com a possibilidade de estiagem durante a próxima quadra chuvosa. Apesar disso, Marcelo Soares ressaltou que o cenário atual dos reservatórios é mais favorável do que o registrado em 2016.
Atualmente, os açudes cearenses estão com aproximadamente 52% da capacidade de armazenamento, segundo o dado apresentado pelo pesquisador. Ele ponderou, no entanto, que o aquecimento do Oceano Atlântico também pode provocar episódios de chuvas intensas em curtos intervalos de tempo, aumentando o risco de inundações.
Ondas de calor podem trazer riscos à saúde
Além dos impactos ambientais e econômicos, o aumento da temperatura representa uma ameaça direta à saúde da população. Segundo Marcelo Soares, as ondas de calor podem provocar insolação, desidratação e aumentar os riscos de problemas cardiovasculares, especialmente entre idosos e crianças.
O calor excessivo também interfere na qualidade do sono e no bem-estar das pessoas. Outro problema é o possível aumento da incidência de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya.
O professor destacou que os efeitos são ainda mais intensos em regiões urbanas com grande concentração de concreto e asfalto e pouca vegetação. Esses espaços formam as chamadas ilhas de calor, áreas onde a temperatura pode ser até 4 °C superior à de outras regiões da mesma cidade.
No Ceará, cerca de 90% do território está localizado em uma região semiárida, suscetível à desertificação. Por isso, moradores de municípios do interior, especialmente do Sertão Central e dos Inhamuns, estão entre os mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento.
Quase metade das praias do Ceará sofre com erosão
As mudanças climáticas também provocam o aumento do nível dos oceanos, um fenômeno associado principalmente ao derretimento das geleiras e à expansão térmica da água, que aumenta de volume quando aquecida.
No Ceará, um dos principais efeitos desse processo é a erosão costeira. De acordo com Marcelo Soares, aproximadamente 47% das praias do estado já apresentam esse problema. Entre as áreas mais afetadas estão trechos do litoral de Icapuí, a praia do Icaraí, em Caucaia, e Jericoacoara, no município de Jijoca de Jericoacoara.
Em Fortaleza, a erosão também atingiu áreas como a Praia de Iracema e a região da Beira-Mar. A construção de aterros e espigões foi uma das medidas adotadas para tentar conter o avanço do mar na capital. No entanto, segundo o pesquisador, intervenções desse tipo podem provocar alterações na dinâmica das correntes e contribuir para problemas em outros trechos do litoral, como os de Caucaia.
O avanço do mar também ameaça a infraestrutura das cidades costeiras, atingindo barracas de praia, casas, escolas e estradas, além de prejudicar o turismo.
Outro efeito menos conhecido é a salinização de poços utilizados para abastecimento. Com o avanço da água do mar pelo subsolo, a água doce pode ser contaminada pela água salgada, tornando alguns poços impróprios para utilização.
O professor também destacou que a ocupação irregular de dunas e outras áreas naturais contribui para agravar a erosão. As dunas, por exemplo, funcionam como reservas de areia que ajudam a alimentar as praias.
População mais pobre é a mais vulnerável
Os impactos das mudanças climáticas não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Segundo Marcelo Soares, as populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica estão mais expostas aos efeitos do aquecimento global e dos eventos climáticos extremos.
O pesquisador citou como exemplo pessoas que vivem em casas sem acesso a ar-condicionado ou ventiladores, que enfrentam maiores dificuldades durante as ondas de calor.
Também estão mais vulneráveis as famílias que moram em áreas de risco, próximas a rios, dunas, encostas e praias. Durante episódios de chuvas intensas, essas comunidades podem sofrer com alagamentos, deslizamentos e perda de bens materiais.
O professor relacionou essa desigualdade ao conceito de racismo ambiental, que aborda como populações socialmente vulneráveis são mais expostas aos danos ambientais.
Ele também chamou atenção para a desigualdade entre países. Na avaliação do pesquisador, nações mais pobres acabam sofrendo consequências de um problema para o qual os países mais ricos contribuíram significativamente, devido ao histórico de maiores emissões de gases de efeito estufa.
Como combater os efeitos das mudanças climáticas?
Para Marcelo Soares, o enfrentamento das mudanças climáticas depende de duas frentes de atuação: a mitigação e a adaptação.
A mitigação consiste em reduzir as emissões de gases de efeito estufa, por meio de medidas como o combate ao desmatamento, a redução das queimadas e o incentivo à utilização de fontes de energia renováveis. Já a adaptação envolve preparar cidades e comunidades para enfrentar os efeitos que já estão acontecendo.
Entre as medidas apontadas pelo pesquisador estão a ampliação das áreas verdes, a construção de estruturas que facilitem a absorção da água da chuva e a substituição de parte do asfalto por pisos permeáveis, que permitem maior infiltração da água no solo.
A criação de áreas arborizadas também ajuda a reduzir as temperaturas nas cidades, enquanto a melhoria da infraestrutura de drenagem pode diminuir os alagamentos.
O professor ressaltou ainda a importância de soluções simples, como a instalação de reservatórios para captar e armazenar água da chuva. A medida ajuda a garantir água em períodos de estiagem e reduz o volume de água que chega às ruas durante temporais.
Cuidados que a população deve ter
Diante da intensificação dos eventos climáticos extremos, Marcelo Soares recomenda que a população fique atenta aos alertas emitidos pela Defesa Civil, especialmente em períodos de previsão de chuvas intensas.
Ele também orienta que os cearenses adotem medidas de proteção contra o calor, como manter a hidratação e evitar a exposição prolongada ao sol nos horários de temperaturas mais elevadas. Em períodos de estiagem, a economia de água também deve fazer parte da rotina da população.
Para o pesquisador, embora os governos tenham papel fundamental na preparação das cidades e na implementação de políticas ambientais, o enfrentamento das mudanças climáticas exige a participação de toda a sociedade.
“A gente vai ter que, digamos assim, se adaptar e lutar para tentar frear essa situação para que, nas próximas décadas, a gente sofra menos”, concluiu.
Fonte:G1 Ce
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