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Ceará / 05.06.2026

Fernando Caruso: “Cansei de Ser Nerd” transforma dores do passado em comédia e reflexão

Ator fala a O Estado sobre bullying, cultura geek, humor, carreira e seu primeiro papel protagonista nos cinemas The post Fernando Caruso: “Cansei de Ser Nerd” transforma dores do ...

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POR O ESTADO

Publicado em 05/06/2026 às 15:11

Fernando Caruso: “Cansei de Ser Nerd” transforma dores do passado em comédia e reflexão
© FONTE: O Estado

Por Felipe Palhano

Aos 44 anos, Fernando Caruso chega a um dos momentos mais marcantes de sua trajetória artística com o lançamento de Cansei de Ser Nerd, longa-metragem que marca seu primeiro papel protagonista no cinema. Conhecido do grande público por trabalhos na televisão, no teatro, na dublagem, no improviso e no stand-up, o ator dá vida a Aírton, um personagem que carrega traumas da juventude, enfrenta fantasmas do passado e encontra no universo geek uma forma de compreender o mundo e a si mesmo.

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A identificação entre ator e personagem é tão forte que o próprio Caruso admite: “Esse é um personagem muito próximo de mim, pra bem ou pra mal”. A declaração ajuda a explicar a autenticidade de uma interpretação que vai além do humor e mergulha em questões como pertencimento, exclusão e autoestima. No filme, Aírton revisita feridas deixadas pelos tempos de faculdade, quando sofreu bullying e viu sua vida ser marcada por acusações injustas. Duas décadas depois, ele decide enfrentar o passado em uma jornada que mistura comédia, suspense, ficção científica e romance.

Apaixonado pela cultura nerd desde a infância, Caruso também vê o filme como uma oportunidade de dar voz a uma geração que cresceu sendo considerada estranha por gostar de quadrinhos, ficção científica, videogames e fantasia. Para ele, o crescimento da cultura geek no entretenimento mundial não apagou totalmente os problemas enfrentados por quem sofreu preconceito. Ao comentar a realidade das comunidades virtuais, o ator cita uma reflexão de Paulo Freire e alerta para a permanência de comportamentos tóxicos em determinados ambientes digitais.

Na entrevista concedida ao O ESTADO, Fernando Caruso também analisa os desafios da comédia contemporânea, fala sobre a evolução do humor em tempos de mudanças sociais, comenta sua atuação como roteirista, diretor, professor e dublador, e revela que continua encontrando inspiração justamente naquilo que mais gosta de fazer: rir. Entre reflexões sobre nostalgia, criatividade e cultura pop, o artista demonstra que o humor pode ser muito mais do que entretenimento — pode ser uma ferramenta para revisitar memórias, elaborar experiências e construir novas formas de olhar para o passado.

O ESTADO – Você construiu uma carreira muito associada ao humor, à improvisação e ao timing cômico, mas Cansei de Ser Nerd parece tocar numa vulnerabilidade mais íntima, especialmente ao tratar exclusão e inadequação. Em algum momento você sentiu que estava interpretando um personagem ou revisitando versões mais jovens de si mesmo?

FERNANDO CARUSO – Sem dúvida! Esse é um personagem muito próximo de mim, para o bem ou para o mal.

O.E – O Aírton é alguém que transforma repertório geek em ferramenta de sobrevivência emocional, quase como um escudo contra o mundo. Você acha que o filme também fala sobre a solidão masculina e a dificuldade de homens adultos verbalizarem traumas sem recorrer ao humor?

F.C– Não vejo muito dessa forma. Acho que o Aírton simplesmente gosta de um determinado grupo de coisas que acabam o classificando como nerd. Acredito que a intensidade com a qual ele gosta dessas coisas não seja tanto para fugir do mundo real e sim porque ele realmente acha essas coisas muito legais mesmo! Mas é claro que toda obra está sujeita à interpretação de quem a assiste. Essa é a minha!

O.E – Sua geração viveu uma virada cultural curiosa: houve um tempo em que ser nerd era motivo de exclusão, mas hoje a cultura geek domina o entretenimento global. O que essa mudança revela sobre a sociedade — e existe um risco de o “nerd cool” de hoje apagar a dor real de quem sofreu bullying no passado?

F.C– Paulo Freire diz que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é virar opressor”. Infelizmente essa é uma máxima que me parece muito recorrente na grande maioria das plataformas de jogos online, onde o bullying, a misoginia e muitas outras formas agressivas de fobia rolam soltas e transformam o que deveria ser um espaço lúdico em um ambiente tóxico. Mas vejo isso com alguma esperança de que melhora para o futuro.

O.E – Você veio do improviso, do teatro e do stand-up, linguagens que dependem muito da escuta e do erro criativo. Em tempos de humor cada vez mais tensionado, onde você acha que mora o desafio de continuar fazendo comédia inteligente sem perder espontaneidade?

F.C– O desafio de fazer humor sem perder espontaneidade não muda com a atualização das pautas, acho que ele é independente disso e é o que faz um comediante evoluir.

O.E – Você transita entre atuação, roteiro, dublagem, direção e ensino. Em um mercado que frequentemente tenta encaixar artistas em uma única prateleira, essa multiplicidade foi uma escolha consciente ou uma forma de sobrevivência criativa?

F.C– Sem dúvida as duas coisas. Foi assim que eu fui ensinado por aqueles que vieram antes de mim. Além de não acreditar que nenhuma especialização seja suficiente para por si só cuidar de toda a minha família, acho muito divertido alterar gêneros.

O.E – Seu humor sempre pareceu muito ancorado em referências — do absurdo ao cinema pop, da cultura nerd à observação cotidiana. O que ainda te faz rir genuinamente hoje, depois de tantos anos profissionalizando o humor?

F.C– Muita coisa, eu gosto muito de rir. Inclusive percebo olhares incomodados com a minha risada toda vez que vou ao teatro. Meu prato preferido sempre foi o non-sense, mas tenho gostado muito de umas páginas, especialmente de desenhistas, que misturam regionalismo e o mundano com elementos da cultura pop, como o Caio Oliveira, o Paulo Moreira e o Raphael Salimena.

O.E – Há uma sensação crescente de nostalgia na cultura pop, com adultos revisitando personagens, filmes e universos da infância. Você acredita que isso é apenas entretenimento ou existe uma tentativa coletiva de reencontrar alguma segurança emocional num mundo mais instável?

F.C– Acredito que as duas coisas.

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