EUA lidera nova guerra contra narcotráfico a partir de base militar no Equador
Esta imagem de satélite mostra dezenas de estruturas com formato e dimensões compatíveis com tendas modulares de rápida montagem, além de uma estrutura maior semelhante a u...
POR G1 MUNDO
Publicado em 29/10/2026 às 03:00

Esta imagem de satélite mostra dezenas de estruturas com formato e dimensões compatíveis com tendas modulares de rápida montagem, além de uma estrutura maior semelhante a um hangar retrátil para manutenção de aeronaves, na base aérea militar de Taura, perto de Guayaquil, no Equador.
Foto: Planet Labs PBC
Escondida entre árvores e cercada por arame farpado, uma base militar no Equador se tornou o ponto de apoio dos Estados Unidos para a ofensiva antidrogas no Pacífico. A operação mobiliza um volume incomum de recursos, segundo registros de voos, imagens de satélite, relatos de testemunhas e documentos militares obtidos pela AFP.
Localizada a cerca de uma hora de Guayaquil, principal porto de saída de drogas com destino aos Estados Unidos, a base aérea de Taura tem mais de 70 anos de história.
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A AFP identificou obras de grande porte nas proximidades da pista, cerca de 20 voos militares americanos entre junho e meados de outubro e documentos que mencionam a presença de tropas dos Estados Unidos e a realização de “voos temporários de apoio”.
A expansão ocorre menos de um ano após os equatorianos rejeitarem, em referendo, a instalação de bases militares estrangeiras no país. O avanço das operações também levantou dúvidas sobre sua legalidade dentro das próprias Forças Armadas.
Em uma carta datada do início de setembro e obtida pela AFP, o então comandante da Força Aérea equatoriana, Mauricio Salazar, pediu às Forças Armadas esclarecimentos sobre a base legal para receber militares estrangeiros sem violar a Constituição. Depois disso, o general foi afastado do cargo e transferido para outra função, de menor patente.
Os registros analisados pela AFP mostram pousos e decolagens frequentes de aeronaves militares americanas em Taura. Entre elas estão os aviões de transporte C-130 Hércules e C-17 Globemaster, as aeronaves híbridas V-22 Osprey e os helicópteros Black Hawk.
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Vários voos conectaram Taura a instalações militares dos Estados Unidos, como a base aérea dos Fuzileiros Navais em Cherry Point, na Carolina do Norte, e a base de Dover, em Delaware. Algumas rotas incluíram escalas em Porto Rico e no Panamá.
Imagens aéreas mostram a remoção de dezenas de metros de vegetação ao redor da pista principal e das vias de circulação. A AFP também registrou a instalação gradual de dezenas de barracas e a presença de aeronaves de grande porte.
Uma estrutura de aproximadamente 40 metros por 20 metros se assemelha a um hangar desmontável destinado à manutenção de aeronaves. Do lado de fora da base, caminhões de construção entram e saem do local, que é vigiado por três militares.
Taura é a única base aérea do Equador destinada exclusivamente a operações militares. Sua pista tem mais de 3 mil metros de extensão, superando a do aeroporto de Guayaquil.
Em setembro, o presidente equatoriano, Daniel Noboa, afirmou que trabalhava com os Estados Unidos, o Brasil e a União Europeia para concentrar em Taura “qualquer tipo de cooperação entre dois países”. Segundo ele, o governo pretende “melhorar as pistas de pouso para realizar operações conjuntas”.
“Acho que é muito mais apropriado transferir tudo para Taura”, disse Noboa em uma entrevista transmitida pela televisão. Ele destacou que a base não divide suas operações com um aeroporto civil e está localizada em uma região com “a maior taxa de criminalidade e homicídios”.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à direita), e o presidente do Equador, Daniel Noboa, posam para uma foto no início da cúpula “Escudo das Américas”, no Trump National Doral, em Miami, na Flórida, em 7 de março de 2026.
Saul Loeb / AFP
Ofensiva aérea
Os Estados Unidos mantiveram uma base militar no porto pesqueiro equatoriano de Manta por dez anos, até 2009. A instalação era um dos principais pontos de apoio americanos no combate ao tráfico de drogas. O governo de esquerda que comandava o país na época encerrou o acordo.
Centenas de militares americanos atuaram a partir de Manta, onde organizações de direitos humanos denunciaram abusos cometidos por integrantes das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Agora, a cooperação militar entre Quito e Washington avança com pouca divulgação pública. As autoridades fizeram apenas alguns anúncios sobre a chegada de aeronaves.
O presidente americano, Donald Trump, reforçou o apoio militar no combate aos cartéis na América Latina e no Caribe. A iniciativa ocorre às vésperas das eleições legislativas americanas, marcadas para 3 de novembro, que podem alterar o controle do Congresso.
Em agosto, o ministro da Defesa do Equador anunciou que os Estados Unidos enviariam três helicópteros Black Hawk como parte da cooperação bilateral.
No mês seguinte, Noboa afirmou que o Equador colocaria em operação dois drones MQ-9 Reaper, usados pelos americanos em missões de vigilância e ataque em conflitos no Oriente Médio e na África.
Para o coronel reformado da Força Aérea equatoriana Roberto Marchán, as aeronaves e as instalações indicam que a presença americana pode se prolongar.
Segundo ele, os aviões de transporte identificados permitem deslocar rapidamente tropas e equipamentos por toda a região andina. Algumas das estruturas recém-instaladas também parecem adequadas para a manutenção de aeronaves e o suporte logístico.
“Há certo descontentamento entre as tropas, mas os militares guardam isso para si por respeito à instituição e por medo de perder oportunidades de promoção” na carreira militar, afirmou Marchán à AFP.
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“Ninguém vem por aqui”
Procurado pela AFP, o Pentágono orientou a agência a entrar em contato com o Comando Sul dos Estados Unidos, que não respondeu imediatamente aos questionamentos. A Força Aérea equatoriana também não havia se manifestado até a publicação do relato.
A poucos quilômetros da base fica o povoado de Taura, que tem mais de 9.400 habitantes e ruas estreitas de terra. Sem acesso à água potável, muitos moradores trabalham na agricultura ou em empresas exportadoras de camarão.
“Ninguém vem por aqui. As pessoas acham que é perigoso porque, às vezes, encontram corpos abandonados”, afirmou Fidela Martínez, líder comunitária que vive ao lado de uma fazenda de criação de camarões.
No ano passado, os corpos de quatro crianças que haviam sido torturadas, assassinadas e queimadas foram encontrados entre a vegetação do povoado. O caso, que envolveu militares, abalou o país.
Outros moradores relatam impactos mais imediatos da ampliação da base. Alma Goya, de 40 anos, dona de um estabelecimento de comida, lamenta que o centro médico instalado dentro da unidade militar tenha deixado de atender o público.
“Disseram-nos que era por causa do estado de exceção”, afirmou.
A presença militar crescente, porém, também é bem recebida por parte da população.
“Vi um avião grande que estava pousando”, contou Tito Henríquez, de 68 anos.
Dono de um pequeno restaurante, ele considera “maravilhosa” a possibilidade de receber militares estrangeiros em um país que registrou, no ano passado, a maior taxa de homicídios da América do Sul, de 51 mortes por 100 mil habitantes.