Em virada histórica, Lula vence Flávio Bolsonaro e será presidente do Brasil pela 4º vez
Lula (PT), de 80 anos, bateu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e foi reeleito neste domingo (25) para seu quarto mandato, feito inédito na história brasileira. O resultado foi anu...
POR O ESTADO
Publicado em 26/10/2026 às 08:24
Lula (PT), de 80 anos, bateu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e foi reeleito neste domingo (25) para seu quarto mandato, feito inédito na história brasileira. O resultado foi anunciado às 21h10 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 95,73% das urnas apuradas, momento em que o presidente tinha 51,73% dos votos válidos no segundo turno da disputa, contra 48,27% do senador pelo PL do Rio de Janeiro. Minutos antes, o Instituto Datafolha havia projetado a vitória de Lula. A vitória ocorreu após uma campanha acirrada, na qual Lula ficou em segundo lugar no primeiro turno contra o filho de seu antecessor e antagonista Jair Bolsonaro (PL), que está preso por tentativa de golpe de Estado após perder o pleito de 2022 para o petista.
Por volta das 22h20, Lula, acompanhado da esposa, Janja, e de demais aliados subiram ao palanque montado em São Paulo para se pronunciar sobre o resultado. “Gratidão ao povo brasileiro, povo generoso, animado. Hoje, não por acaso, é o Dia Nacional da Juventude. Saudar as mulheres, os idosos que se sacrificaram, os homens. Meu profundo respeito. O senhor pela segunda vez salvou a democracia brasileira”, disse o vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB). Lula iniciou sua fala agradecendo a redução da abstenção e, assim como Alckmin, à juventude e aos idosos, acrescentando pessoas doentes que foram às urnas. “Uma eleição que a gente teve que vencer a intromissão através de plataformas digitais, e nós vamos ter que regulá-las. Não podemos ter empresas ganhando milhões e milhões tentando direcionar o resultado eleitoral neste país”.
Lula citou fake news durante a campanha do segundo turno e chamou Flávio Bolsonaro de “representante genuíno do milicianismo deste país” e de mentiroso. “Vocês sabem que o que eu vi em todos os estados brasileiros e sobretudo na Avenida Paulista é algo que eu não acredito que o Alckmin, que já foi governador, a gente nunca conseguiu ver tanta gente entusiasmada”. Camilo Santana, um dos principais estrategistas da campanha de segundo turno estava com Lula no palanque, assim como Rafael Fonteles (PT). Camilo e Rafael foram peças fundamentais após o segundo turno. Lula também agradeceu o deputado federal eleito André Janones (Rede), afirmando que o parlamentar teve um papel essencial no impulsionamento das redes sociais.
As urnas foram completamente totalizadas pouco depois das 22 horas. No Ceará, após a totalização de 100%, as urnas marcaram 68,93%, pouco mais de 4 milhões de votos para o candidato vencedor. Em Fortaleza, foram 60,07% para Lula e 39,93% para Flávio Bolsonaro, que em todo Estado somou 31,07%, pouco mais de 1,8 milhão de votos. O dia da eleição refletiu a tensão, com o Supremo Tribunal Federal (STF) adiando de forma inédita a votação em todo o país por duas horas, após queixa da campanha do PT sobre obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, inclusive os populosos São Paulo e Bahia. A confusão teve tintas partidárias. Apesar de o problema ter sido apontado desde cedo, o ministro do Supremo Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, não agiu diante da circunstância.
Coube ao ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, determinar o prolongamento da votação, sendo seguido pelo colega. Isso levou a questionamentos imediatos de bolsonaristas nas redes, mas ministros de cortes superiores descartam a hipótese de anulação do pleito. Pouco antes das 17 horas, a campanha de Flávio Bolsonaro também pediu ampliação do horário. A apuração foi igualmente apertada. É a primeira vez que um candidato conseguiu tal virada no segundo turno desde o primeiro pleito presidencial direto da redemocratização, em 1989. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) saiu atrás de Aécio Neves (PSDB) nas pesquisas do segundo turno e venceu, mas ela havia chegado em primeiro na rodada inicial.
Aos 81 anos a serem completados na próxima terça (27), Lula é o mais idoso ocupante do cargo na história. Com o triunfo deste domingo, somou sete disputas à Presidência, tendo ganhado quatro. O triunfo do petista, que agora vai encarar o que salvo mudanças legais será seu último governo, foi definido nos momentos finais de uma campanha polarizada e uma reviravolta de tática no segundo turno. A rejeição era a mais notável certeza do brasileiro ao ir às urnas, com cerca de metade do eleitorado dizendo não votar em cada um dos rivais. Lula passou a campanha de segundo turno em modo mais olímpico, esquecendo que só bateu o então impopular Bolsonaro no segundo turno de 2022 por menos de 2 pontos percentuais.
Só acordou para o embate nos estertores da corrida, contando com anúncios eleitoreiros como a proibição das bets ou o reajuste do Bolsa Família, além da celeuma em torno de Nossa Senhora, que impulsionaram o voto em segmentos como mulheres periféricas e católicos. Já Flávio apostou no antipetismo e aproveitou-se da crise na cúpula do Judiciário, primeiro acerca das relações de ministros ligados a Lula com o caso Master, depois com a interferência que levou ao cancelamento do debate da TV Globo antes do primeiro turno. Vencedor na primeira rodada por 47,03% a 45,16% dos votos válidos, foi a vez de o senador adotar o salto alto.
Falou como eleito, viu alianças consolidadas à direita e nomes de seu ministério serem especulados, e sugeriu uma obscura mudança constitucional para “redemocratizar o Brasil”. O presidente, após uma primeira semana lavando roupa suja com aliados, mudou o comando da campanha e entregou a estratégia digital para o deputado André Janones (Rede-MG), que montou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que chegou ao pleito com mais de 10 milhões de seguidores. Flávio tentou bloquear o canal com o auxílio do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, ministro indicado por seu pai. Houve idas e vindas, mas ao fim o “Exército” operou até o fim.
“Risco de retorno”
Em paralelo, o risco da volta de um Bolsonaro ao poder acordou a militância à esquerda e os centristas que em 2022 também haviam votado em Lula. Começando por estudantes, o segundo turno foi coalhado de manifestações enormes e mais orgânicas, sem a tradicional organização de sindicatos, desafiando a primazia da direita nas ruas, que vinha desde dos atos de 2013.
No sábado (24), a mobilização chegou ao ápice com uma manifestação inaudita em escopo na avenida Paulista, em São Paulo, termômetro do espírito das ruas no país. Um foco especial de atenção do governo é a administração Donald Trump, presidente americano que tem uma relação ciclotímica com o petista e é próximo do bolsonarismo. Integrantes do governo passaram o pleito gritando lobo, apontando para indícios de que Trump iria trabalhar em favor de Flávio. Afinal, a eleição de governos populistas de direita nas Américas é um plano declarado do republicano em sua Estratégia de Segurança Nacional.
Na prática, o americano nada fez para apoiar Flávio, deixando a suspeita de ingerência estrangeira na mão da big tech Meta, investigada pelo TSE por tratamento diferenciado a conteúdos de Lula. Resta saber agora se o pragmatismo na negociação em torno do tarifaço americano contra o Brasil, que seguiu mesmo com a turbulência eleitoral e o trabalho ativo nos EUA contra Lula de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, será mantido. Ainda mais importante, o presidente eleito tem agora dois meses para tentar aplainar as grandes tensões políticas e econômicas. Terá certamente o apoio das siglas que já ajudam a sustentar seu governo, como o empoderado PSD de Gilberto Kassab e o MDB, e também de alas do centrão.
Não será tarefa simples, a começar pela bomba-relógio no Judiciário. O pleito indicou claramente a divisão entre ministros lulistas e bolsonaristas. Parece difícil uma solução simples para o imbróglio, ainda mais com uma bancada à direita robustecida no Senado, Casa onde impeachment de ministros da corte pode ser apresentado. Na economia, o mau humor do mercado com o caráter gastador de Lula 3 poderá se ampliar se não houver sinalização de algum tipo de austeridade, algo que passou longe do discurso da campanha – ao contrário.
Diferentemente de 2022, desta vez não haverá a boa vontade no Congresso para passar uma PEC assinando um cheque em branco para o governo de largada. Em outra frente, ainda há respingos eventuais do caso Lulinha, envolvendo o mais exposto dos cinco filhos desse líder sindical nascido em Garanhuns (PE), algo incerto – na eleição, não houve impacto significativo.
Protagonismo da direita
Para o bolsonarismo, a derrota de Flávio vai levar a uma disputa por protagonismo no campo da direita. Um ano atrás, o senador não era considerado um sucessor natural do pai, que acabara de ir à prisão. Nomes da órbita bolsonarista, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), eram vistos como opções que inclusive aglutinariam apoios mais amplos no centro e no centrão. Com efeito, a unção que o senador recebeu do ex-presidente preso em 5 de dezembro de 2025 foi recebida com ceticismo por líderes até do seu próprio PL. Se o candidato do clã teria de ter o sobrenome de Jair, a ex-primeira-dama Michelle parecia uma figura mais palatável.
O senador fluminense, eleito em 2018, era visto como pesado eleitoralmente devido à coleção de escândalos associados a seu nome – e sua relação próxima com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, ainda nem havia sido revelada. Hoje ele é investigado pelas suspeitas acerca do dinheiro que pediu para a cinebiografia “Dark Horse” e pela relação com lavagem de dinheiro com bets. Já havia contra ele acusações de rachadinha nos seus quatro mandatos como deputado estadual no Rio, dúvidas acerca de seu patrimônio e a relação próxima com milicianos. Sem mandato, Flávio perderá espaço de articulação, e Tarcísio, reeleito no primeiro turno batendo novamente o herdeiro presumido de Lula, Fernando Haddad (PT), está na linha de largada para ocupar o vácuo até 2030.
Por outro lado, o ativo do sobrenome Bolsonaro se mostrou forte, dada a competitividade do senador e o desempenho de candidatos associados ao grupo Brasil afora. O Congresso e os estados têm mais coloração à direita. A polarização que domina a vida política brasileira desde 2018 pode até ganhar nuances, mas seguirá viva. A vitória também dá um respiro ao PT, que experimentaria uma hecatombe com a eventual derrocada de seu líder histórico. Lula nunca quis sombra, e mesmo Haddad é empregado como mais como um fiel escudeiro do que como um herdeiro de fato.
Anos à frente do PT
Agora, sem mandato constitucional após 2030, Lula terá de organizar sua sucessão. Ela passa por sua aliança mais imediata também, restando saber que papel haverá para o vice Geraldo Alckmin e seu PSB. Nas últimas semanas, o presidente tem falado crescentemente em legado, a acreditar que ele realmente vai se retirar em 31 de dezembro de 2031. Chegando lá, ele só perderá para Getúlio Vargas, de quem se vê um sucessor espiritual na psiquê brasileira, em tempo de serviço no poder: 16 anos ante 18 anos e meio do gaúcho.
Para alguns aliados, a perspectiva é garantia de um mandato mais livre, talvez dado a inovações que gerem marcas que ficaram ausentes na sua cinzenta terceira passagem pelo Planalto. Outros temem uma guinada final à esquerda, inspirada principalmente pelo que esses petistas veem como influência excessiva da primeira-dama, Janja, que rebate a crítica acusando misoginia. Um problema adicional se relaciona à crise do Supremo. Desde que assumiu sob o impacto do 8 de Janeiro e a insurgência bolsonarista, Lula firmou uma aliança tática com o Supremo – mais precisamente, com parte da corte, como se vê agora. Mas o tribunal está em convulsão, e parece improvável que possa assumir o papel de contrapeso em favor do Executivo que vinha exercendo ante um Congresso Nacional que era hostil, e agora será ainda mais, a Lula.
MG: único onde houve virada
Minas Gerais novamente confirma sua vocação como uma espécie de espelho das eleições presidenciais e é o único estado do Brasil a registrar, entre o primeiro e o segundo turno, uma virada a favor do presidente Lula (PT), reeleito neste domingo (25). No último dia 4, Flávio Bolsonaro (PL) havia vencido no estado, conquistando 48,24% dos votos válidos, ante 43,33% de Lula.
Neste domingo, com 99,68% das urnas apuradas, o petista conquista 50,39% dos votos válidos em Minas, contra 49,61% de Flávio. Foram, até então, pouco menos de 100 mil votos de diferença entre os candidatos no estado. O estado apresenta no momento uma abstenção de 20,32%, pouco maior do que a taxa apresentada no cenário nacional, de 19,21%. No primeiro turno, a taxa de abstenção foi de 22,81%.
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