Em média, duas crianças e adolescentes são vítimas de abuso sexual por dia no Ceará
Recentemente, em Carnaubal (interior do Ceará), um homem de 33 anos foi preso por tentar abusar sexualmente do próprio filho, de 11 anos, com Transtorno do Espectro Autista. Essa r...
POR O ESTADO
Publicado em 20/05/2026 às 05:05
Recentemente, em Carnaubal (interior do Ceará), um homem de 33 anos foi preso por tentar abusar sexualmente do próprio filho, de 11 anos, com Transtorno do Espectro Autista. Essa realidade atinge quase duas crianças e adolescentes por dia (ou 1,92 casos). Os números do primeiro trimestre indicam que foram realizados 173 atendimentos de escuta especializada de crianças e adolescentes. A maioria das vítimas é oriunda do Município de Fortaleza (54). Do total de atendimentos, 150 vítimas eram do sexo feminino e 23 do sexo masculino. Ao todo, 60% das ocorrências envolvem parentes e amigos.
A reação de quem escuta a notícia “criança é vítima de estupro” ou se depara com o caso é de revolta. Maria de Salete de Queiroz, integrante do grupo de idosos do Centro de Referência de Assistência Social (Cras), no projeto Castelo Encantado, conta que “há muita violência contra as crianças. Tem gente matando, abusando, fazendo muita coisa ruim. A gente precisa falar sobre isso para que as pessoas saibam o que fazer e pra onde recorrer”. Ela participou de uma caminhada, na sexta-feira (15), no bairro Serviluz.
E quem chega perto da vítima, para colher as primeiras informações, não pode fazer o papel de polícia, mas deve demonstrar acolhimento. “Você tem que saber o seu propósito para acolher com técnica.” Esse é o conselho dado pela promotora de Justiça e coordenadora-geral do Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência (Nuavv) do Ministério Público do Ceará (MPCE), Lívia Cristina Araújo e Silva Rodrigues. Grávida de oito meses do terceiro filho, ainda está palestrando sobre o assunto, nesse Maio Laranja, que faz referência à vítima Araceli, menina de 8 anos, brutalmente assassinada na data, em 1973 e que foi raptada, drogada, estuprada e morta, em caso que ficou sem punição.
Nuavv no interior
A promotora disse ao jornal O Estado que a ideia é levar o Nuavv a mais municípios. Atualmente, 100 cidades são atendidas em Fortaleza. Sobral abrange 40 municípios, e o Nuavv Cariri, 45. Ela explica que ainda está em fase de conversa com alguns gestores municipais, não quis adiantar o nome dos municípios, para disponibilizar equipe mínima com psicólogo e assistente social e formalizar um núcleo. Enquanto isso, garante que “o nosso trabalho já avança para os municípios.”
Ela explica que a rede de apoio, formada por hospitais, escolas, conselhos tutelares, tem que ficar muito atenta. Também destacou que escolheu duas escolas de cada bairro mapeado com mais casos de abusos, em Fortaleza, para levar palestras e informações. Foram Conjunto Ceará II, Luciano Cavalcante, Parquelândia, Cristo Redentor, Jangurussu, Messejana, José Walter e Conjunto Esperança.
Para a educadora e estudante de Psicologia, Célia Simões Barreto, há como observar os sinais na rede escolar. Ela disse que, geralmente, a criança ou adolescente que passa por esse processo de abuso ou violência fica mais retraído, passa a ter dificuldade cognitiva com relação ao aprendizado e, geralmente, têm medo de abordar o assunto, de expor, de se sentirem invalidados. Se o professor identifica, comunica ao setor de Psicologia para uma conversa. Ela disse que o dever é notificar às autoridades o caso suspeito.
Sinais de alerta
O psicólogo e doutor em Educação Alex Sandro Gomes Pessoa alertou que o abuso sexual pode acontecer com ou sem contato físico, através de telefonemas, espionagens, interações inapropriadas, exibicionismo. Segundo o especialista, se não forem implementadas ações preventivas, “iremos continuar apagando o fogo. Creio que esse é o desafio da década”.
Ele, que é de São Paulo e veio fazer uma palestra no MPCE, versando sobre “Violência sexual contra crianças e adolescentes – evidências físicas (comportamentais) e digitais (virtuais)”, instigou o Estado do Ceará a ser pioneiro em um programa estadual de prevenção à violência, para reduzir as incidências. Explicou que, se um aluno passa a mão na genitália e depois põe a mão para outra criança cheirar, está cometendo um ato de importunação. Se os pais moram em um quartinho, tem que ter cuidado com a hora do “amor”. De repente, o filho sai simulando posições sexuais.
Os principais sinais de alerta evidenciados pelo psicólogo são: erotização precoce, falas inadequadas, exposição a intimidades, materiais eróticos, infecção urinária, lesão em região genital, lesão do palato, sangramento vaginal, fissura ou cicatriz anal. Outro detalhe levantado pelo psicólogo é que muitos casos de abuso acontecem em crianças que são pessoas com deficiência, o “que nos preocupa muito. Há ausência de protocolos validados no contexto brasileiro para a especificidade”.
Orientações
O psicólogo orienta que, nas conversas, é preciso explicar para a criança que nenhuma pessoa pode manter segredos que não possam ser compartilhados com adultos de confiança, como a mãe ou o pai. Observar os desenhos, uma “brincadeira” ou um comportamento mais envergonhado podem ser sinais de que uma criança esteja passando por uma situação de abuso. Em primeiro lugar, é importante que, quando a criança tentar falar alguma coisa, que ela sinta confiança de que será ouvida e acolhida. O adulto não deve questionar aquilo que está sendo narrado ou tentar responsabilizá-la pelo que ocorreu.
Outro indicativo é a criança voltar a fazer xixi na cama ou a chupar o dedo. Ou ainda começar a chorar sem motivo aparente. São pequenas ações silenciosas que dão sinal de alerta
Situação do país
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, foram mais de 67 mil vítimas. O número é tão expressivo que lotaria a Arena Castelão e ficariam mais de 3 mil do lado de fora. De acordo com a estatística, a cada 90 minutos, outros 11 meninos e meninas entram para essa triste estatística. Aos adultos, além da responsabilidade legal de proteger, de defender crianças e adolescentes, cabe o papel pedagógico de orientar e acolher.
As denúncias sobre suspeitas devem ocorrer pelo Disque 100, que é um serviço gratuito disponibilizado pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República. Ele registra denúncias anônimas de jovens que se sintam ameaçados ou que sofreram qualquer tipo de abuso ou exploração sexual. Também é possível ligar para a Polícia (190), Ministério Público (127) e Casa da Criança (85 – 3108.0500).
Por Elizabeth Rebouças
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