Do comprimido ao efeito: entenda como os remédios encontram o alvo certo no organismo
Você já se perguntou como os remédios fazem para agir exatamente na região do corpo onde são destinados? De acordo com os especialistas entrevistados pelo Metrópoles, tudo ocorre p...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 31/07/2026 às 15:52
Você já se perguntou como os remédios fazem para agir exatamente na região do corpo onde são destinados? De acordo com os especialistas entrevistados pelo Metrópoles, tudo ocorre por meio de um processo físico-químico chamado afinidade molecular, quando a força da atração e a tendência de moléculas se ligarem de forma estável atuam conjuntamente.
A entrada dos fármacos no organismo pode ocorrer por aplicação direta no tecido-alvo ou por meio da corrente sanguínea. No segundo caso, assim que são ingeridos, os medicamentos viajam por todo o organismo até encontrar receptores em que se encaixam, de acordo com a forma complementar com a qual foram criados.
Para facilitar a compreensão, imagine que os medicamentos são as chaves e os receptores são as fechaduras. O fármaco “abrirá” somente fechaduras específicas para as quais ele foi projetado para se conectar.
“No nosso organismo, existem os chamados receptores, que seriam as fechaduras, enquanto os medicamentos funcionam como as chaves. Independente da via de administração utilizada, o medicamento circula pela corrente sanguínea e só consegue se encaixar nos receptores com formato compatível, exatamente como acontece entre uma chave e uma fechadura”, explica o farmacêutico clínico Tarcísio Palhano, assessor da Presidência do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Por outro lado, as características do medicamento e do tecido-alvo podem beneficiar ou dificultar o encontro do remédio com o receptor. “Por exemplo, medicamentos altamente lipossolúveis (afinidade por gorduras) têm entrada facilitada no tecido cerebral”, exemplifica a farmacêutica Mariana Alcântara Araújo Vieira, professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).
A interação “chave-fechadura” exclusiva também irá depender dos atributos do fármaco. Alguns medicamentos não seletivos podem atuar em vários tecidos quando entram no organismo, o que pode provocar efeitos adversos no indivíduo.
“Por exemplo, o propranolol é um medicamento cardíaco não seletivo que também é capaz de se ligar a receptores do tecido pulmonar, e por isso não deve ser usado por pacientes asmáticos”, diz Mariana.
O caminho dos medicamentos em comprimido até o destino final
- O medicamento é deglutido, vai para o estômago e é dissolvido até se desintegrar.
- Após o primeiro processo, ele chega ao intestino, onde é absorvido e atinge a corrente sanguínea.
- É a partir daí que o remédio é distribuído no organismo e, a depender de seus atributos, pode ou não se acumular em outros tecidos que não o alvo.
- Quando chega ao tecido-alvo, se conecta a receptores com os quais possui afinidade.
- Por fim, o medicamento começa a agir de acordo com a sua finalidade, seja para bloquear ou ativar receptores.
Automedicação é um risco
Mesmo sendo um hábito comum para algumas pessoas, a automedicação não é recomendada por especialistas, justamente pelo risco de causar efeitos indesejáveis devido à ingestão imprópria. Na prática, os remédios devem ser usados somente quando prescritos por um profissional, incluindo os que são comprados sem receita, como alguns anti-inflamatórios.
Muitas doenças, sejam leves ou graves, têm sintomas em comum. O uso indevido pode mascarar os sinais de condições e atrapalhar o diagnóstico correto. “Um bom exemplo é a dor de cabeça. Muitas pessoas utilizam medicamentos para tratá-la, mas ela pode ser manifestação de diversas doenças: dengue, um foco de epilepsia, trauma craniano, falta de sono, cansaço ou até fome”, diz Palhano.
Segundo o farmacêutico, o ideal é tratar a causa da doença, e não apenas aliviar um sintoma que pode desaparecer momentaneamente e retornar mais tarde, às vezes com maior intensidade e gravidade.