Consumidores que não existem: como a IA pode testar ideias de produtos
Seu próximo produto pode receber críticas antes de existir. E parte delas pode vir de consumidores que também não existem. Vans, de tênis, e Magnum, de sorvetes, já usam públicos ...
POR SOBRAL ONLINE
Publicado em 21/10/2026 às 14:08

Seu próximo produto pode receber críticas antes de existir. E parte delas pode vir de consumidores que também não existem. Vans, de tênis, e Magnum, de sorvetes, já usam públicos simulados por inteligência artificial para apoiar o desenvolvimento de produtos, segundo reportagem da Digiday publicada em 12 de outubro. A promessa é investigar como uma ideia poderia ser recebida enquanto ainda há espaço para modificá-la.
Minha tese é que essa tecnologia não substitui o conhecimento do cliente. Ela aumenta o valor desse conhecimento. Para uma empresa no Ceará, conhecer hábitos, objeções e necessidades locais é uma vantagem difícil de copiar, especialmente onde faltam estudos dedicados àquele mercado.
Já vi o nome de um produto mudar horas antes do lançamento. Como o nome correto não estava disponível, a grafia tinha sido alterada de propósito. Em algumas marcas isso soaria moderno, mas naquela seria inadmissível. Uma pesquisa com o público mostrou o risco a tempo, e a equipe trocou o nome antes de ir ao mercado.
Públicos sintéticos são representações digitais de grupos de consumidores. Eles podem ser construídos com pesquisas, entrevistas e registros de clientes reais. Depois, a IA usa essas informações para simular respostas a novas perguntas. É essa participação que é sintética: pessoas reais fornecem a base de conhecimento e a IA responde na simulação.
Movimentações do mercado
No caso de Vans e Magnum, que trabalham com a Vurvey Labs, dados públicos e pesquisas qualitativas em vídeo com consumidores reais ajudam a construir as personas consultadas. Na mesma reportagem, Joy Doyin Ogunneye, executiva da Aveeno Body, da Kenvue, relata que a pesquisa sintética contribuiu para o desenvolvimento da linha Sensitive Skin Scents.
Em 2023, na coluna “O seu próximo concorrente não será humano”, apresentei Smallville, uma comunidade virtual de 25 agentes de IA. Não era pesquisa de consumo, mas antecipava o interesse que agora chega aos negócios.
Imagine uma rede de supermercados planejando uma bebida de marca própria, com três propostas: uma opção econômica para famílias, uma embalagem individual para consumir fora de casa e uma versão com ingredientes regionais. Antes de desenvolver as três, a equipe poderia apresentar descrições e preços a perfis simulados de compradores. As respostas sugeririam dúvidas, objeções ao preço e diferenças entre públicos, e ajudariam a escolher o que levar a pessoas reais. A simulação não prova o sabor nem garante a compra. Ela ajuda a fazer perguntas melhores antes de concentrar recursos.
A distância entre uma resposta plausível e uma representação fiel merece atenção. Ao simular participantes de três pesquisas de opinião nos Estados Unidos, o Pew Research Center encontrou erro absoluto médio de 12,4 pontos percentuais na configuração principal do estudo. Por isso, uma reação negativa da simulação também pede investigação: o problema pode estar na ideia ou na representação do público.
É aqui que entra quem decide. Uma base desatualizada ou concentrada num único perfil produz respostas distorcidas, e gerar milhares de consumidores simulados a partir dela não elimina o erro. A vantagem não está na ferramenta, que qualquer concorrente pode contratar. Está nos dados e no conhecimento do público que a alimentam.
So What?
Organize e qualifique seus dados: compras, atendimento, pesquisas e cancelamentos. Verifique atualização, consistência e quais perfis estão representados, e procure as lacunas.
Pesquise quem ainda está fora da sua base: entrevistas com potenciais compradores revelam necessidades que os clientes atuais não mostram.
Combine dados públicos com conhecimento local: censos e estudos setoriais dão o panorama, e a região e o nicho dão o detalhe.
Avalie parceiros com rigor: pergunte de onde vêm os dados, quais públicos a solução representa e como as respostas foram comparadas às de consumidores reais.
Escolha um conceito de produto, rode uma rodada sintética e depois 10 entrevistas reais; compare custo, tempo e o que cada uma revelou antes de ampliar.
Esse é um tema que tenho levado para conversas com diretores de produto e marketing. Se ele faz parte da sua agenda, vale continuar a conversa.
Fonte:Diário do Nordeste
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