Comprometimento de renda das famílias atinge maior nível em 21 anos
A capacidade de pagamento de famílias e empresas continua sob pressão e representa um ponto de atenção para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro. Relatório divulgado pel...
POR O ESTADO
Publicado em 28/10/2026 às 09:20
A capacidade de pagamento de famílias e empresas continua sob pressão e representa um ponto de atenção para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro. Relatório divulgado pelo Banco Central nessa terça-feira (27) mostra aumento dos ativos problemáticos no crédito às famílias e deterioração de indicadores relacionados à inadimplência, ao comprometimento de renda e à capacidade das empresas de honrar dívidas.
Segundo o BC, as dívidas das famílias atingiram o maior nível desde 2012. Nessa classificação entram tanto operações com atraso superior a 90 dias quanto contratos que apresentam sinais de que podem não ser integralmente pagos.
A inadimplência foi apontada como o principal fator para esse avanço. As estimativas de probabilidade de default, que medem o risco de calote, também indicam que a pressão deverá continuar na maior parte das modalidades de crédito ao longo do segundo semestre.
Entre as famílias, o comprometimento da renda alcançou o maior patamar dos últimos 21 anos, com impacto mais intenso entre consumidores de menor renda. O avanço da digitalização dos serviços financeiros, segundo o Banco Central, também ampliou a exposição desse público às ofertas de crédito, contribuindo para o aumento do endividamento.
Diagnóstico
O diagnóstico levou a autoridade monetária a avaliar novas medidas macroprudenciais para os segmentos de maior risco. O objetivo é reduzir o superendividamento, melhorar a sustentabilidade das concessões e aumentar a capacidade do sistema financeiro de absorver eventuais perdas.
O BC não detalhou todas as medidas em estudo. Entre as possibilidades acompanhadas pelo mercado está o endurecimento das regras de capital para modalidades consideradas mais arriscadas, como cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia.
A instituição já anunciou mudanças destinadas a limitar ofertas mais agressivas de crédito. A partir de 31 de março de 2027, bancos e demais instituições deverão disponibilizar mecanismos claros para que clientes bloqueiem propagandas e ofertas ativas.
O relatório também buscou separar o efeito da deterioração efetiva do crédito das mudanças regulatórias adotadas recentemente. Pelas estimativas do Banco Central, a inadimplência teria crescido mesmo se os critérios anteriores de baixa de operações a prejuízo tivessem sido mantidos.
Em junho, a taxa de inadimplência do Sistema Financeiro Nacional seria 0,78 ponto percentual menor caso as regras vigentes até 2024 continuassem valendo. Esse impacto representa aproximadamente 45% da alta de 1,76 ponto percentual observada desde dezembro de 2024.
No crédito consignado destinado a trabalhadores da iniciativa privada, o chamado Crédito do Trabalhador, o Banco Central identificou aumento nas novas concessões, mas efeito limitado sobre a substituição de dívidas antigas e mais caras.
Segundo o BC, uma parcela relevante dos atrasos está concentrada em operações de pessoas que permaneceram empregadas ou retornaram ao mercado formal depois de eventual desligamento. Como o desconto em folha deveria continuar funcionando nesses casos, a autoridade monetária avalia que dificuldades operacionais podem estar prejudicando o desempenho da carteira.
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