Ceará lidera exportações de pescados e movimenta US$ 28,7 milhões no quadrimestre
Das praias que amanhecem com redes lançadas ao mar aos modernos centros de beneficiamento e exportação, o Ceará transformou sua tradição pesqueira em potência econômica. A vocação ...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 05/06/2026 às 17:46
Das praias que amanhecem com redes lançadas ao mar aos modernos centros de beneficiamento e exportação, o Ceará transformou sua tradição pesqueira em potência econômica. A vocação construída entre o oceano, a experiência dos pescadores e a força da cadeia produtiva colocou o estado na liderança nacional das exportações de pescados. Somente nos quatro primeiros meses do ano, o Ceará exportou US$ 28,73 milhões em lagosta, camarão e peixes.
O desempenho do setor tem atraído investimentos e ampliado a presença dos pescados cearenses em mercados internacionais. Em Fortaleza, peixes vermelhos, atum e lagosta compõem a produção da Compex Pescados, empresa que exporta cerca de 3,5 mil toneladas por ano para países da Ásia, Oceania e América do Norte, atendendo às exigências específicas de cada mercado.
A equipe de reportagem visitou a indústria, que opera sob normas internacionais de segurança e em ambiente refrigerado a 18°C, e conversou com o empresário Paulo Gonçalves. Para ele, o protagonismo do Ceará no setor é resultado do trabalho conjunto de toda a cadeia produtiva. “O desempenho do estado deve-se ao compromisso e profissionalismo dos pescadores e de todos que participam desse processo”, afirma.
Com tradição, tecnologia e processos inovadores, a empresa aposta na localização estratégica do Ceará como diferencial competitivo. A posição geográfica favorece a logística de exportação para 16 países e reforça a estrutura do estado para o escoamento de cargas.
Segundo Paulo Gonçalves, a infraestrutura logística é um dos fatores que sustentam o crescimento do segmento. “As facilidades logísticas do Ceará contribuem muito para esse protagonismo, pois estamos muito bem servidos, com dois portos de cargas gerais e um aeroporto internacional. Isso facilita o escoamento das cargas de pescados, tanto congeladas quanto frescas”, destaca.
Reconhecida entre as principais exportadoras de frutos do mar do país, a empresa conta com um parque fabril de 10 mil m². No local, os pescados passam por rigorosos processos de industrialização, desde a seleção da matéria-prima até o controle das etapas de produção e armazenamento.
O fortalecimento da cadeia produtiva também foi refletido nos números registrados no primeiro quadrimestre do ano, período em que o Ceará liderou as exportações nacionais do setor. Para Paulo Gonçalves, o resultado foi impulsionado pelo crescimento das vendas de produtos tradicionais – como lagosta, atum, garoupa e peixes vermelhos -, além da abertura de novos mercados e do apoio do Governo do Estado durante o tarifaço imposto pelos Estados Unidos.

“O setor produtivo teve apoio para manter a cadeia funcionando”, relembra. As medidas adotadas buscaram garantir a manutenção das atividades econômicas e preservar empregos. Por meio de decreto assinado pelo governador Elmano de Freitas, foram assegurados benefícios como redução de encargos do Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI), subvenção econômica para ampliar a competitividade, créditos de exportação e aquisição de produtos para atender demandas internas do estado. “Essas medidas são resultado do diálogo”, afirmou o governador durante a assinatura do decreto, em cerimônia acompanhada por representantes do setor produtivo, entre eles dirigentes da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec). A estimativa é de que cerca de 100 mil empregos tenham sido preservados.
Com o suporte institucional e o crescimento das exportações, o setor projeta expansão nos próximos anos. Segundo o secretário-executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará, Sílvio Carlos, o estado ainda possui potencial para ampliar sua presença no mercado internacional. “O Ceará tem tradição na economia do mar e os números demonstram que ainda há muito espaço para crescer”, afirma.
Entre as expectativas do setor está a abertura do mercado europeu, pauta que também mobiliza empresários da área. “Mesmo sem exportar para a Europa, somos o principal exportador do Brasil. Com as ações realizadas e o apoio do governador Elmano de Freitas nas interlocuções com os ministérios da Pesca e Aquicultura (MPA) e da Agricultura e da Pecuária (Mapa), acreditamos nesse novo momento. O Ceará acredita bastante no setor, que só tende a crescer”, ressalta Silvio Carlos.
“Tudo parte daqui”
A força da exportação de pescados no Ceará também passa pelas histórias de quem atua diariamente na cadeia produtiva. Com 573 quilômetros de litoral, o estado abriga cerca de 20 municípios que vivem da relação com o mar. Entre eles está Acaraú, no Litoral Oeste, cidade onde nasceu Geralda Sousa.
Hoje coordenadora do setor de recebimento de matéria-prima da Compex Pescados, em Fortaleza, ela acumula 24 anos de experiência no segmento. A trajetória começou em 2002 e ganhou um novo capítulo em 2017, quando passou a integrar a equipe da empresa, ainda concentrada em Acaraú.
Cinco anos depois, com a expansão das operações e a instalação do frigorífico no bairro Cais do Porto, em Fortaleza, Geralda foi convidada para atuar na nova unidade na capital. O reconhecimento veio da experiência adquirida ao longo dos anos. “Ela sabe como fazer e como funciona tudo aqui”, comentavam os colegas de trabalho.
É no setor coordenado por Geralda que a matéria-prima chega ao chão de fábrica e inicia o processo de industrialização. “Me sinto lisonjeada, eu e toda minha equipe, porque tudo parte daqui. Se a gente fizer um bom recebimento, tudo vai sair bem até chegar ao consumidor no exterior”, afirma.
A mudança para Fortaleza também levou a irmã, Edna Sousa, responsável pela produção de crustáceos na empresa. Para as duas, o setor pesqueiro representa oportunidade e transformação de vida. “É o nosso sustento e o de muitas pessoas. Nós mudamos de Acaraú para cá graças a essa oportunidade”, resume Geralda, com a concordância da irmã.
Geladeira logística
O avanço das exportações de pescados também impulsionou investimentos em infraestrutura logística no Ceará. Um dos principais exemplos é o terminal de cargas frias da Fracht Log, instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

Utilizado por exportadores e importadores para o armazenamento de mercadorias antes do embarque internacional, o equipamento surgiu para suprir uma demanda histórica do estado: a ausência de uma estrutura de grande porte voltada ao armazenamento refrigerado próximo ao Porto. Com investimento de R$ 120 milhões, o terminal do grupo suíço funciona como uma espécie de “geladeira logística” para produtos congelados, garantindo maior eficiência no fluxo de exportações de itens como camarão, lagosta, sardinha e outros pescados.
Localizado a apenas oito quilômetros do Porto do Pecém, o terminal permite que as cargas sejam armazenadas em temperaturas de até -25°C e encaminhadas ao embarque com mais agilidade e segurança. Segundo Thiago Abreu, diretor da empresa no Ceará, o projeto nasceu da necessidade de ampliar a capacidade logística do estado para produtos refrigerados e congelados.
Atualmente, a unidade opera com cerca de 80% da capacidade ocupada nos módulos refrigerados. Entre os principais produtos armazenados estão sardinha, atum, lagosta, camarão, pescados vermelhos, açaí congelado, frutas vermelhas processadas e batata frita congelada. O terminal também oferece soluções para cargas que exigem temperaturas positivas, como alho, por meio de contêineres refrigerados instalados em pátio externo.
Para Thiago Abreu, a estrutura fortalece o Ceará como hub logístico de distribuição e exportação no Nordeste. Ele destaca que produtos que antes eram importados por outros estados, devido à falta de estrutura adequada no Ceará, passaram a utilizar o Porto do Pecém.
O terminal também solucionou um gargalo histórico enfrentado por importadores de pescado no estado. Antes da implantação da estrutura, empresas precisavam manter contêineres refrigerados parados no porto por longos períodos, o que eleva os custos com armazenagem e energia.
Com a nova operação, os produtos passaram a contar com uma estrutura dedicada para estocagem, garantindo maior fluidez ao processamento industrial e à distribuição para os mercados nacional e internacional.
Estratégia para crescer
O avanço da cadeia produtiva dos pescados no Ceará acompanha uma política estadual voltada à atração de investimentos e ao fortalecimento da logística. Segundo o secretário-executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), Sílvio Carlos, a estrutura do Complexo do Pecém tem sido decisiva para estimular a instalação de empresas ligadas à exportação e ao processamento de produtos de alto valor agregado. “O Porto do Pecém tem atraído empresas que ajudam a viabilizar exportações de frutas, pescados e outros produtos estratégicos para a economia cearense”, afirma.
De acordo com o secretário, o crescimento de empresas como a Compex Pescados está diretamente ligado ao potencial do Ceará na economia do mar e à necessidade de agregar valor à produção local. Ele destaca que o estado reúne condições favoráveis para impulsionar segmentos como pesca, carcinicultura e fruticultura, além de investir na promoção internacional do Ceará para atrair novos negócios. “O estado tem trabalhado para apresentar suas potencialidades ao mercado internacional, mostrando a localização estratégica no Atlântico e o ambiente favorável para investimentos”, ressalta.
Por fim, Sílvio Carlos também aponta que a política de desenvolvimento econômico tem ampliado oportunidades em diferentes cadeias do agronegócio cearense. Entre os setores em expansão estão a bovinocultura de corte, avicultura, ovinocaprinocultura, produção de frutas, flores e a carcinicultura – segmento em que o Ceará responde por mais de 50% da produção nacional de camarão. “A economia do mar cresce continuamente no estado, principalmente com a exportação de lagosta, atum e peixes vermelhos. Isso fortalece toda a cadeia produtiva e demonstra o potencial do Ceará para seguir crescendo acima da média nacional”, conclui.