Casos de câncer colorretal avançam no Brasil e preocupam especialistas
Os casos de câncer colorretal no Brasil crescem a uma velocidade preocupante nas últimas décadas, acometendo um perfil ampliado de pacientes. Estudo do A.C. Camargo Cancer Center, ...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 28/07/2026 às 14:39
Os casos de câncer colorretal no Brasil crescem a uma velocidade preocupante nas últimas décadas, acometendo um perfil ampliado de pacientes. Estudo do A.C. Camargo Cancer Center, com análise de dados colhidos de 2000 a 2023, mostra um aumento médio anual de 8,5% nos diagnósticos da doença em pessoas com 30 a 39 anos e de 8,1% para quem passou dos 50. Por se tratar de um câncer de evolução lenta, manter homens e mulheres informados sobre ele é condição básica ao se definir qualquer estratégia de enfrentamento. Mas não o suficiente quando se está diante de um tumor que já figura como o terceiro mais incidente no país.
Esse é um debate que merece atenção diante da notícia divulgada neste mês, também pelo centro oncológico, de que oito em cada 10 brasileiros sabem identificar os sinais do câncer colorretal. Trata-se, de fato, de um avanço em educação em saúde. Mas saber que o sangue nas fezes e alterações no funcionamento do intestino podem ser sintomas da doença grave é ainda mais estratégico quando se tem uma contrapartida sistêmica ao problema observado.
Conforme os protocolos atuais, o próximo passo é fazer exames relativamente simples: o de pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSO) e/ou a colonoscopia. É aí que a realidade da desigualdade no acesso à saúde se impõe, sobretudo quando se considera o segundo exame, o padrão-ouro no enfrentamento à doença. Em clínicas particulares, o valor de partida de uma colonoscopia aproxima-se da metade de um salário mínimo — isso no caso de pacientes que não dependem de muito suporte. No SUS, as filas de espera para o exame chegam à casa dos milhares, sendo, inclusive, razão de ação civil pública em unidades da Federação.
A mobilização e a preocupação fazem sentido em razão de uma especificidade crucial da colonoscopia: ela é indicada para a prevenção da doença, para o diagnóstico e também para curar casos iniciais. Trata-se, sem dúvidas, de abordagem indispensável quando se almeja um combate sistêmico a esse tipo de câncer. Há de se reconhecer o aumento no número dos exames feitos no SUS nos últimos 10 anos: de 261 mil em 2016 para 640 mil no ano passado. No caso do PSO, o crescimento foi ainda maior: de 1,14 milhão para 3,3 milhões. Mas o avanço acelerado da doença e especificidades regionais tendem a ofuscar esses esforços.
Urge a adoção de abordagens mais eficazes, e a nova pesquisa do Camargo Center, realizada pela Nexus, traz informações que podem ajudar nesse sentido. O Nordeste, por exemplo, é a região que menos conhece e faz o PSO: 72% dos moradores nunca ouviram falar da pesquisa de sangue oculto nas fezes e apenas 8% foram submetidos ao procedimento. No Norte e Centro-Oeste, 43% dos pacientes ignoram os sinais da doença. Optam por deixar o sintoma passar e não buscam avaliação médica.
Descrença na disponibilidade de atendimento, limitações para o autocuidado, resistência em mudar de hábitos e até preconceito acerca dos exames dão conta de explicar uma parte das disparidades. Mas não se pode deixar de lado uma perspectiva crucial para frear o câncer colorretal no país: trata-se de um tumor que mata 25 mil brasileiros por ano e que tem taxa de cura superior a 90% quando descoberto precocemente. Não há tempo a perder. Diante da suspeita leiga da existência da doença, todo cidadão merece respostas oficiais o quanto antes. Quando vidas estão em jogo, é preciso que consciência se converta em ação.