Bilinguismo influencia desenvolvimento cerebral e processamento da linguagem em crianças
Estudos publicados em 2026 trouxeram à tona questionamentos de como o cérebro das crianças passa por mudanças intensas nos primeiros anos de vida, período em que também aconte...
POR CEARÁ AGORA
Publicado em 20/08/2026 às 16:02
Estudos publicados em 2026 trouxeram à tona questionamentos de como o cérebro das crianças passa por mudanças intensas nos primeiros anos de vida, período em que também acontece uma grande parte do desenvolvimento da linguagem. O especialista em linguagem aponta que o bilinguismo também pode favorecer habilidades importantes como memória, atenção, escuta ativa e flexibilidade cognitiva.
O primeiro estudo “O impacto do contexto linguístico na sincronia inter-cerebral em bilíngues famílias”, publicado na revista Frontiers in Cognition, voltada para a pesquisa em todas as áreas da cognição, analisou brincadeiras orientadas a crianças em ambas as línguas nativa e segunda língua para avaliar como o uso da linguagem molda a sincronização neural.
Nesse contexto, a análise refletiu se a língua utilizada durante as interações mãe-filho afeta a sincronia neural em famílias bilíngues.
A abordagem de brincadeira permitiu que as famílias interagissem espontaneamente em ambas as línguas, oferecendo insights sobre como o dia a dia o uso da língua modela a sincronização neural.
Outro estudo, “Como o bilinguismo influencia o processamento da linguagem no cérebro em desenvolvimento: uma revisão sistemática das evidências neurobiológicas”, divulgado pela Elsevier, empresa holandesa voltada para conteúdos e análises de informações para as áreas de ciência, técnica e saúde, examina o efeito das experiências bilíngues no desenvolvimento cerebral e no processamento da linguagem em bebês, crianças pequenas e crianças, com foco em metodologias neurobiológicas.
A análise examinou as trajetórias de desenvolvimento neurais de crianças bilíngues precoces e tardias.
Em bilíngues precoces, a inserção das duas línguas influencia vários aspectos do desenvolvimento e do processamento iniciais da linguagem. Por exemplo, eles inicialmente demonstram estreitamento perceptivo retardado em comparação com monolíngues.
Além disso, bilíngues precoces e monolíngues exibem diferenças na estrutura e na função cerebral, indicando refinamento neural contínuo e, potencialmente, um processamento da linguagem mais eficiente.
Já as crianças aprendizes de segunda língua, o foco está na interação entre adaptação neural e entrada linguística. À medida que a entrada e a proficiência aumentam, os aprendizes demonstram respostas mais maduras e maior ativação em regiões cerebrais específicas da linguagem.
O que dizem os especialistas
O mestre em Linguística Aplicada e Coordenadora Pedagógica Inaée Porto explica que quando uma criança cresce em contato frequente com dois idiomas, ela passa a perceber desde cedo que existem diferentes formas de nomear, organizar e compreender o mundo.
“Esse exercício constante favorece a consciência linguística, amplia o repertório de sons, palavras e estruturas e contribui para uma relação mais flexível com a linguagem”, ressalta.
Quando aplicado durante o período da infância, Inaeé evidencia que o bilinguismo pode oferecer diversas habilidades além da própria fala.
“Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, o bilinguismo também pode favorecer habilidades importantes como memória, atenção, escuta ativa e flexibilidade cognitiva (…) Mais do que aprender vocabulário, ela aprende a observar, comparar, formular hipóteses e se expressar de diferentes maneiras. Quando esse processo acontece em um ambiente acolhedor, lúdico e adequado à idade, o contato com dois idiomas contribui não apenas para a aprendizagem linguística, mas também para a autonomia, a confiança e o desenvolvimento global da criança.”, destaca.
O especialista em linguística também informa sobre o contato com uma outra língua e o ponto de vista neurológico.
“E, do ponto de vista neurológico, o contato com dois idiomas também estimula a capacidade de adaptação do cérebro, que está em constante desenvolvimento na infância. Ouvir e usar diferentes idiomas ajuda a criança a reconhecer e organizar novos sons, palavras e significados”, finaliza.