Antes do diagnóstico, o afeto: porque compreender as dificuldades das crianças é o primeiro passo para ajudá-las
Dificuldades na leitura, escrita, concentração e memória nem sempre indicam um transtorno. Especialista explica a importância de observar os sinais, respeitar o ritmo de cada crian...
POR O ESTADO
Publicado em 03/11/2026 às 09:05
Aprender a ler, escrever, interpretar textos e resolver problemas matemáticos acontece de maneira diferente para cada criança. Enquanto algumas desenvolvem determinadas habilidades com facilidade, outras precisam de mais tempo e estímulos. Quando as dificuldades se tornam frequentes e interferem na rotina escolar, pais e educadores precisam estar atentos.
Problemas de concentração, esquecimentos, resistência às tarefas e dificuldades para acompanhar os conteúdos podem ter diferentes origens, como questões emocionais, lacunas na escolarização e condições relacionadas ao neurodesenvolvimento.
Nesse contexto, a psicopedagogia busca compreender como cada criança aprende e identificar fatores que interferem nesse processo, considerando aspectos cognitivos, emocionais, sociais e pedagógicos.
Segundo a psicopedagoga clínica e escolar Nagia Kelly, os pais devem procurar orientação quando percebem dificuldades persistentes na leitura, na escrita e nas atividades escolares. Mudanças de comportamento relacionadas à escola também merecem atenção.
“Buscar acompanhamento psicopedagógico não significa necessariamente a existência de um transtorno, mas representa uma oportunidade de identificar necessidades e oferecer intervenções adequadas”, explica.
Dificuldade ou transtorno
Uma das dúvidas mais comuns das famílias é saber quando uma dificuldade faz parte do desenvolvimento e quando é necessário procurar ajuda especializada. Afinal, cada criança tem seu próprio ritmo.
Durante a alfabetização, algumas crianças precisam de mais tempo para reconhecer letras, relacionar sons e símbolos ou desenvolver a compreensão da leitura. O alerta aparece quando as dificuldades são persistentes e comprometem o desempenho escolar, mesmo diante de estratégias pedagógicas adequadas.
Na Educação Infantil, também é importante observar o desenvolvimento da linguagem oral, das interações sociais e das habilidades que antecedem a alfabetização.
“Entre os 4 e 5 anos, a criança vivencia experiências importantes para a construção de competências que serão utilizadas posteriormente na vida escolar. A identificação precoce permite oferecer intervenções direcionadas, respeitando os diferentes ritmos de desenvolvimento”, destaca Nagia.
A especialista ressalta que dificuldades de concentração, memória, leitura e escrita não significam, isoladamente, a presença de um transtorno. A investigação precisa considerar o desenvolvimento da criança e suas experiências escolares.
Quando o emocional também interfere
Nagia Kelly explica que o desempenho escolar não depende apenas da capacidade de memorizar informações ou compreender conteúdos. O estado emocional também influencia a aprendizagem. Medo de errar, ansiedade, insegurança e baixa autoestima podem prejudicar a concentração e a motivação.
Quando as dificuldades se acumulam, a criança pode se sentir frustrada e incapaz. Choro diante das tarefas, irritabilidade e frases como “eu não consigo” ou “sou burro” merecem atenção, principalmente quando recorrentes.
“Antes de julgar o comportamento de uma criança, precisamos compreender o que pode estar dificultando sua aprendizagem”, afirma Nagia.
A atenção também é necessária diante de suspeitas de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A condição pode interferir na atenção, no planejamento e na organização, mas não é, por si só, um transtorno específico da aprendizagem. A psicopedagogia pode contribuir com estratégias individualizadas para desenvolver habilidades acadêmicas e autonomia.
A participação dos pais é fundamental. Estabelecer uma rotina, incentivar a leitura, propor atividades lúdicas e reconhecer os avanços ajudam no desenvolvimento. Cobranças excessivas e comparações com outras crianças podem comprometer a autoestima.
“A família não precisa assumir o papel da escola nem reproduzir em casa as atividades de acompanhamento profissional. Sua contribuição está em oferecer segurança, incentivo e um ambiente favorável ao desenvolvimento”, orienta a psicopedagoga.
A escola também participa desse processo. A troca de informações entre professores, família e psicopedagoga permite estabelecer estratégias adequadas e acompanhar os avanços.
Para Nagia Kelly, o acompanhamento deve ser entendido como uma oportunidade de compreender as necessidades da criança, e não como um rótulo.
“Cada aluno tem uma maneira própria de aprender. Alguns precisam de mais tempo, outros respondem melhor a recursos visuais, atividades práticas ou explicações individualizadas”, pontua.
Diante de dificuldades persistentes, observar, conversar com a escola e buscar orientação são atitudes importantes. Afinal, aprender não deve ser uma disputa de velocidade, mas um processo que precisa de estímulo, acolhimento e oportunidades.
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