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/ 04.06.2026
A VELHA DAMA
Por Avelar Santos* Apesar da fúria louca dos anos, que a alquebraram tanto, a velha dama ainda esboça rara beleza, nos seus traços finos, teimando em resistir.Orgulhávamo-nos ...
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POR CAMOCIM ONLINE
Publicado em 04/06/2026 às 12:11
© FONTE: Camocim Online
Apesar da fúria louca dos anos, que a alquebraram tanto, a velha dama ainda esboça rara beleza, nos seus traços finos, teimando em resistir.
Orgulhávamo-nos dela, como um pai orgulha-se dos filhos!
Por uma eternidade, ela foi o local mais concorrido da cidade e, sem dúvida alguma, o mais democrático. Ali, acotovelavam-se, lado a lado, tranquilamente, dia após dia, magnatas, doutores - e pessoas simples.
De uma arquitetura soberba, imponente, resquício da época áurea do Império, ela se destacava, por si só, na paisagem bucólica da urbe.
Eu a apreciava, assim, de forma apaixonada, e a conhecia muito bem. Sabia de seus segredos, de suas dores, mas também de suas alegrias. Não sei explicar ao certo, mas era a mim que ela se revelava por inteiro. Falava-me de seu passado grandioso, do amor à terra, de seus temores, e, juntos, Isaías e Judite, perscrutávamos o futuro que nos aguardava.
Nossa amizade começou cedo! Pequerrucho, ela acolheu-me, gentilmente, nos seus braços, fazendo-me calar o choro, com sua profunda magia, antes de minha primeira ´partida.
Naquela madrugada distante, embaçada nos olhos da memória, minha mãe levava-me, com alguns irmãos, à casa de meus avós, em Massapê, no sopé da Meruoca.
Nas minhas outras partidas e chegadas, através do túnel do tempo, ela sempre acolhia-me como a um filho. Com devotamento, luz e calor!
Acredito que a todos que passavam pelos seus salões, que transitavam por sua imensa plataforma, ela agia da mesma maneira. Acolhia com um belo sorriso aos que chegavam - e chorava o adeus dos que partiam.
A minha casa ficava debruçada sobre ela. Daí a nossa intimidade tão grande. No subsolo da minha mente ficaram gravadas cenas mil que ocorreram sob o olhar bondoso da velha dama: peraltices de garotos, aflição de adolescentes, corre-corre angustiado, sem nexo, de adultos.
Quando menino, às escondidas, com pés de seda para o guarda não acordar de sua merecida sesta, eu e outros colegas travessos tirávamos o troller do seu depósito, e, com grande esforço, o colocávamos nos trilhos – e lá íamos nós, felizes, a desfrutar daquele passeio maravilhoso, que era feito mais correndo do que sentados, haja vista que tínhamos que nos revezar para empurrar o veículo. Como era bom tudo aquilo: o vento a bater forte, no rosto, fustigando-nos a visão, ao passar pelas oficinas, o mar a gritar, para nós, na Praia dos Coqueiros...
Após essa curta “viagem”, que durava cerca de uma hora, mas que parecia alongar-se mais, nós guardávamos o troller, cuidadosamente, e rumávamos para casa, cumprimentando, com toda polidez, ao passarmos por ele, sorridentes, o guarda que há pouco despertara.
Na maioria das vezes tudo isto transcorria sem quaisquer senões. Outras, porém, confesso, a chama do medo crepitava forte, paralisando-me, ao ver o guarda, sorrateiramente, esgueirar-se, por entre os vagões, na gare, e, correndo como se fora Emil Zatopek, perseguir-nos sem trégua alguma pelo universo complexo composto por trilhos e armazéns.
Nessa hora, cada um queria safar-se o mais rápido, dali, ensebando bem as pernas, para poder correr, clamando, com fé, a proteção divina.
No dia seguinte, tudo recomeçava!
E o tempo voou!
Muitos anos já se passaram desde que o último trem, resfolegando como tísico, pobrezinho, deixou, chorando de dor, de saudade, sua gare.
A velha plataforma está vazia...
Não há mais guardas, vagões, meninos...
Somente os fantasmas do passado povoam sombriamente a velha dama.
Agora, o silêncio grita em cada canto sem cessar!
Sozinho, sem nada poder fazer, infelizmente, para calar o seu lamento, olho em derredor como se quisesse que as retinas jamais esquecessem de nenhum detalhe daquela nobre senhora que foi tão amada por mim.
Com a alma turva, triste, vazia, com pés cansados, de chumbo, saí, vagarosamente, do seu recinto pela última vez – e disse-lhe adeus.
*Professor e Escritor Camocinense