A importância do acompanhamento odontológico infantil antes dos primeiros sintomas
Odontopediatra Aline Morais, conhecida em Fortaleza como “encantadora de crianças”, explica a importância do acompanhamento desde a gestação e alerta para os cuidados que podem pre...
POR O ESTADO
Publicado em 02/11/2026 às 08:01
A saúde bucal infantil exige atenção muito antes de a criança aprender a escovar os próprios dentes. O acompanhamento odontológico começa ainda na gestação, passa pelo nascimento dos primeiros dentinhos e acompanha diferentes etapas do desenvolvimento, inclusive quando os dentes de leite começam a dar lugar aos permanentes. Apesar disso, muitas famílias ainda procuram o consultório apenas quando aparece uma dor, uma situação que poderia ser evitada com prevenção e consultas regulares.
Em Fortaleza, a odontopediatra Aline Morais, conhecida pelo carinho e pela habilidade no atendimento aos pequenos pacientes, característica que lhe rendeu o apelido de “encantadora de crianças”, chama atenção para a necessidade de transformar o cuidado com a boca em parte da rotina de saúde da infância. Para ela, o acompanhamento não deve ser associado somente à existência de algum problema, mas funcionar como uma estratégia de prevenção e avaliação do desenvolvimento infantil.
A primeira orientação, inclusive, pode acontecer antes mesmo de o bebê nascer. É o chamado pré-natal odontológico, período em que a gestante recebe orientações sobre a própria saúde bucal e os cuidados que deverá adotar com o filho. Aline explica que esse acompanhamento permite identificar possíveis alterações e preparar a família para os primeiros meses de vida da criança.
“Durante o pré-natal odontológico, realizado pelo odontopediatra, também fazemos o acompanhamento preventivo da mãe. São três consultas, uma em cada trimestre da gestação: primeiro, segundo e terceiro trimestres. O acompanhamento é direcionado tanto à saúde bucal da mãe quanto aos cuidados que deverão ser adotados com o bebê”, explica.
A avaliação também pode envolver questões relacionadas à amamentação e à anatomia da língua. O freio lingual, por exemplo, merece atenção quando apresenta alterações capazes de interferir na movimentação da língua e no processo de sucção. Por isso, a avaliação precisa considerar como está ocorrendo o aleitamento e se existe alguma dificuldade que demande investigação. Quando há indicação, a criança pode ser encaminhada para avaliação e tratamento por profissionais habilitados.
Depois do nascimento, o cuidado continua. A chegada dos primeiros dentes representa uma nova etapa, na qual os responsáveis precisam receber orientações sobre higiene, alimentação e acompanhamento profissional. A especialista destaca que a primeira consulta não deve ser adiada até que todos os dentes estejam na boca ou que surja alguma alteração.
“Quando os primeiros dentinhos nascem, o bebê deve ir ao consultório para a realização da limpeza, chamada de profilaxia”, orienta Aline. Ela também relata que utiliza protocolos de laserterapia associados a outras técnicas e estimuladores orais em seu atendimento, conforme a avaliação individual de cada paciente.
Dentes de leite
Um dos equívocos mais comuns entre os responsáveis é acreditar que os dentes de leite não precisam de tantos cuidados porque serão substituídos pelos permanentes. A odontopediatra reforça que essa ideia pode trazer consequências para a saúde bucal da criança. Embora sejam temporários, esses dentes têm funções importantes na mastigação, na fala e na manutenção dos espaços necessários para a chegada da dentição permanente.
“Os dentes de leite precisam ser preservados. O dente de leite será substituído, mas precisamos mantê-lo íntegro e saudável na boca. Caso contrário, podemos ter problemas no processo de erupção dos dentes permanentes”, alerta.
A cárie dentária continua sendo uma das principais preocupações nessa fase. A doença pode começar de maneira discreta, com alterações na aparência do esmalte, e avançar quando não recebe o cuidado adequado. Uma mancha branca, por exemplo, pode representar um sinal inicial de desmineralização e precisa ser avaliada pelo profissional. O diagnóstico precoce permite definir a melhor conduta antes que o problema alcance estruturas mais profundas do dente.
“Quando identificamos uma mancha branca ativa, é necessário avaliar e diagnosticar a condição daquele dente por meio de exames de imagem e protocolos individualizados para cada paciente”, explica.
Ignorar uma cárie não significa apenas conviver com uma alteração estética. Com a progressão da doença, podem surgir dor, infecção e comprometimento da estrutura dentária. Em situações mais avançadas, quando a lesão alcança a polpa, pode ser necessário realizar tratamento endodôntico, conhecido popularmente como tratamento de canal. Dependendo da gravidade, existe ainda o risco de perda precoce do dente.
Além da cárie, alterações gengivais também merecem atenção. A gengivite, caracterizada pela inflamação da gengiva, pode estar relacionada ao acúmulo de placa bacteriana e à dificuldade de manter uma higiene adequada. Sangramento durante a escovação, vermelhidão e inchaço são sinais que não devem ser ignorados.
Da mastigação ao sono
A odontopediatria também tem um papel importante na observação de aspectos que ultrapassam os dentes. O desenvolvimento da arcada, a posição dentária, a mastigação, a respiração e até a qualidade do sono podem fazer parte da avaliação. Na infância, essas funções estão interligadas e, quando existe alguma alteração, a identificação precoce pode facilitar o encaminhamento para o profissional adequado.
Aline Morais chama atenção especialmente para os primeiros mil dias de vida, período considerado importante para o desenvolvimento infantil. Nessa etapa, a observação de hábitos alimentares, mastigação, escovação e oclusão ajuda a acompanhar a evolução da criança.
“Precisamos avaliar o desenvolvimento da criança, principalmente nos primeiros mil dias de vida, período em que devemos observar questões relacionadas ao neurodesenvolvimento, à alimentação, à escovação, à mastigação e à oclusão ideal”, afirma.
As alterações também podem exigir uma abordagem multidisciplinar. Dependendo do caso, o odontopediatra pode trabalhar em conjunto com fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e otorrinolaringologistas. Dificuldades relacionadas à linguagem, por exemplo, precisam de investigação adequada, sem atribuir automaticamente sua causa à saúde bucal. Já alterações respiratórias, aumento das amígdalas e adenoides ou suspeitas de distúrbios do sono podem demandar avaliação especializada.
Outro ponto observado é o bruxismo, caracterizado pelo apertamento ou ranger dos dentes. Quando há suspeita de alterações durante o sono, a investigação pode envolver exames específicos, como a polissonografia, de acordo com a indicação clínica.
O crescimento ósseo também merece acompanhamento. Algumas crianças apresentam alterações no desenvolvimento das arcadas ou hábitos que podem interferir na formação da mordida, como chupar o dedo. Nesses casos, a avaliação ortodôntica e ortopédica pode identificar a necessidade de intervenção no momento adequado.
Para a Encantadora de Crianças, um dos principais desafios ainda é conscientizar os responsáveis de que não se deve esperar uma queixa para procurar atendimento. A frequência das consultas depende das características de cada paciente. Embora o intervalo de seis meses seja comum em acompanhamentos preventivos, crianças com maior risco de cárie ou alterações gengivais podem precisar retornar em períodos menores, como três meses.
“Os tratamentos odontológicos mais comuns são os preventivos, que devem ser realizados, geralmente, a cada seis meses. No entanto, cada protocolo precisa ser individualizado para cada criança. Existem crianças que precisam ir ao consultório a cada três meses. Isso vai depender muito do risco de desenvolvimento de cáries, da condição gengival e de toda a saúde bucal dessa criança”, finaliza.
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