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Ceará / 02.06.2026

‘O Pix é do Brasil’: Lula diz que novo tarifaço de Trump foi baseado em ‘mentira’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em novo discurso, nesta terça-feira (dia 2) que o tarifaço de 25% sobre mercadorias brasileiras, com algumas exceções, sugerido pelo ...

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POR CEARÁ AGORA

Publicado em 02/06/2026 às 20:20

‘O Pix é do Brasil’: Lula diz que novo tarifaço de Trump foi baseado em ‘mentira’
© FONTE: Ceará Agora

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em novo discurso, nesta terça-feira (dia 2) que o tarifaço de 25% sobre mercadorias brasileiras, com algumas exceções, sugerido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).

— De forma intempestiva, anunciaram o aumento da taxação das coisas brasileiras para 25%. Com base numa mentira. A preocupação dos americanos é que o Pix pode abalar muito a chamadas empresas de cartão de crédito deles — disse Lula.

Além do Pix, a investigação comercial do Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) cita supostas tarifas desleais aplicadas pelo Brasil a produtos americanos, decisões da Justiça determinando a remoção de conteúdos das redes sociais, entre outros pontos.

Lula aguarda ligação de Trump

O presidente disse ainda que aguarda uma ligação do presidente dos EUA, Donald Trump, já que, segundo Lula, em encontro em meados de maio eles haviam combinado um prazo de 30 dias para uma conclusão ser tomada.

— Então, Trump, você disse que pintou uma química entre eu e você, você me deve uma reunião, e eu devo uma para você. Nós demos 30 dias para os nossos ministros negociarem, então estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência — afirmou Lula.

Possível ligação do tarifaço à família Bolsonaro

Mais cedo, Lula associou a família do ex-presidente Jair Bolsonaro — o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, e o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL) — à proposta dos Estados Unidos de aplicar tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras.

Na fala em Catalão (GO), o presidente lembrou da visita de Flávio aos Estados Unidos e chamou o provável adversário na corrida pelo Palácio do Planalto de “imbecil”.

– Ele foi pedir arrego. “Trump, dá uma porrada no Lula, taxa o Lula, porque o Lula vai ganhar as eleições, não deixa, prejudica o Lula”. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar é o povo brasileiro, os empresários brasileiros, o agronegócio – afirmou.

Lula também criticou a família do ex-presidente.

— Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores que ele. São vendilhões da Pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores — disse.

Mais cedo, Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Rádio Itatiaia, em Belo Horizonte, que havia pedido a Trump para poupar empresas brasileiras do tarifaço.

Acordo descumprido

Em Goiás, Lula também disse ter combinado com o presidente americano, Donald Trump, para fechar um acordo, durante a reunião no mês passado nos EUA. Porém, esse acordo ainda não foi fechado.

– Eu disse pro Trump: “Tem uma divergência aqui entre o seu ministro do comércio e o meu, então vamos dar 30 dias para eles provarem quem é que está certo; se eu estiver errado eu aceito e se você tiver errado você aceita”. E demos 30 dias, até agora já conversaram três vezes e não houve acordo – afirmou.

A fala ocorreu horas após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluir a investigação comercial aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana e recomendar a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com exceções para uma série de itens.

Lula começou o seu discurso lembrando da primeira taxação americana, de 50% sobre produtos brasileiros, no ano passado. Disse que, “ao invés de eu ficar nervoso e ficar fazendo bravata”, fez uma “guerra da narrativa”, argumentando que o Brasil tem um déficit na balança com os EUA.

Disse que, quando foi aos EUA, no mês passado, entregou a Trump um conjunto de dados, como informações sobre minerais críticos. E criticou o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

— O tal do Marco Rubio, que é o anti América Latina e que eu já disse ao Trump que ele não gosta do Brasil, ele não estava na reunião — disse. — Depois do sucesso da minha visita ao Trump, o Trump até riu, eles foram lá, a família foi lá conversar com o Marco Rubio. Aquilo é fotografia (foto de Flávio e Trump) de campanha. Eles foram encontrar com o Rubio e, quando é ontem, eu soube da notícia de que o comércio americano resolveu taxar o Brasil em 25%, quando nós estávamos em negociação – afirmou.

Considerado uma das figuras mais influentes da política externa do governo Trump, Marco Rubio é visto por integrantes do governo brasileiro como um dos principais defensores de uma postura mais dura dos Estados Unidos em relação ao Brasil. O secretário de Estado mantém proximidade com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e tem histórico de posições críticas a governos de esquerda na América Latina.

Venda de carne para China

Ainda durante sua fala, Lula procurou contrapor o anúncio americano com uma notícia positiva para as exportações brasileiras. O presidente destacou que a China reconheceu o Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação, medida que abre caminho para a ampliação das vendas de carne ao mercado chinês.

— Como Deus escreve certo por linhas tortas, nada acontece de graça. O que aconteceu hoje para se contrapor à medida do Trump? A China aceitou que o Brasil está nacionalmente livre da febre aftosa, que a nossa carne está livre para o mercado chinês — afirmou.

O presidente indicou que o governo pretende buscar novos mercados caso enfrente restrições comerciais dos Estados Unidos.

— Então veja, eu tenho muita sorte. Não vou ficar chorando. Se você não quer comprar de mim, eu vou vender para outro — disse.

Corrida eleitoral

No começo da tarde, o presidente reforçou a defesa do sistema de pagamentos instantâneos nas redes sociais. Perfis oficiais de Lula publicaram um vídeo com a mensagem “O Pix é do Brasil”.

A fala de Lula se encaixa na estratégia do governo de reforçar ataques ao clã Bolsonaro. Um ministro diz que, do ponto de vista político, as novas sanções são um presente para Lula porque darão mais munição para a ofensiva.

A fala de Lula se encaixa na estratégia do governo de reforçar ataques ao clã Bolsonaro. Um ministro diz que, do ponto de vista político, as novas sanções são um presente para Lula porque darão mais munição para a ofensiva.

Um integrante do governo que despacha do Palácio do Planalto afirma, porém, que o Executivo deve insistir no diálogo diplomático para reforçar que os EUA são superavitários na relação bilateral com o Brasil, apresentando argumentos técnicos e, assim, evitar que essa medida alcance outros setores. A avaliação de autoridades que acompanham as conversas é que essa foi, novamente, uma decisão política do governo Trump.

Integrantes do Planalto afirmam ser preciso explorar a atuação dos filhos de Bolsonaro e seus aliados nesse processo, lembrando que Flávio e Eduardo estiveram na semana passada com o presidente americano em audiência na Casa Branca.

O ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), por exemplo, afirmou nesta terça-feira em vídeo publicado nas redes sociais que Flávio e Eduardo Bolsonaro “trabalham contra o Brasil”, chamando-os de “traidores da pátria”.

“Mais uma vez, o Flávio Bolsonaro vai lá e vem proposta de tarifaço para prejudicar o Brasil. Essa turma não está a serviço do povo brasileiro, essa é a verdade. São traidores da pátria que não têm vergonha nenhuma e nenhum compromisso com o país”, disse o ministro.

De acordo com relatos, a ideia é adotar a mesma linha que foi utilizada quando o governo Trump anunciou tarifaço aos produtos brasileiros, em 2025, de culpar o clã Bolsonaro pelas medidas, reforçando a defesa da soberania brasileira, de suas empresas e do Pix, mecanismo alvo da nova decisão americana.

Defesa de Flávio Bolsonaro

Numa tentativa de antecipar qualquer desgaste à sua imagem, Flávio afirmou em entrevista nesta manhã que pediu “expressamente” a Trump, ao vice-presidente americano, JD Vance, e ao secretário de Estado Marco Rubio, para não taxar as empresas brasileiras. Flávio é o principal adversário de Lula nas eleições deste ano.

— Eu pedi expressamente: “não taxem as empresas brasileiras”. Em 2027 vocês vão ter um governo que vai sentar aqui com vocês, vai negociar de igual para igual. O nosso agro alimenta o mundo e não é justo taxar as nossas empresas. Temos que valorizar a nossa tecnologia, o nosso Pix, o nosso etanol, que é uma energia limpa. A gente tem que incentivar esse nosso capital que é o etanol. Nós temos tudo para sentar de igual para igual — afirmou Flávio em entrevista à Rádio Itatiaia, em Belo Horizonte, onde ele cumpre agendas nesta terça-feira.

Essa postura contrasta com a adotada por bolsonaristas no ano passado, quando Trump anunciou o tarifaço contra os produtos brasileiros. Naquele momento, Eduardo, por exemplo, afirmou que a decisão teria derivado da articulação feita por ele e o economista Paulo Figueiredo nos EUA.

Naquele momento, o tarifaço de Trump deu fôlego a Lula na corrida presidencial. Aliados do petista dizem acreditar que essa nova articulação poderá trazer prejuízos eleitorais a Flávio.

A medida anunciada nesta madrugada já era esperada por autoridades brasileiras que acompanham as negociações. A avaliação é que o desfecho da investigação da seção 301 não seria favorável ao Brasil, já que o governo Trump vinha usando do mecanismo para pressionar comercialmente o país.

Reunião emergencial

O Planalto convocou uma reunião de emergência na manhã desta terça-feira para discutir a nova decisão dos EUA e alinhar o discurso do governo. Participam os ministros Márcio Elias Rosa (Indústria) e Dario Durigan (Fazenda), além do vice-presidente Geraldo Alckmin.

Segundo um interlocutor do presidente da República, neste primeiro momento, não haverá um contato direto de canal de comunicação entre Lula e Trump para tratar das decisões recentes do governo americano.

O relatório divulgado pelo governo americano afirma que determinadas políticas e práticas do Brasil seriam “irrazoáveis” e prejudicariam empresas dos Estados Unidos. Entre os pontos citados estão o Pix, questões relacionadas ao comércio digital, propriedade intelectual, etanol, combate ao desmatamento e corrupção.

Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro consideraram a proposta sem fundamento técnico consistente e classificaram como “absurda” a inclusão de alguns argumentos apresentados pelos americanos. Ao mesmo tempo, auxiliares do presidente Lula avaliam que o resultado poderia ter sido mais severo, já que a tarifa sugerida ficou em 25% e o documento prevê uma ampla lista de exceções, além de mencionar a possibilidade de um acordo entre os dois países.

A expectativa é que o encontro desta terça-feira sirva para alinhar a estratégia do governo diante da nova escalada comercial. Entre as alternativas em análise estão a manutenção das negociações com Washington, por meio do grupo de trabalho criado após a reunião entre Lula e Donald Trump em maio, e eventuais medidas de resposta com base nos instrumentos previstos pela Lei da Reciprocidade Econômica.

O parecer do USTR abre agora uma etapa de consulta pública antes de uma decisão final sobre a adoção das sanções comerciais. O prazo legal para conclusão do processo termina em 15 de julho. Confira o calendário:

Veja abaixo os próximos passos:

  • Até 22 de junho de 2026: prazo máximo para o envio de solicitações de comparecimento à audiência pública, acompanhadas de um resumo do depoimento.
  • Até 1º de julho de 2026: Prazo para o envio de comentários por escrito sobre as medidas propostas pelo USTR.
  • 6 de julho de 2026: Realização da audiência pública oficial pelo USTR para debater as ações propostas.
  • 15 de julho de 2026: Prazo limite legal para a definição e aplicação das medidas corretivas contra o Brasil.

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